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Revista Linguagem em (Dis)curso, volume
4, número especial, 2004 |
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Discurso
Crítico e Gênero no Mundo Infantil: Brinquedos e a Representação
de Atores Sociais
Carmen
Rosa Caldas-Coulthard
Theo
van Leeuwen
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Resumo: O
objetivo desse artigo é analisar brinquedos que
representam seres humanos (atores sociais) e que
transmitem significados específicos de gênero. Faremos
referência à conexão existente entre objetos materiais,
imagens e textualidade. Nosso principal interesse são os
significados sociais potenciais que especificamente
diferenciam brinquedos para meninas de brinquedos para
meninos, e os valores ligados a essas representações. As
pesquisas feministas parecem não ter dado suficiente atenção
aos brinquedos como uma área de extrema importância em
termos de representações sociais. Nosso objetivo,
portanto, é tentar expor e desafiar os significados
sexistas que subjazem os brinquedos, e inserir, na agenda
feminista, uma visão dos brinquedos como forma de
comunicação.
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Palavras-chave: discurso;
semiótica social; gênero social; brinquedo.
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1.
Introdução
Brinquedos
são objetos semióticos que são produzidos e distribuídos
globalmente por poderosas empresas multinacionais. Freqüentemente,
transmitem mensagens para as crianças sobre o mundo social em
que elas vivem. São produzidos como um sistema, que permite
distinções quanto ao grau de realismo (ou abstração, ou
exagero), com o qual representam elementos de práticas
sociais. São, simultaneamente, ‘objetos’ para serem lidos
como textos, e objetos para serem manipulados. Parte de seu
significado é oferecido pelos designers
da indústria. Podem, portanto, ter agendas explícitas e às
vezes implícitas; neste sentido, brinquedos são um repositório
das ideologias e ‘sistemas de valores’ sociais.
O
objetivo deste artigo é focalizar os brinquedos que
representam seres humanos (atores sociais) e comunicam
significados específicos de gênero. Faremos referência à
ligação entre objetos materiais, imagens e textualidade.
Nosso principal interesse está nos significados sociais
potenciais que diferenciam, especificamente, brinquedos de
meninos de brinquedos de meninas e nos valores relacionados a
tais representações. A pesquisa feminista parece não haver
dispensado atenção suficiente aos brinquedos como uma área
extremamente importante em termos de representação. Assim,
nosso objetivo é começar a expor e a desafiar significados
sexistas e situar os brinquedos como comunicação na agenda
feminista.
Figura
1
– Fotografias de Ken e Barbie’s tiradas do catálogo da
Barbie; fotos de The Rock e de Jacqueline’s tiradas das
caixas dos brinquedos.
Na
figura 1, temos quatro representações de atores sociais
criados (em princípio) para crianças. Teoricamente, qualquer
criança poderia optar por brincar com qualquer um deles. Na
realidade, porém, meninos tendem a não brincar com Ken;
meninas tendem a não brincar com Jacqueline. Ouvimos de um
pai que ele ficaria horrorizado se seu filho de 10 anos
preferisse brincar com Barbies. O maravilhoso filme francês Ma
Vie em Rose, dirigido por Alan Berliner, mostra muito bem
o conflito vivido pelos pais que são confrontados com as
escolhas feitas por seu filho em termos de identidade de gênero.
No filme, o menino começa a revelar sua identidade através
de sua escolha de brinquedos (ele brinca com Barbies, ou
bonecas similares): seu mundo era o mundo cor de rosa da
Barbie – um mundo de meninas.
Brinquedos,
como a Barbie, Ken ou Action Man, representam atores sociais
através do modo como são projetados em temos de movimentos,
da combinação de cores, entre outras coisas, e estes
‘modos’ estão sempre condicionados pelas ideologias e
contextos sociais da época em que foram produzidos. Para Hall
(1997, p. 61), representação
é:
o
processo através do qual membros de uma cultura usam
sistemas de significação para produzir significado…
Objetos, pessoas, eventos no mundo não têm em si mesmos
qualquer significado fixo, final ou verdadeiro. Somos nós,
em sociedade, que atribuímos significado às coisas e ao
mundo que nos rodeia. Os significados, conseqüentemente,
irão sempre mudar, de uma cultura ou período para
outro.
De
acordo com a afirmação de Hall brinquedos são, portanto,
representacionais, no sentido de que eles significam como a
sociedade se parece: seus papéis (relações de poder
inscritas em papéis sociais), suas tecnologias (representação
de ferramentas e instrumentos – carrinhos, trenzinhos,
computadores e telefones de brinquedo, etc.), suas identidades
e práticas sociais.
Roland
Barthes (1993, p. 53) sugere
que brinquedos são um “microcosmo do mundo adulto” e
sempre significam alguma coisa:
[…]
esta alguma coisa é sempre inteiramente socializada,
constituída pelos mitos ou pelas técnicas da vida adulta
moderna. Brinquedos representam, basicamente, as instituições
de nossas sociedades: o Exército, a Radiodifusão, os
Correios, a Medicina (maletas de médico em miniatura,
salas de cirurgia para bonecas), a Escola, o Salão da
Cabeleireira (secadores para fazer permanente), o
Transporte (trens, Citroens, Vedettes, Vespas, postos de
gasolina) e a Ciência (Brinquedos espaciais, ferramentas,
etc.).
E
poderíamos ainda acrescentar a Família e as relações de gênero.
Jacqueline e The Rock, por exemplo, são lutadores e são
produzidos para meninos – nas lojas eles estão colocados
junto ao Action Man, carrinhos e outros brinquedos de meninos.
Têm atributos principalmente masculinos com os quais os
meninos precisam lidar – ser forte, poderoso e aventureiro.
Suas características físicas (músculos salientes, os seios
volumosos de Jacqueline) conotam exagero à beira da distorção.
Seus corpos quase nus afirmam sua sexualidade. Ken e Barbie,
por meio de seu código de vestuário, pose e aparência em
geral são, por comparação, representantes do conformismo,
de atividades socialmente desejáveis, como ir para o
trabalho, ir às compras, etc.
Nosso
objetivo neste artigo é começar a discutir como os
brinquedos (e os textos e imagens que acompanham os objetos
materiais) são semióticamente significativos, e como alguns
de seus significados são produzidos. Iremos nos concentrar em
aspectos do design, em algumas imagens através das quais as
agências publicitárias divulgam seus produtos e, finalmente,
na linguagem produzida para vender brinquedos. Considerando
que os brinquedos são recursos que as crianças usam para
entender o mundo, é importante explorar alguns desses
significados.
2
Por que brinquedos?
Vemos
imagens de brinquedos em toda parte – nas propagandas, nos
medias, na televisão, nos filmes e nos textos. Elas são
produzidas de acordo com significados sociais que variam histórica
e culturalmente e, portanto, transmitem mensagens diferentes
para as crianças sobre o mundo social e as práticas sociais
que as rodeiam. Soldadinhos de lata, por exemplo, populares no
século XIX, significavam a heroicização dos ‘grandes’ generais ou almirantes, durante um
tempo em que o ‘patriotismo’ era um valor social (este
valor também era construído através de práticas de guerra
e de canções nacionais e narrativas de guerra). Hoje em dia,
soldadinhos de lata já não são mais populares. Brinquedos
de construção, como, por exemplo, Meccano e, mais tarde, o
Lego, apareceram durante a era do construtivismo e
significavam padronização, universalidade, uniformidade e
objetificação (o brinquedo não produz nenhuma reação
afetiva, mas cria possibilidades para múltiplas combinações).
Assim, em geral, a materialidade dos objetos (aquilo de que são
feitos), como metal, plástico, madeira, ou materiais macios,
e aquilo que representam, revelam referências culturais.
Brinquedos, portanto, estão intimamente relacionados ‘ao que está acontecendo’ na sociedade, suas ideologias e seus
valores.
Historicamente,
os brinquedos têm sido vistos ou usados como modelos isolados
do mundo real – de bonecas, cavalinhos e bolas a trenzinhos,
carrinhos, brinquedos de construção e games. Nas sociedades pós-modernas, porém, brinquedos não são
somente réplicas do mundo real; são, na verdade, um meio de
comunicação de massa central para a vida social contemporânea,
seja como modelos (réplicas), miniaturas ou objetos
interessantes (com ou sem qualquer referência ao mundo real),
ou como partes integradas de outros meios de comunicação de
massa. O fenômeno Star
Wars é um bom exemplo. O filme, que foi relançado em
1999, disparou todo um projeto comercial, e quando se visita
uma loja de brinquedos hoje em dia, vê-se seções inteiras
dedicadas à parafernália do Star
Wars.
Assim,
os brinquedos são um meio muito importante através do qual
as crianças aprendem significados sociais e a interagir
com os outros. Brincar é sempre brincar com algo ou com alguém,
e os brinquedos são meios através dos quais a interação se
dá.
Um
outro aspecto do mundo do brinquedo é que o aprendizado
está ligado ao conceito de brincar. Aristóteles foi o
primeiro a fazer a distinção entre jogo
e trabalho. Quando adultos ocidentais trabalham, geralmente utilizam
‘ferramentas’ (de modo interessante, ‘brinquedo’ e
‘ferramenta’ são uma única palavra em alemão – zeug),
mas trabalhar com ferramentas é mais importante/aceitável e
mais prestigioso do que brincar com brinquedos. Agora estamos
testemunhando o advento dos games
de computador sendo usados nas escolas, mesmo com crianças
bem pequenas, como ferramentas de aprendizado – edu/entretenimento é o novo conceito
educacional. Jogar no mundo tecno mudou das mãos/corpo para
os dígitos/cérebro, e os valores do trabalho e do jogo
ficaram indistintos.
Os
brinquedos também continuam importantes para os adultos.
Muitas pessoas colecionam brinquedos, ou guardam brinquedos
aconchegantes da infância, chegando mesmo a comprar
brinquedos novos, relacionando-se com eles de maneiras
afetivas especiais. Ursinhos de pelúcia ou bichinhos macios,
por exemplo, são secreta ou explicitamente guardados em
quartos de dormir, levados ao local de trabalho, ou colocados
nos carros. Neste sentido, os brinquedos também são um fenômeno
adulto. Em conversas sobre brinquedos, muitos adultos tendem a
se lembrar de eventos relacionados a sua própria infância e,
de algum modo, parecem relembrar um tempo perdido. Entretanto,
muitos adultos sentem-se embaraçados ao falarem de seus
brinquedos e isto parece estar relacionado a valores do
trabalho e do jogo a que Aristóteles se referiu.
Isto
nos leva ao aspecto industrial/comercial dos brinquedos. De
acordo com Sutton Smith (1986, p. 2), apenas nos Estados
Unidos, “cerca de 800 empresas vendem por volta de 150.000
diferentes tipos de brinquedo e seus subprodutos, com cerca de
4.000 novos itens lançados todo ano, empregando cerca de
60.000 pessoas”. Estes números e pontos mencionados acima são
significativos o bastante para nos fazer pensar sobre os
brinquedos como importantes bens culturais.
3
Brinquedos como potencial de significado semiótico
Brinquedos
são essencialmente multi-modais – eles são:
-
Objetos
tridimensionais que podem ser lidos e interpretados como
textos (entendemos textos, semióticamente falando, como
objetos materiais concretos produzidos em discurso, e sua
estrutura comunicativa (HODGE e KRESS, 1988, p. 6));
-
Objetos
para serem manipulados e usados.
Kress
(1993, p. 174) sugere que todos os textos “codificam da
mesma forma as posições ideológicas de seus produtores”.
Como signos semióticos e, portanto ‘textos’, os
brinquedos também se localizam em discursos de gênero, idade
e classe social, entre outros.
Também
possuem as características básicas daquilo que Scollon
rotula de “discurso mediado” (2000/5):
-
Os
brinquedos são interdiscursivos
“posicionados dentro de discursos múltiplos,
sobrepostos e mesmo conflitantes” – os discursos da
família, da escola e da publicidade;
-
Têm
elos intertextuais com
outros meios de
comunicação de massa, especialmente com as narrativas clássicas
e modernas de todo tipo – livros, filmes e histórias em
quadrinhos. Em muitos casos, fica-se em dúvida do que
apareceu antes – se o brinquedo como objeto, ou se histórias
que eventualmente se transformam num brinquedo. Ursinhos
de pelúcia, por exemplo, foram primeiramente produzidos
como brinquedos e posteriormente, diferentes estórias,
recontadas em diferentes mídias (filmes, livros, desenhos
animados, etc.) foram produzidas após o brinquedo (GREY e
GREY, 1995). Um processo inverso ocorre atualmente com os
últimos filmes Disney, que começam como narrativas e são
fonte de muitos brinquedos.
-
São
dialógicos –
um meio através do qual diferentes tipos de
‘conversas’ podem ser estabelecidas.
O
significado dos brinquedos é, assim, uma combinação entre o
que os brinquedos propriamente ‘são’ (os significados
dados às crianças pela indústria de brinquedos), e o que as
crianças ‘fazem’ com os brinquedos, ou as maneiras como
elas os usam. Presumimos que quando as crianças brincam, os
sentidos que criam não são necessariamente os mesmos atribuídos
pelo fabricante ao brinquedo. As crianças podem aceitar,
rejeitar ou transformar os significados oferecidos. Os signos
oferecidos, conseqüentemente, poderiam ser
reinterpretados/re-apropriados e recriados pela criança que
brinca, com outros signos (incluindo signos de outros modos
como a fala, expressões faciais, gestos, roupas). Em outras
palavras, os brinquedos são um código, uma linguagem com a
qual as crianças podem construir seus próprios
roteiros/narrativas, de modo a incorporar os signos distribuídos
globalmente aos contextos específicos de seu próprio mundo:
a escola ou a família. (VANDENBERG, 1986; SUTTON-SMITH, 1986). Um personagem da Playmobil,
por exemplo, construído como um ‘bombeiro’, torna-se um
bebê que pode ser posto para dormir (e a maca do bombeiro é
transformada num berço pela menininha que brinca com o
objeto).
Podemos
dizer, assim, que brinquedos são, simultaneamente, comunicações
já produzidas e ferramentas com as quais se produzem
significados. Podemos traçar analogias entre brinquedos como
sistemas comunicativos e a linguagem como um sistema – ambos
produzem significados ideacionais, interpessoais e textuais (HALLIDAY,
1985). Nós interagimos com os objetos de acordo com estas três
dimensões. Os brinquedos, como um “sistema semiótico,
projetam as relações entre o produtor de um signo ou um
signo complexo, e o receptor/reprodutor daquele signo. Os
brinquedos também projetam uma relação social particular
entre o produtor, o observador e o objeto representado” (KRESS
e VAN LEEUWEN, 1996, p. 41). E, finalmente, eles podem ser
textualizados de muitas maneiras diferentes, através de estórias,
filmes, desenhos animados, fotos, comerciais, etc.
4
Brinquedos e gênero – representações visuais
Que
tipos de bonecas existem? Que idades, etnias, profissões, e
assim por diante, estão disponíveis como brinquedos, e quais
não estão? Como são representados meninos e meninas, homens
e mulheres – velhos, jovens, homens, mulheres, negros,
brancos? E como se parecem? O que podem fazer? Quem é incluído
e quem é excluído do mundo dos brinquedos? Quais são os
significados sociais potenciais que diferenciam
especificamente brinquedos de meninas de brinquedos de
meninos, e quais são os valores ligados a essas representações?
Certos
papéis, como práticas de domesticidade (a casa e a mulher
como dona de casa, por exemplo) são super-representados,
enquanto práticas de ‘paternidade’ estão basicamente
ausentes no mundo dos brinquedos. A velhice é outra categoria
social que é raramente representada no mundo dos brinquedos
ocidentais. Assim, presumimos que os recursos utilizados pela
indústria têm como base certos significados preferenciais,
como sugerido por Hall (1997), que, por sua vez, têm como
base determinada visão da ordem social.
Assim,
nos perguntamos: quais são os significados sociais potenciais
que diferenciam brinquedos de meninas daqueles de meninos, e
quais são os valores ligados a essas representações?
Butler
(1990) aponta que gênero é performativo, criado pela
performance repetida de atores sociais. Gênero não é algo
que temos ou somos, mas sim algo que atualizamos em
performance. De acordo com a autora, negociamos constantemente
e somos capazes de desafiar nossas posições de gênero em
relação a concepções de feminilidade e masculinidade:
Gênero
não é um substantivo, mas também não é um conjunto de
atributos flutuando livremente, pois já vimos que o
efeito substantivo do gênero é produzido de modo
performativo e compelido pelas práticas reguladoras de
coerência de gênero. Assim, nos limites do discurso
herdado da metafísica da substância, o gênero se prova
performativo [...] Neste sentido, o gênero é sempre um
fazer. (p. 24-25)
Embora
concordemos com a afirmação acima e com a noção de
performatividade em gênero, parece que Butler exclui a semiótica
de suas considerações: gênero também pode ser representado
em termos de ‘identidade’ – o
que você é ou que características você tem. O menino
no filme francês a que nos referimos acima, ao
brincar com Barbies, estava representando a feminilidade,
já que ele não podia ir à escola vestido de menina, nem
usar o cabelo de uma menina. Barbies e outros brinquedos, ao
contrário, já são dotados de gênero antes que as crianças
façam qualquer coisa, ou que qualquer coisa seja feita com
eles. Em alguns casos, o gênero é representado por meio de
traços não modificáveis (os pés da Barbie são às vezes
desenhados exclusivamente para sapatos de salto alto, por
exemplo), em outros casos, através de traços modificáveis
(o penteado, roupas). Estes traços ou características
constituíram nosso ponto de partida.
Para
nós, os brinquedos, como objetos, são representações fixas
inegociáveis. A verdadeira questão é, contudo, até que
ponto e como as crianças (e os pais) se alinham com os
significados de gênero dados. Esta é uma questão muito
importante, que precisa ser melhor pesquisada. Nas próximas
seções, apresentaremos algumas das maneiras como o gênero
é representado em brinquedos.
4.1
Design e movimento
O
gênero pode ser implicitamente construído em brinquedos que
representam seres humanos simplesmente pelo modo como os
bonecos podem ser movidos. Podem ou não ser desenhadas de modo cinético, isto é, tendo partes que se movem ou que podem
ser movidas. A representação da ação difere
consideravelmente de um brinquedo para outro. Alguns
brinquedos são desenhados para a ação, outros, para assumir
poses.
Isto
é muito importante em termos de representação de gênero.
Os bonecos para meninos são visivelmente diferenciados das
bonecas para meninas. Action
Man, por exemplo, fica de pé sozinho, sem cair; consegue
segurar objetos; sua cabeça se move para os lados; suas
pernas podem se abrir. Seu corpo musculoso e suas mãos
poderosas são seus principais traços distintivos. Por outro
lado, as bonecas para meninas, como a Barbie,
não ficam em pé sozinhas; não podem segurar nada nas mãos;
suas pernas não se abrem; e sua cabeça se move em todas as
direções. Tanto o movimento de cabeça (especialmente de um
lado para o outro e para cima e para baixo), quanto à
possibilidade de dobrar os joelhos, fazem com que a boneca de
menina possa ser colocada em ‘posições submissas’ –
com a cabeça levemente inclinada, por exemplo. Action
Man, ao contrário, pode manter o queixo erguido, numa
postura orgulhosa! Sua cabeça só se move para os
lados.
Tais
diferenças dificilmente pedem maior elaboração. Elas
capturam os mais básicos e essenciais elementos da linguagem
corporal relacionada ao gênero, pois permeiam a cultura
popular ocidental. Os potenciais de ação destes bonecos e
bonecas são para a linguagem da ação o que desenhos feitos
apenas de linhas são para a linguagem da comunicação
visual: a representação reduzida ao essencial, o esboço básico,
como, por exemplo, um desenho de uma face que consiste em uma
linha redonda com dois pontos para os olhos e uma linha
semicircular para a boca. Esta é uma das lições chave dos
brinquedos desenhados de modo cinético: o movimento é
‘programado’, o ‘social’ torna-se ‘genético’. As
ilustrações encontradas nas lojas e nas caixas dos
brinquedos carregam a mesma mensagem em termos de movimento.
Barbies
(o retrato de mulher em sua juventude com um rosto bastante
atraente) ficam em pé como que incapazes de se moverem [fig.
2]. Na verdade, as Barbies
precisam de um suporte para ficar de pé. Nos catálogos e nas
caixas, as Barbies ficam estáticas, colocadas em lugares
relacionados à vida doméstica (a casa, o jardim, a loja),
enquanto o Action Man é, geralmente, colocado em ambientes ao
ar livre – perto da natureza selvagem, pronto para a ação.

Figura
2
- Fotos tiradas do catálogo da Barbie.
O
Action Man, ao contrário, parece estar sempre em movimento e
é colocado em contextos específicos ao ar livre, que
envolvem perigo e movimento [fig. 3].
Assim
como acontece com o design cinético, a representação visual dos brinquedos situa
meninos e meninas em diferentes esferas e transmite
significados relacionados ao gênero.
Usando
a teoria sistêmica de Halliday para analisar a comunicação
visual, Kress e Van Leeuwen (1996) afirmam que representações
visuais têm a ‘modalidade’ realizada de maneiras
diferentes no meio visual. Para eles, uma das questões
cruciais é a da confiabilidade da mensagem. Será que o que
vemos ou ouvimos é verdade (factual, real) ou uma ficção,
algo fora da realidade? A modalidade
em imagens, portanto, refere-se
ao
valor de verdade ou credibilidade de afirmações a
respeito do mundo. Imagens visuais podem representar o
mundo como se fosse real, de modo naturalístico (realis),
ou como fantástico, imaginário (irrealis). A realidade
naturalística é definida com base na correspondência
que possa haver entre as representações visuais de um
objeto e aquilo que normalmente vemos daquele objeto a
olho nu. (KRESS e VAN LEEUWEN, 1996, p. 160)
Damos
mais credibilidade a alguns tipos de mensagem do que a outras.
Dizem que fotografias não mentem. No entanto, fotógrafos
editam a realidade através de seu próprio ponto de vista e
desta forma podem também ‘alterar’ o que achamos ser o
‘real’. Os autores afirmam que uma teoria semiótica
social não pode estabelecer a verdade ou a inverdade absoluta
das representações. Este tipo de teoria só é capaz de
mostrar se uma dada proposição é representada como
verdadeira ou não. A modalidade, neste sentido, é essencial
em relatos de representações multi-modais como brinquedos, já
que podem representar pessoas, lugares e coisas como se elas
fossem reais ou fantásticas, caricaturas ou cópias perfeitas
do ‘real’.

Figura
3
- Fotos tiradas do catálogo do Action Man.
Os
autores ainda sugerem que uma das maneiras como a realidade é
modulada na comunicação visual é através da cor, do foco e
da profundidade (perspectiva), que podem ser idealizados em um
grau maior ou menor. A cor desempenha um papel em todas as orientações de código. Podemos ter cor abstrata (e.g.,
o rosado uniforme para os rostos, ou o esverdeado, para a
grama); podemos ter cor naturalística, ou ainda podemos ter
cor sensorial – a cor se torna sensorial à medida que
‘excede’ o naturalismo. A cor também é fonte de prazer e
produz (ou não) significados afetivos. Todos nós
reconhecemos o valor emotivo e sensual das cores. Através de
tons diferentes, o princípio do prazer é encenado. Reagimos
positivamente às cores que nos atraem. E as cores em geral
estão carregadas de significação social.
4.2
Cor e Gênero
A
cor pode ser um importante significante de gênero. Pense na
tradicional oposição entre as roupas de bebê azuis e cor de
rosa, ou os marrons e cinzas que dominam as roupas dos homens
e os tons mais claros que estão associados às roupas
femininas. O modo como os brinquedos são embalados,
catalogados e divulgados demonstram a enorme prevalência de
‘pink’ em brinquedos para meninas. Um catálogo da Barbie
inclui moveis cor de rosa (na ‘Boutique da Noiva’),
vestidos cor de rosa, um ‘Motor home’ cor de rosa, além de muito rosa nas letras e no fundo
das fotos e do texto. Até mesmo a web
page tem um fundo cor de rosa. Assim, em nossa sociedade,
o rosa ou ‘pink’ possui uma associação inegável com o
feminino. Entretanto, não existe apenas um tom de rosa.
Existem todos os tipos de malva, púrpuras róseos, púrpuras
azulados, indo do pálido ao quente e profundo, e do claro ao
escuro ameaçador – e isto significa que também pode haver
mais de um tipo de ‘feminilidade’.

Figura
4 – Fotos tiradas do catálogo Playmobil.
Outras
cores, como o azul para meninos, ou cores escuras para homens,
trazem consigo valores associados à idéia de
‘masculinidade’. Mas, na cultura popular contemporânea,
estes valores não são codificados de modo explícito. Eles
parecem simplesmente emergir da nossa experiência com o tipo
de coisas que são cor de rosa ou malva na natureza e na
cultura, sofrendo um ajuste fino dos sobre-tons simbólicos de
‘escuro’, de ‘claro’ e de ‘intenso’, que podem
criar tipos de ‘feminilidades’ e de ‘masculinidades’
‘escura’ ou ‘clara’, ‘pálida’ ou ‘intensa’.
Uma
comparação entre dois catálogos coloridos e lustrosos da
Playmobil, um de 1993 [fig. 4] e outro de 1999 [fig. 5],
revela algumas diferenças notáveis. No catálogo de 1993, a
maioria dos brinquedos ilustrados está relacionada à vida
cotidiana (vida na fazenda, vida em casa, atividades de férias,
construção de estradas, a polícia, a ambulância, e assim
por diante) – e os tons de rosa, malva e púrpura estão
quase que completamente ausentes. As únicas exceções são o
navio pirata, o circo e a mansão vitoriana do século XIX: há
púrpura rosado em algumas das roupas dos piratas e nas flores
da ilha deserta; vemos púrpura rosado nos trajes do
encantador de serpentes e no tecido decorado sobre o dorso do
elefante. E púrpura rosado no casaco do cavalheiro vitoriano,
como também no fundo atrás da mansão.
No
catálogo de 1999, o mundo real abriu espaço para o mundo da
imaginação: a floresta encantada, a expedição do século
XIX na selva, o Oeste Selvagem, o palácio de contos de fadas.
E tons de rosa, malva e púrpuras de diferentes tons de escuro
e intensidade dominam todo o catálogo. Porém, quando olhamos
com mais atenção para esses dois mundos, o mais realista e o
mundo fantástico, começamos a notar contrastes interessantes
– o mundo dos meninos tende a ser mais escuro e mais
intenso. Quase que invariavelmente invoca mistério e perigo
– as cores escuras e intensas estão no céu por trás de um
alce confrontado com uma matilha de lobos, numa tempestade
violenta, e na floresta encantada. O palácio de contos de
fadas, em contraste, exibe mais tons de rosa e é mais
brilhante. A sensação de mistério e aventura desaparece,
substituída por uma atmosfera de romance. As cores do palácio
lembram o rosa pastel e os azuis d’O
Jardim das delícias de Bosch (reproduzido em MURRAY,
1963, p. 224), que evoca uma sensação de tranqüilidade,
sossego, feminilidade.
Voltando
ao catálogo da Barbie, podemos ver como diferentes tons de
rosa são usados - o rosa claro, por exemplo, é ligado à
inocência infantil (‘Shelly
Playhouse’) e à vida familiar (‘Motor
home’). Tons mais escuros estão relacionados à Barbie
adolescente, e são também encontrados no banheiro, na
‘Boutique da Noiva’, na cena em que Barbie, vestida em
trajes de banho ‘rosa choque’, dirige seu ‘sun wheeler’ para a praia, ‘pronta para divertir-se ao sol’
– em resumo, sempre que surge a possibilidade da
sexualidade.

Figura
5 – Fotos tiradas do catálogo do Action Man.
Tons
de rosa, malva e púrpura são relativamente raros na
natureza, vistos somente em flores ou pedras preciosas, ou em
manchas coloridas de aves tropicais. Esta raridade constitui a
chave para seu significado potencial. Um fator semântico
isolado está sempre presente quando estes tons são
empregados – significam ‘o que não é comum, mas sim
especial’ (daí seu uso nos trajes cerimoniais especiais de
bispos, reis, etc.). Contexto e grau de escuro e intensidade
irão enfatizar ainda mais esse significado especial, por
exemplo, tendendo na direção do mistério, ou do perigo, ou
da sexualidade. Ainda assim, é possível que essas cores
atuem de forma intertextual como pano de fundo em qualquer
interpretação mais restrita: no mundo dos brinquedos
infantis, a sexualidade sempre será misteriosa e perigosa,
por exemplo, e o perigo também pode ser sexualmente
excitante. E como os mesmos tons de rosa, malva e púrpura não
apenas predominam nos catálogos de brinquedo, mas também nos
cenários de programas de televisão e na decoração dos
interiores dos espaços públicos e privados, a mesma atitude
talvez permeie o todo de uma sociedade pós-moderna, que é
simultaneamente cheia de riscos e saturada de sexualidade.
5
Textos e Brinquedos
Iremos
considerar a seguir como as distinções de gênero são
realizadas a nível textual. Os exemplos escritos foram
tirados de caixas de brinquedos, catálogos, e de WebPages.
Discutiremos brevemente como os significados ideacionais,
através da classificação e da avaliação, fazem distinções
de gênero no discurso explícito da propaganda.
Geralmente,
bonecos e bonecas são nomeados e, portanto, classificados em
termos de papéis sociais. Brinquedos para meninos apresentam
algumas classificações muito estranhas, mas, implicitamente,
situam os pseudo-atores em cenários orientados em termos
profissionais ou de ação. Action
Man é:
Dr.
X, Pollar, Polar Mission (Missão Polar), Bowman
(Arqueiro), Roller Extreme, Bungee Jumper (Saltador de
Bungee), Ninja.
Essas
classificações apontam para relações de poder (Dr.), para
super habilidades (Roller Extreme, Bungee Jumper), ou para o
poder sobrenatural (Ninja). Em todas elas, portanto, algum
tipo de poder é transmitido.
Por
outro lado, bonecas para meninas são classificadas de acordo
com profissões e papéis ‘femininos’, mas nenhuma avaliação
super humana ou colocação em práticas de prestígio social
estão associadas às classificações: elas são shoppers
(consumidoras), bailarinas,
mães, enfermeiras, cabeleireiras,
e os contextos em que são colocadas estão, de modo geral,
dentro do espaço doméstico ou nas praias da Flórida (nos
perguntamos por que?!). Mais uma vez, os nomes são muito
estranhos, cômicos, na verdade, mas apontam para construções
românticas e idealizadas da feminilidade, como os tons rosa
nas casas e na mobília.
Barbies,
por exemplo, podem receber nomes como:
Noiva
Orquídea Ruborizada (Blushing Orchid Bride), Rosa do
Campo (Country Rose), Anjo Harpista (Harpist Angel), Ilusão
(Illusion), Rosa (Rose), Sonho de Verão (Summer Dream),
Sinfonia em Chiffon (Symphony in Chiffon), Esplendor de
Verão (Summer Splendour).
Os
textos abaixo constituem outro exemplo de como, através de
avaliações e da construção da ação no discurso,
representações textuais sinalizam diferenças de gênero.
Considere o que se segue (textos tirados de <http://www.actionman.com>
e <http://barbie.com>):
Noiva
Orquídea Ruborizada (Blushing Orchid Bride) (TM) Barbie(R)
Coleção
Flor de Casamento (Wedding Flower Collection)
A
Barbie Noiva Orquídea Ruborizada é a terceira Edição
Limitada de bonecas de porcelana na Coleção Flor de
Casamento
Celebrando
a beleza e o significado da orquídea na cerimônia de
casamento, ela veste um vestido de noiva de um macio cetim
cor de rosa, com cauda e camadas de tule brilhante
enfeitadas com fita. Um bordado iridescente recobre o
corpete, que se afila dramaticamente em longas pétalas
simulando uma orquídea. Seu rosto delicado, pintado à mão,
é adornado por um véu cor de rosa, que flui em camadas
de um círculo duplo de pérolas de imitação, combinando
com suas jóias e até com as pequeninas pérolas de imitação
em suas luvas e em seu buquê.
Glória
do Outono (Autumn Glory) (TM) Barbie(R)
Coleção
Estações Encantadas (Enchanted Seasons Collection)
A
Barbie Glória do Outono, da Coleção Estações
Encantadas, é um tributo estonteante às maravilhas do
outono. Seu corpete bem ajustado com apliques metálicos
prende-se a um longo vestido de chiffon
tremeluzindo em tons de cobre e castanho avermelhado,
adornado com folhas de outono e acentuado com toques de púrpura
e dourado. Seus brincos têm a forma de graciosas folhas
douradas. Sobre seu longo cabelo castanho avermelhado
repousa um chapéu cor de vinho escuro, enfeitado com
penas e folhas, acrescentando um toque final a este
maravilhoso retrato do outono.
Barbie
Austríaca (Austrian Barbie)
Grüss
Gott (Saudações) da Áustria! A Barbie Austríaca é tão
adorável quanto o país que representa, em sua saia
rosa-floral, blusa branca e jaqueta imitação de feltro
adornada em verde com lindas flores bordadas nas lapelas.
Seus acessórios incluem um lenço de pescoço cor de rosa
com ilhós nas bordas, meias brancas, sapatos pretos,
brincos de “pérola” e um anel de “pérola”. Seu
autêntico traje austríaco colorido faz lembrar as cores
vibrantes dos belos vales nevados dos Alpes do país,
luxuriantes florestas verdes e alegres flores alpinas.
Compare,
agora, com o que se segue:
Action
Man Bungee
Action
Man é o maior herói de
todos! Action Man salta para o desconhecido com seu
fabuloso bungee
jumping kit, que inclui um arnês de dois estágios,
arpéu e óculos escuros super-cool.
Action
Man Mergulhador do Ártico (Arctic Diver)
Action
Man é o maior herói de
todos! Action Man entra em ação mais uma vez; desta vez,
em uma excitante missão no fundo do mar, com equipamento
de mergulho ‘descolado’ e um fantástico e realista
treinamento debaixo d’água.
Action
Man Pára-quedista (Sky Diver)
Action
Man é o maior herói de
todos! Agora, Action Man
salta para a glória com um magnífico equipamento de
pára-quedismo! Ele abre
seu glorioso pára-quedas e desce em segurança até a
terra usando seu prático traje de vôo e seu
capacete.
Os
textos da Barbie, possivelmente endereçados para um público
de colecionadores adultos (considerando itens léxicos como
– ‘iridescente’, ‘camadas de tule’, ‘que se
afila’, etc...) estão interpretando, ideacionalmente, um
mundo mental e relacional – a boneca. Os processos
selecionados incluem é,
veste, representa, e o leitor é ‘lembrado’.
Os
longos grupos nominais avaliam
positivamente o que a Barbie é:
uma participante ocasional nos processos. Qualquer parte de
seu corpo, ou partes de suas roupas são ‘identificadas’
nos processos relacionais: o bordado, a mão/rosto
pintado, seu
corpete, seus
brincos, etc. Isto significa que ela é descrita
simplesmente como ‘existindo’ sem controle sobre o que está
acontecendo com seu corpo.
Os
textos do Action Man, por outro lado, interpretam o mundo em
termos de ações: Action Man ‘salta’, ‘entra em ação’,
‘abre’, ‘desce’. Ele é o ator principal nos processos
materiais descritos e está no controle de suas ações.
A
Barbie (e suas roupas) é avaliada/apreciada (ver WHITE, 1999,
MARTIN, 2000) em termos de valores estéticos – ficando
corada, estonteante, luzindo, iridescente,
macia, brilhante, delicada,
graciosa, etc., enquanto o Action Man é avaliado de acordo com o julgamento
social: super-cool, excitante, fantástico,
prático, realista.
As
estruturas de gênero textuais nas descrições da Barbie e do
Action Man também são bastante diferentes – o texto da
Barbie poderia ser incluído em um gênero de passarela, onde
as modelos são descritas e os adultos estão interessados nos
atributos e características da boneca. Os textos do Action
Man, ao contrário, poderiam pertencer a um tipo de gênero de
comercial de TV, dirigido a uma criança interessada em
brincar de faz de conta.
No
mundo da publicidade de brinquedos, o texto que se segue seria
incongruente, para dizer o mínimo:
O
estonteante homem californiano, em suas brilhantes botas
negras Caterpillar, calças de marca de imitação de feltro
em tom carmesim e um sensual fraque com colete, estampado com
desenhos abstratos em laranja e prata, é tão adorável
quanto o Estado que ele representa. O fraque, justo no peito,
afila-se dramaticamente para enfatizar sua cintura delgada.
Seus acessórios incluem um anel de ouro com um brilhante
solitário, um finíssimo relógio de ouro com pulseira de
ouro branco, um colar de ouro maciço e um brinco desenhado
como uma graciosa pétala de rosa. Seu rosto delicadamente
pintado transmite a firmeza de sua personalidade. Em cima de
seus negros cabelos belamente penteados repousa um chapéu cor
de vinho, adornado com penas de cauda de cisne, acrescentando
um toque final ao maravilhoso retrato da masculinidade
americana.
A
incongruência se deve ao fato de que atribuímos a um ator
social masculino os mesmos tipos de escolhas lexicais e de
transitividade usados nos
textos da Barbie. Isto mostra como significados ideacionais e
as avaliações usados a partir de certo ponto de vista ideológico
põem em evidência um mundo caracterizado por relações de gênero.
5
Conclusões
No
mundo dos brinquedos, divisões de gênero se perpetuam em
suas representações: os homens têm a ver com o mundo público,
são orientados para a ação e possuem poderes superiores. O
mundo das mulheres, por outro lado, está ligado à
domesticidade: as mulheres são avaliadas em termos de valores
estéticos e geralmente estão envolvidas com as profissões
humanitárias e educacionais – até mesmo a professora
Playmobil está vestida de rosa!
Apesar
dos brinquedos serem considerados pela maioria das pessoas
como trivialidades que não devem ser levadas a sério, como
sugere Sutton Smith (1986), estes objetos, aparentemente inócuos,
são repositórios de valores sociais que podem determinar o
modo como a criança vê o mundo.
Esperamos
ter demonstrado, através de nossa análise, que os brinquedos
estão intimamente relacionados a importantes padrões
culturais na sociedade em geral, e continuam a projetar um
mundo perigoso, desigual e marcado por relações de gênero.
Bonecas para meninas são representadas como fisicamente
limitadas na maneira como se movem, são romantizadas (através
de códigos de cor, da linguagem e, às vezes, sexualizadas de
modos específicos), e são basicamente ancoradas em um
‘mundo real’ de afazeres domésticos. Elas também são
convencionalmente restringidas a certas atividades e papéis
sociais. Os brinquedos para meninos e suas representações,
por outro lado, constroem ação, risco e poder. O mundo dos
brinquedos e suas muitas representações constroem os seres
humanos de modos bastante diferentes – o mundo ‘real’ e
o ‘mundo da imaginação’ são diferentes para meninos e
meninas. Se meninos e meninas são expostos desde cedo a uma
versão tão diferente do mundo, suas identidades também serão
construídas sobre esta diferença. E isto é assustador.
Referências
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WHITE, P. An introductory tour through appraisal theory. 1999.
Disponível em: <www.gramatics.com/appraisal>.
(Texto
republicado – sem data de tramitação.):
|
Title:
Stunning,
Shimmering, Iridescent: toys as the representation of
gendered social actors |
|
Author:
Carmen
Rosa Caldas-Coulthard and Theo van Leeuwen
|
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Abstract:
The
aim of this paper is to focus on toys which represent
human beings (social actors) and communicate specific
gendered meanings. We will make reference to the
connection between material objects, images and textuality.
Our main interest is in the potential social meanings
which specifically differentiate girls’ and boys' toys
and the values attached to these representations. Feminist
research seems not to have given sufficient consideration
to toys as an extremely important area in terms of
representation. Our aim therefore is to start to expose
and challenge sexist meanings and to put toys as
communication on the feminist agenda.
|
|
Keywords:
discourse;
social semiotics; gender; toys.
|
|
Tìtre:
Discours
critique et genre dans le monde infantile: Jouets et la
représentation d’acteurs sociaux |
|
Auteur:
Carmen
Rosa Caldas-Coulthard et Theo van Leeuwen
|
|
Résumé:
L’objectif
de cet article est celui d’analyser des jouets qui représentent
d’êtres humains et qui transmettent des significations
spécifiques de genre. On fera des références à la
connexion existante entre objets matériaux, images et
textualité. Notre intérêt principal concerne les
significations potentielles qui, spécifiquement, font la
différence entre les jouets pour les filles et les jouets
pour les garcons, et les valeurs liées à ces représentations.
Les recherches féministes donnent l’impression de n’avoir
pas fait attention suffisante aux jouets comme un domaine
d’extrême importance en termes de représentations
sociales. Notre objectif, donc, est celui d’exposer et
de défier les significations sexistes qui ne donnent pas
assez d’attention aux jouets, et d’insérer, dans
l’agenda féministe, une vision des jouets, selon une
forme de communication. |
|
Mots-clés:
discours;
sémiotique sociale; genre social; jouet.
|
|
Título:
Discurso
crítico y género en el
mundo infantil: juguetes y la representación de
actores sociales |
|
Autor:
Carmen
Rosa Caldas-Coulthard y Theo van Leeuwen
|
|
Resumen:
El
objeto de ese artículo es hacer el análisis de juguetes
que representan a seres humanos (actores sociales) y que
transmiten significaciones específicas de género. Se
hace referencia a la conexión entre objetos materiales,
imágenes y textualidad. Nuestra principal atención se
direcciona, principalmente, no sólo a las significaciones
sociales potenciales que específicamente hacen la
distinción entre los juguetes para niñas y los para los
niños, sino también a los valores vinculados a dichas
representaciones. Las investigaciones feministas, según
las apariencias, no han dado suficiente atención a los
juguetes para considerarlos pertenecientes a una área de
extrema importancia en lo que respecta a las
representaciones sociales. Por lo tanto, nuestro objetivo
es intentar exponer y desafiar las significaciones
sexistas subyacentes a los juguetes, e insertar, en el
memorial feminista, una visión de los juguetes como forma
de comunicación. |
|
Palabras-clave:
discurso; semiótica social; género social;
juguete.
|

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