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Revista Linguagem em (Dis)curso, volume
4, número especial, 2004 |
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INTERDISCURSIVIDADE E CONFLITO
ENTRE DISCURSOS SOBRE RAÇA EM REPORTAGENS BRASILEIRAS
Célia
Magalhães
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Resumo: Neste artigo, parto
de debates sobre a questão racial nas teorias sociais
brasileiras para analisar um corpus contemporâneo de
reportagens de um jornal brasileiro. Meu objetivo é a
investigação da mudança nos discursos mediados sobre raça.
Com base em uma combinação de ferramentas teóricas e
metodológicas da análise crítica do discurso e da lingüística
de corpus, focalizo palavras chave usadas no jornal para
se referir à cor da pele, as relações lexicais criadas
em torno dessas palavras, e sua associação com a
intertextualidade. A análise combinada das relações
lexicais e da intertextualidade permite perceber uma tensão
entre termos relativos à cor da pele e à origem cultural
e um conflito entre discursos originados de distintas
classificações de raça. A análise também permite uma
interpretação cautelosa da dialogicidade e, portanto,
das diferentes orientações para a diferença racial nas
reportagens.
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Palavras-chave: raça; léxico; intertextualidade; dialogicidade;
interdiscursividade.
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1 Introdução
Sabemos que há uma imagem do Brasil,
construída e divulgada dentro e fora do país, como paraíso
racial onde não há preconceito nem discriminação racial.
Desde os anos setenta, entretanto, as pesquisas acadêmicas e as
ações políticas do Movimento Negro têm contestado essa
ideologia dominante. Especialmente depois da participação do
Brasil na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação
Racial, a Xenofobia e a Intolerância em Durban, em julho de
2001, parece estar acontecendo uma mudança discursiva na
sociedade brasileira. Tal mudança parece estar associada,
dentre outras, às políticas adotadas pelo governo com relação
ao currículo do ensino secundário, com a inclusão do ensino
da história e cultura africanas, e o estabelecimento de cotas
para brasileiros descendentes de africanos nas universidades. Um
aspecto crucial dessa mudança é, contudo, a luta entre
diferentes discursos sobre raça, representada de forma mais
explícita nos jornais que, por sua natureza de linguagem
mediada, constituem-se em arenas de conflitos discursivos.
Neste trabalho, parto de teorias
sociais sobre raça para analisar um corpus contemporâneo de
reportagens da Folha de São Paulo. Argumento que as relações
lexicais em construção nestas reportagens, em torno de termos
chave sobre raça e cor, associadas à intertextualidade,
apontam para discursos distintos sobre classificação racial
que lutam, seja por sua permanência, seja por seu
estabelecimento como nova ordem discursiva. Para atingir meu
propósito, focalizo palavras que se referem à cor da pele,
como negra(s), negro(s), preto(s) e pardo(s),
tentando responder às seguintes perguntas: que relações semânticas
são criadas em torno desses termos? Essas relações podem ser
associadas à intertextualidade? Até que ponto a associação
das relações lexicais com a intertextualidade sinaliza para a
interdiscursividade e para orientações do jornal em relação
à questão racial? Ao responder essas perguntas, argumento que
há discursos distintos sobre raça em jogo e, simultaneamente,
uma reprodução do discurso do “racismo cordial” e um
desafio a este discurso no jornal. Também sugiro que se constrói
uma associação entre as questões de raça e de classe nas
reportagens, o que pode indicar que esses dois aspectos estão
imbricados na identidade brasileira, em função da opressão
econômica sistemática das populações brasileiras de origem
africana no país.
2 Teorias sociais brasileiras contemporâneas
sobre raça
Meu objetivo nesta seção é
examinar as teorias contemporâneas sobre os desenvolvimentos da
questão racial no Brasil nos últimos trinta anos. Pode-se
entender a representação do Brasil como o país da democracia
racial (ver FREYRE, 1966 para a concepção de democracia
racial) como resultado de um ideal de não segregação de
brancos e negros depois da abolição da escravidão,
diferentemente do que aconteceu, por exemplo, nos Estados
Unidos. Guimarães (2003) explica que a representação mítica
de uma sociedade brasileira sem preconceito ou discriminação
tem origem na idéia, muito difundida nos Estados Unidos e
Europa, de que o Brasil não tem uma linha de cor e, portanto,
as “pessoas de cor” teriam as mesmas oportunidades que as
brancas em relação a questões de trabalho, saúde e prestígio.
Schwarcz (2000) se refere ao tipo de
relação racial construída no país sob o mito da não segregação
e não discriminação como “racismo cordial”, ou seja, uma
modalidade de relação racial em que o preconceito seria
proibido e, caso existisse, deveria ser reprimido. Schwarcz
sugere, ainda, que a base da identidade brasileira deveria ser a
raça, argumentando que a questão racial não pode ser
totalmente compreendida enquanto estiver limitada à questão de
classe ou mesmo oculta nesta questão.
Piza (2003a) focaliza estudos mais
reveladores da discriminação racial e da exclusão dos negros
dos projetos brasileiros de progresso social e econômico nos
anos setenta, quando comparações dos níveis escolares, de
emprego e de salários dos diferentes grupos raciais começaram
a ser feitas com base em dados estatísticos. Guimarães (2003)
acrescenta que é também depois dos anos setenta que os
movimentos negros brasileiros passam a fazer uma campanha mais
aberta contra o racismo e as desigualdades para que estas questões
pudessem ser reconhecidas dentro e fora do país. Seguindo a
publicação da primeira lei que bania a discriminação racial
em 1950, continua Guimarães, a Constituição de 1988
determinou que esta prática era crime e muitas outras medidas
foram tomadas em relação à questão.
Outros estudos recentes na área
sugerem que a ideologia dominante da democracia racial no Brasil
levou a uma aparente invisibilidade da questão racial num
contexto discursivo mais amplo. Uma das estratégias para
atingir esta invisibilidade era a representação dos grupos
raciais através do uso de uma ampla gama classificatória de
cor. Nascimento (2003) descreve esta representação como aquela
que leva em conta critérios de natureza puramente estética,
sendo a cor um signo da celebração da mistura de raças, em
que a noção de origem étnica ou racial não teria um papel e,
portanto, não estimularia o racismo e a discriminação.
Nascimento denomina esta forma de desracialização ideológico-discursiva
de “sortilégio da cor”. Eu proponho nomeá-la, seguindo
Fairclough (2003) e Chouliaraki e Fairclough (1999),
“esteticização” (“aestheticization”)
das identidades raciais no sentido de que esta forma discursiva,
de classificação racial através de uma gama variada de cores,
nos leva, de modo mais ou menos consciente, do campo da origem
étnica ou cultural para o campo da cor da pele, com o propósito
de criar uma imagem particular dessas identidades.
Sobre a questão da classificação
de cor – classificação no sentido de Bourdieu, conforme
interpretação de Fairclough (2003, p. 213) como “[...] modos
pré-construídos e tomados como únicos de divisão de partes
do mundo [que] geram continuamente ‘visões’ do mundo, modos
de vê-lo e de agir sobre ele” –, Carone (2003) afirma que
os descendentes de africanos no Brasil usam uma gama detalhada
de cores para se identificarem. A autora observa, entretanto,
que esses grupos raciais parecem não endossar a classificação
de cor usada pelo IBGE desde 1940 (brancos, pretos, pardos e
amarelos) (ver PIZA, 2003b). A gama de nuances de cores
diferentes, mais claras ou escuras, compiladas nestes estudos
recentes sugerem um desejo, apontado por Sodré (2000), de
passar por “miscigenado” devido ao discurso naturalizado de
acordo com o qual quanto mais a pessoa se aproxima de uma nuance
mais clara da cor negra mais ela está próxima da cor branca e,
conseqüentemente, da condição humana.
Deve-se notar aqui que os movimento
negros passaram a usar a palavra negro, em vez de preto,
para se identificar, a partir dos anos sessenta, com o objetivo
de incluir negros e pardos num mesmo grupo de descendentes de
africanos e de forma a que o grupo assim formado pudesse ser
identificado através de sua origem cultural e ser reportado
como grupo minoritário (PIZA, 2003b). Os integrantes do
movimento, no meu entender, tentaram, assim, reconstruir a
identidade negra desafiando a classificação existente.
Entretanto, possivelmente devido ao “habitus” (ver
CHOULIARAKI e FAIRCLOUGH, 1999 e LEMKE, 1995, para uma leitura
do conceito de Bourdieu), acabaram escolhendo outro termo que
remete à cor da pele. É, também, possivelmente devido ao “habitus”,
nesse caso, uma disposição incorporada para a classificação
através da cor da pele, que a palavra negro, fora do âmbito
dos movimentos negros, ainda é destituída deste significado
reconstruído e pode ser usada como insulto quase com a mesma
freqüência que a palavra preto, como mostra Guimarães
(2003). Para Guimarães, o termo negro é uma síntese
verbal ou cromática de estigmas relativos à identidade racial
e a própria cor adquire uma função estigmatizadora, conforme
sugerem seus sentidos negativos nos dicionários da língua.
Carone e Nogueira (2003) sugerem que
a raça é representada nos jornais brasileiros como uma questão
de natureza explosiva, como um problema atribuído aos próprios
negros e, na maioria das vezes, como objeto de conflitos
externos e não internos, o que reforça o discurso da
democracia racial. Sodré (2000) também dedica parte de sua
pesquisa a uma investigação da representação racial na
imprensa. Ele acrescenta à discussão os termos claros e
escuros ao esquema multifacetado de cores usado, de modo
geral, na sociedade brasileira, e a noção de que quanto mais
clara for a pele, mais alto pode-se chegar numa hierarquia de
poder.
Uma questão central no debate
apresentado até aqui, portanto, é a “esteticização” da
identidade racial, ou seja, é a tentativa de se classificarem
os grupos raciais pela cor, representação da beleza e harmonia
da mistura racial brasileira, em detrimento de uma classificação
desses grupos por sua origem cultural. No entanto, esta
“esteticização” parece estar sendo contestada por teóricos
contemporâneos que a interpretam como base da ideologia da
democracia racial. Tentarei mostrar, através de uma análise
sistemática de discursos em reportagens contemporâneas, que o
discurso de classificação de cor se apresenta como dominante,
mas é, simultaneamente, desafiado quando dialoga com outros
esquemas classificatórios, especialmente depois que os jornais
começam a se apropriar dos discursos das leis que introduziram
o estudo da história e cultura africana no ensino fundamental e
as cotas raciais nas universidades e a articulá-los com o
esquema classificatório de cor. Argumento, então, que uma análise
abrangente da questão é facilitada por uma combinação de análise
textual e pesquisa social, conforme proposta pela análise crítica
do discurso (ACD).
3 Por que a ACD e qual vertente da
teoria?
Para a sugestão de que a ACD tem
respostas para as questões levantadas pelos teóricos sociais
brasileiros, remeto as leitoras
para os princípios básicos da teoria conforme expostos por
Reisigl e Wodak (2002). Argumento, ainda, pela escolha da
vertente de ACD associada com Chouliaraki e Fairclough (1999) e
Fairclough (2001, 2003) como suporte teórico para o estudo da
tensão no uso de termos para relatar a questão racial no
jornal analisado. Para tanto, destaco dentre as diferentes
vertentes de ACD aquelas que se preocupam com questões raciais
para justificar minha escolha.
Van Dijk (1998, 2003, entre outros)
apresenta um quadro multidisciplinar que privilegia uma
abordagem sócio-cognitiva do racismo. Wodak (REISIGL e WODAK,
2001; WODAK, 2001) propõe uma abordagem cuja base é um
conceito complexo de crítica social envolvendo três aspectos
interligados principais, os dois primeiros associados com a
dimensão da cognição, e o último relacionado com a dimensão
da ação. As duas versões oferecem ferramentas poderosas para
a análise de discursos racistas e têm contribuído muito para
a pesquisa na área. Entretanto, não as adotarei por uma razão
teórica principal. Como estou interessada em desvelar o
conflito entre os discursos sobre raça no jornal, o referencial
teórico de Chouliaraki e Fairclough (1999) e de Fairclough
(2001, 2003) mostra-se mais adequado, porque facilita o foco no
hibridismo interdiscursivo – o entrecruzamento de diferentes
vozes e discursos nas reportagens – por seu diálogo com as
teorias de Bakthin e Foucault. Além disso, esta vertente teórica
tem uma relação interdisciplinar com as teorias sociais e a
lingüística sistêmico-funcional (LSF), cujas categorias
atendem aos meus propósitos de análise.
4 Corpus e metodologia
A Folha de São Paulo
(doravante Folha) tem sido analisada como jornal que,
simultaneamente, reproduz e constrói uma visão mais liberal
sobre as questões que divulga, embora não leve em consideração
a diversidade étnica de suas leitoras para a escolha das
reportagens a serem feitas. Apesar disso, publicou um suplemento
sobre o racismo cordial e o preconceito de cor em 1995 (Folha de
São Paulo/DataFolha, 1995); também tem assumido posições
anti-racistas conforme demonstra d’Adesky (2001), dentre
outros.
O corpus foi coletado da versão
online do jornal de janeiro a julho de 2003, através de
pesquisa encomendada ao setor responsável do jornal. As
palavras chave raça, racismo e racista foram
usadas na busca de textos para compor o corpus. Tomo, aqui,
“palavras chave” no sentido de Williams (1988, p. 15), ou
seja, “[...] em dois sentidos relacionados: são palavras
significativas, que ligam certas atividades à sua interpretação;
são palavras significativas e indicativas de certas formas de
pensamento”. Preferi não usar a noção de
“palavras-chave” que serviu de base para a ferramenta Keywords
do programa WordSmith Tools que uso nesta pesquisa, isto
é, palavras que se destacam por sua freqüência num corpus, em
comparação com outro corpus maior, de referência. Não quis
analisar palavras com base no destaque que pudessem ter no
corpus; ao invés disso, estava interessada no fato de que as
palavras poderiam me levar a discursos distintos, ou a formas
distintas de pensamento sobre a questão racial no jornal. Também
queria investigar os textos com o objetivo de verificar a evidência,
bem como o desafio ou contestação, das diferentes “di-visões”
ou, classificações, de raça. O corpus assim compilado contém
73 textos (com 25.417 palavras) publicados em seções ou
suplementos diferentes do jornal. O quadro 1 mostra essas seções
diferentes, o número de textos de cada seção, classificados
de acordo com os gêneros discursivos a que se vinculam e o tema
de tais textos como local, nacional ou internacional.
|
Seções
|
(Nº
de textos e) Gêneros Discursivos
|
Origem
dos fatos tratados nos textos
|
|
Cotidiano
|
22
reportagens
|
|
|
Folhinha
|
12
reportagens
|
Local
|
|
Mundo
|
10
reportagens
2
entrevistas
|
Internacional
(9), Nacional (1)
Internacional
(1), Nacional (1)
|
|
Brasil
|
10
reportagens
|
Nacional
|
|
Esporte
|
8
reportagens
|
Internacional
|
|
Opinião
|
2
editoriais
|
Nacional
|
|
TVFolha
|
1
reportagem, 1 entrevista
|
Local
|
|
Ciência
|
1
reportagem
|
Nacional
|
|
Caderno
Mais
|
1
resenha
1 ensaio
|
Nacional
|
|
Entretenimento
|
1
reportagem
|
Internacional
|
|
Turismo
|
1
reportagem
|
Internacional
|
Quadro
1 – O corpus da Folha online – Janeiro a Julho de
2003.
Por razões metodológicas, tomei
como “reportagens”
os textos cujos traços mais proeminentes pudessem ser
associados aos traços do gênero discursivo reportagem, por
exemplo, o foco em um evento público recente de acordo com o
valor de notícia, e a estrutura genérica básica – título,
lead, corpo do texto – (ver BELL, 1991; FAIRCLOUGH, 1995;
SCOLLON, 1998, dentre outros, para análises abrangentes de
reportagens e discurso midiático). Ressalto que as reportagens,
compiladas a partir das palavras chaves raça, racismo
e racista e que estas palavras, de fato, eram parte da
notícia ali reportadas, ou seja, a questão racial. O quadro 1
mostra que a Folha publicou um total de 47 reportagens sobre a
questão racial brasileira em contexto local (34), em contexto
nacional (12) e em contexto internacional (1), além de 2
entrevistas, 2 editoriais e 1 ensaio. O quadro mostra, assim,
que a questão racial é reportada mais como questão interna do
que externa, que ocorre alhures.
Analiso, primeiramente, todo o
corpus, sem distinção de gênero discursivo, focalizando os
termos de cor para investigar as relações lexicais nele
construídas. Em segundo lugar, examino a intertextualidade e a
interdiscursividade (ver FAIRCLOUGH, 1992, 2003; ver também
LEMKE, 1995) nas 47 reportagens cujo foco é a raça no Brasil,
a fim de investigar como os diferentes discursos são
articulados. Finalmente analiso a dialogicidade e a diferença
no jornal.
5 Relações lexicais e raça
Com o suporte da lingüística de
corpus explorei as relações lexicais como aspecto importante
das construções de raça no corpus (ver estudos relacionados
como o de KRISHNAMURTHY, 1996 e o de STUBBS, 1996). A principal
ferramenta usada foi a linha de concordância (cf. HARD-MAUTNER,
1995) tal como produzida pela função Concord do WordSmith
Tools. Analisei as ocorrências de cada palavra que se
referia à cor da pele a fim de investigar se elas tinham
“predisposição”
para algum tipo de uso colocacional no corpus. “Predisposição”
é um conceito de Hoey (no prelo) definido por ele como o fato
de que “[...] na medida em que se aprende uma palavra através
de encontros com ela na fala e na escrita, ela se torna
carregada dos efeitos cumulativos desses encontros de tal forma
que passa a fazer parte do nosso conhecimento desta palavra o
fato de que ela co-ocorre com outras”.
Também comparei estas “predisposições” no
corpus com o que apresentam os dicionários do português
brasileiro (HOLANDA FERREIRA, 2004, e BORBA, 2002) e o Banco de
Português (BP),
corpus com 240 milhões de palavras em 2003. Só foi possível o
acesso a uma amostra de cerca de um milhão de palavras do
Banco, disponível na rede, de modo que deve ser levado em conta
que os resultados das análises se baseiam nessa amostra. As
Tabelas 1,2 e 3, abaixo, mostram o número e porcentagem das
ocorrências dos itens lexicais derivados dos lemas etn-, rac-
e negr- no corpus das 73 reportagens, com 25.417 palavras:
Tabela
1 – Freqüência dos itens derivados de etn-:
|
Itens
Lexicais
|
1
Ocorrências
|
|
Nº
|
(%)
|
|
Etnia(s)
|
6
|
0.02
|
|
Étnico(a)(s)
|
11
|
0.04
|
|
Total
|
17
|
0.06
|
Tabela 2 – Freqüência
de itens derivados de rac-:
|
Itens
Lexicais
|
2
Ocorrências
|
|
Nº
|
(%)
|
|
Raça
|
10
|
0.04
|
|
Racial
|
29
|
0.11
|
|
Total
|
39
|
0.15
|
Tabela 3 – Freqüência
de itens derivados de negr-:
|
Itens
Lexicais
|
3
Ocorrências
|
|
Nº
|
(%)
|
|
Negra
|
36
|
0.14
|
|
Negras
|
21
|
0.08
|
|
Negro
|
38
|
0.15
|
|
Negros
|
107
|
0.42
|
|
Negritude
|
1
|
0.00
|
|
Negreiro
|
1
|
0.00
|
|
Total
|
204
|
0.80
|
Os itens lexicais derivados de negr-,
ou seja, os itens relacionados à cor da pele, têm ocorrência
quase quatro vezes maior do que a soma dos itens derivados dos
lemas etn- e rac-, que fazem parte do campo semântico
de origem cultural. A Tabela 4 mostra a predisposição dos
itens lexicais do campo semântico “cor da pele”:
Tabela
4 – Predisposição dos itens relativos à cor da pele:
|
Itens
|
Adjetivo
|
Substantivo
|
|
Nº
|
(%)
|
Nº
|
(%)
|
|
Negra
|
32
|
88.89
|
4
|
11.11
|
|
Negras
|
14
|
82.35
|
3
|
17.65
|
|
Não-negras
|
2
|
50.00
|
2
|
50.00
|
|
Negro
|
27
|
71.05
|
11
|
28.95
|
|
Negros
|
26
|
24.30
|
81
|
75.70
|
A predisposição dos itens lexicais negra(s)
parece ser a de ocorrer como adjetivos, modificadores de
substantivos em grupos nominais ou atributos de portadores em
processos relacionais. O fato de que há poucas ocorrências
destas palavras como substantivos parece dar suporte ao estudo
de Guimarães (2003), que investiga o seu uso como insulto
racial ou, conforme argumento, esse fato sugere que estes itens
lexicais, usados como substantivos, parecem incorporar uma referência
sutil à escravidão, o que pode também ser depreendido das
definições de Holanda Ferreira (2004) – “negra: 1. Mulher
de cor preta. 2. Escrava, cativa.” –, do exemplo de Borba
(2002) – “Tiana, minha negra, peço a você cinco bules de
café.” – e das linhas de concordância do BP, conforme
apresentadas abaixo:
|
17
|
porque
o demônio da negra estava então que não valia
duas patacas ;mas
|
|
18
|
|
A negra
tomou muita afeição à cria. Desvelava por el
|
Negra ocorre uma vez como
atributo do portador, um substantivo abstrato, pobreza,
além de ocorrer como modificador de substantivos abstratos ou
concretos em pobreza negra, beleza negra, cidade
negra e história negra. O grupo nominal pobreza
negra, sintaticamente diferente, mas semanticamente
semelhante ao grupo nominal pobreza dos negros parece
criar uma ambigüidade que contribui para um conflito discursivo
no jornal, tema de que tratarei na seção seguinte. Além
disso, pode-se dizer que o próprio adjetivo e os itens lexicais
a ele associados nas frases cria uma prosódia semântica
negativa, como é o caso de sua colocação com violência
no exemplo 1 e apagar no exemplo 2, abaixo:
(1) [...] São Paulo é a maior cidade
negra do país. Não dá para combater a violência sem
desenvolver programas para esse grupo. (Folha, 30/06/03)
(2) No Brasil, documentos que
registravam as origens desses povos foram queimados logo após a
abolição da escravatura (1888). A idéia era apagar a
história negra do país. (Folha, 01/02/03)
A colocação pobreza negra
sugere, ainda, uma imbricação entre classe e raça devido à
associação sintática do sintagma, trazendo à baila uma outra
associação, inerente entre os dois conceitos, uma questão à
qual voltarei mais à frente, onde darei outros exemplos.
O item lexical não-negras é
uma adição interessante do corpus ao léxico da língua já
que, no meu entender, é uma escolha menos monolítica para brancas,
em que outros grupos raciais podem se incluir. Entretanto, a
base para a classificação ainda é a cor da pele como mostra o
exemplo 3, abaixo:
(3) Os grupos foram divididos em 542
negras e 526 não-negras. (Folha, 13/07/03).
A predisposição da palavra negro
sugere que ela ocorre principalmente como adjetivo, modificadora
de substantivo em grupos nominais ou atributo de portador em
processo relacional. O item lexical negros, por sua vez,
ocorre mais freqüentemente como substantivo. Além disso, sua
ocorrência maior é em sintagmas preposicionados onde os núcleos
são proporções, o que indica o tipo de pesquisa quantitativa
que o jornal parece privilegiar, além de uma perspectiva mais
numérica e menos interpretativa da questão social, como pode
ser observado em algumas das linhas de concordância abaixo:
|
11
|
existência
de 46,8% de negros abaixo da linha d
|
|
12
|
ma
proporção maior de negros que a verificada n
|
|
13
|
m
geral, a proporção de negros cai para 32,1%.
|
|
14
|
s,
onde a incidência de negros é menor. Ele exp
|
Finalmente, também investiguei as
palavras pretos e pardos. As poucas ocorrências
destes itens lexicais no BP, a definição de preto como
“4. Sujo, encardido” e de pardo
como “2. De um branco sujo, duvidoso”,
em Holanda Ferreira (2004), sugerem que sua predisposição é
para ocorrer como adjetivos com sentido negativo. As raras ocorrências
de pretos (2 ocorrências de pretos e 1 ocorrência
de preta) no corpus, cujas linhas de concordância são
apresentadas abaixo, sugerem, ademais, que esses itens têm sido
substituídos pelas palavras negros/negra num contexto
mais amplo, provavelmente porque estes últimos se difundiram
discursivamente depois que os movimentos negros introduziram seu
uso para identificar o grupo racial:
|
1
|
tuação
à frente da Fala, Preta!, ONG dirigida a
|
|
2
|
A
situação de saúde de pretos e pardos reflete a
|
|
3
|
o
IBGE classifica como pretos e pardos. Depois
|
Os resultados encontrados para pardos
(8 ocorrências) também revelam uma tendência ainda mais forte
para a supressão deste termo pela mesma razão. Estes itens
parecem ser mais freqüentes nas colocações pretos e pardos
e brancos e pardos, associadas à classificação do
IBGE, mas pardos também faz colocação com negros
em negros e pardos, o que pode gerar conflito, já que,
no discurso do movimento negro, o primeiro item, supostamente,
inclui o último. Na próxima seção, tento interpretar esses
resultados à luz do que Fairclough (2003) define como
intertextualidade e interdiscursividade nos gêneros
discursivos.
6 Intertextualidade
e interdiscursividade
Fairclough (2003) se baseia em Vološinov
(1978) e Bakhtin (1986) para argumentar que a intertextualidade
é uma propriedade responsável pela abertura para a diferença
nos textos. A visão de intertextualidade de Fairclough é
abrangente, pois considera outras formas menos óbvias de
introdução de vozes nos textos, tais como as várias formas de
discurso indireto ou as várias formas de se atribuir ou não o
que é dito, escrito ou resumido às pessoas que disseram ou
escreveram algo (ver os conceitos de intertextualidade
“manifesta” e “constitutiva” em FAIRCLOUGH, 1992).
Há vários estudos detalhados sobre
a intertextualidade, ou as formas que os discursos diferentes são
representados nos textos escritos (LEECH e SHORT, 1981;
CALDAS-COULTHARD, 1994; FAIRCLOUGH, 1995; THOMPSON, 1996;
SCOLLON, 1998, dentre outros). O meu objetivo aqui é, via
intertextualidade, analisar a interdiscursividade através da
escolha de itens lexicais usados para reportar-se à raça e não
dar conta, exaustivamente, da intertextualidade no jornal.
Assim, tomei como base, principalmente, três categorias de
Leech e Short (1981), ou seja, discurso direto (DD), discurso
indireto (DI), e relato narrativo de ato de fala (RNAF – narrative
report of speech act), com o suporte de Short, Semino e
Culpepper (1996) que sugerem que o padrão de apresentação da
fala nos jornais britânicos está entre DI e RNAF,
possivelmente, devido ao seu modo principal de resumir o que as
pessoas dizem e à imagem equilibrada que têm junto ao seu público
leitor, embora a apresentação de DD também seja crucial em
suas reportagens de notícias.
As linhas de concordância também
foram úteis como um primeiro passo para o escrutínio dos DDs e
DIs. Como palavras de busca, estabeleci as palavras que, para,
segundo e acordo (da colocação de acordo com),
algumas das formas mais freqüentes de apresentação de DI em
reportagens. Também estabeleci as aspas seguidas de asterisco
(*) como item de busca para o DD. Entretanto, essas buscas também
demandaram expandir substancialmente as linhas e um escrutínio
detalhado do co-texto e contexto da busca.
As ocorrências das formas diferentes
no contínuo em direção ao DI (LEECH e SHORT, 1981) são em número
cerca de duas vezes maior que as ocorrências de formas no contínuo
em direção ao DD. Esses dados confirmam um traço do discurso
mediado das reportagens, isto é, elas privilegiam o DI (ver
BELL, 1991; SHORT, SEMINO e CULPEPPER, 1996; SCOLLON, 1998,
dentre outros). Em termos da interdiscursividade, é possível
observar que escolhas diferentes de itens lexicais para se
referir à raça apontam para o fato de que, ao mediar discursos
diferentes, as reportagens reproduzem e/ou ajudam a criar
conflitos discursivos sobre a noção de raça.
As reportagens publicadas na Folhinha,
por exemplo, recontextualizam o texto da lei que determinou que
a história e cultura africana fizessem parte dos currículos
das escolas fundamental e de ensino médio (para a noção de
“recontextualização”, ver FAIRCLOUGH, 2003). A reportagem
intitulada Diversidade na escola informa no lead
que foi aprovada a lei que determina que todas as escolas devam
introduzir o ensino de cultura e história afro-brasileiras,
este último termo relativo a uma classificação de origem,
cultural. No primeiro parágrafo da reportagem,
entretanto, uma pergunta hipotética (ver MYERS, 1999) introduz
o termo negros, relativo à cor da pele, como mostra o
exemplo 4:
(4) Alguns de vocês devem se
perguntar: “Mas já não aprendi sobre os negros na
escola? (Folha, 01/02/03)
Em outra reportagem da Folhinha,
intitulada Falam os professores, estão representados os
discursos de três professores diferentes, através de DD.
Reproduzo um deles abaixo, no exemplo 5, para mostrar o conflito
entre as classificações de origem e cor e, conseqüentemente,
entre diferentes discursos sobre raça, textualizado nas
escolhas lexicais:
(5) Meu objetivo é quebrar a noção
de que a história africana começa com os europeus
e com os negros escravizados. (Folha, 01/02/03)
A colocação história africana
no exemplo 5 parece ter sido apropriada do discurso da lei; já
a colocação negros escravizados (em lugar de africanos
escravizados, como se esperaria), usada logo depois da
colocação os europeus sugere que num contexto
discursivo mais amplo no Brasil e, talvez, em outros países, os
povos africanos são classificados com base na cor de sua pele e
não em sua origem como o são outros povos, por exemplo, os
europeus. Numa dialética de apropriação/colonização de
discursos (CHOULIARAKI e FAIRCLOUGH, 1999), o discurso de
classificação de cor – um discurso colonizado pelo campo da
estética – simultaneamente, emerge e é desafiado por um
discurso baseado em um sistema classificatório de origem o
qual, por sua vez, parece ter sido apropriado do texto da lei.
A última reportagem da Folhinha,
intitulada Brasil com jeito de África, é atribuída a
uma antropóloga e autora de livro sobre culturas africanas para
crianças. Há uma rede de escolhas lexicais nas colocações
desta reportagem tais como povos africanos, tradição
da África, número de africanos, e outras que
introduzem nela o discurso de origem. A única escolha relativa
à cor da pele vem ao final do texto onde a antropóloga fala de
documentos que nos contam a história dos povos africanos no
Brasil. Tal escolha faz parte do exemplo 2, reproduzido aqui
como 6:
(6) No Brasil, documentos que
registravam as origens desses povos foram queimados logo após a
abolição da escravatura (1888). A idéia era apagar a
história negra do país. (Folha, 01/02/03)
Outra notícia, agora da seção Cotidiano,
e associada com a lei, reporta o fato de que uma jovem estudante
teve de ser transferida de escola por duas vezes, já que as
escolas que freqüentava não estavam preparadas para lidar com
o preconceito das crianças, manifesto em insultos raciais. Os
exemplos 7 e 8, abaixo, mostram a representação do discurso da
estudante em DD:
(7) Falavam que eu tinha cabelo duro,
de Bombril. Eu reclamava com os professores, mas eles não
faziam nada. Uma professora me disse que eu não tinha que ligar
para as brincadeiras porque eu era uma menina linda e que
isso [o preconceito] ia acontecer durante toda a minha
vida. Mas eu queria é que ela mandasse eles pararem”, conta
Ana Luiza. (Folha, 18/05/03)
(8) Ana Luiza dá uma receita
contra o preconceito: “Quando fazem isso comigo eu vou lá e
falo que racismo é crime e que eu vou processar e reclamar com
a diretora”. (Folha, 18/05/03)
Observe no exemplo 7 o conflito entre
o que a própria estudante, supostamente, relata (o que introduz
outra camada de discurso), isto é, o que ela parece tomar como
insultos raciais que vêm possivelmente de seus colegas, e a
interpretação desses insultos pela professora como
“brincadeiras” e a palavra adicionada entre colchetes
“[preconceito]” – a qual nos deixa a imaginar quem seria o
autor da adição – que também pode estar ali para facilitar
a interpretação do recurso coesivo “isso”, mas cuja
interpretação parece ser facilmente recuperada pela relação
anafórica com “brincadeiras”. Observe no exemplo 8 que o
jornal introduz a fala da estudante relatando os procedimentos
tomados para enfrentar o preconceito com a colocação dá
uma receita. Tal forma de representar o discurso da
estudante pode ser interpretada como “avaliação” ou
“posicionamento” (BUTTNY, 1997, 2000) do jornal que, no meu
entender, subestima a questão quando enquadra a fala da aluna
como instruções de uma receita. Não se deve esquecer,
entretanto, da dificuldade de se atribuir a referida colocação
a quem quer que seja, dada a natureza do discurso midiático.
O que Buttny sugere em sua análise
de relato de falas em discussões sobre raça em “grupos de
discussão focalizada”(“focus
groups”) também pode ser percebido em outra
reportagem da mesma seção do jornal, desta vez com uma avaliação
ou posicionamento positivo, embora, novamente, difícil de ser
atribuído. A reportagem é intitulada Policiais militares são
acusados de racismo contra garoto de 12 anos - PM teria ofendido
menino negro em supermercado. Seu foco é a história de um
jovem, menor de idade, cujo nome é apresentado através da
inicial K. e que acusa a polícia de racismo não só porque foi
injustamente considerado suspeito de tentar roubar o carro de
sua própria mãe e, por isso, tratado desrespeitosamente, mas
também porque o oficial de polícia o chamou de “King-Kong”
(uma alusão à inicial do seu primeiro nome), como mostra o
exemplo 9, abaixo. Note que a atribuição do enquadramento
“ironicamente” (no DD encaixado) e, conseqüentemente, da
avaliação ou posicionamento em relação à fala do motorista,
ao jornal ou ao próprio menino não é nada fácil. A tensão
criada é devida, simultaneamente, à dificuldade de atribuição
do que é dito a um dos participantes do evento e ao desafio a
um discurso calcado numa classificação que animaliza o menino
(ver GUIMARÃES, 2003, sobre a animalização e o insulto).
(9) Em seguida, o policial teria
anotado o nome do menino e levado ao PM motorista da Blazer. Ao
ver o nome do menino, o motorista perguntou "quem era King
Kong", ironicamente. O menino registrou que se
sentiu ofendido. (Folha, 10/02/03)
A reportagem que analiso em seguida
gira em torno da aprovação das cotas para negros nas
universidades brasileiras. Trata-se de uma notícia sobre ações
na justiça contra a Universidade de Michigan devido ao seu
sistema de cotas. Uma professora americana que participou de um
debate sobre ações afirmativas no Rio é a personalidade mais
citada na reportagem, estando algumas de suas declarações
reproduzidas nos exemplos 10 a 12, abaixo:
(10) Lee explicou que, na Universidade
de Michigan, alunos negros, hispânicos […]. (Folha,
05/05/03)
(11) Segundo Lee, a diversidade étnica
nos campi das mais concorridas universidades norte-americanas é
uma política voluntária. “Não somos obrigados a estipular
esses critérios. Acho que as universidades procuram a diversidade
[…]”. (Folha, 05/05/03)
(12) Ela afirma, no entanto, que
nenhuma universidade concorrida aceita abrir mão totalmente do
critério acadêmico na admissão de estudantes de minorias.
“É por isso que estudantes de minorias com bom
desempenho nos testes […]” (Folha,
05/05/03)
Itens lexicais tais como negros,
do campo semântico da cor da pele, e hispânicos, do
campo semântico de origem cultural, podem ser pensados como
co-hipônimos do hiperônimo “raça”, no contexto de um
discurso mais amplo, como nos mostra o exemplo 10. Diversidade
em 11 e minorias em 12 parecem ser apropriados de um
discurso sobre raça calcado numa classificação por origem,
embora, no meu entender, de modo paradoxal, pois o campo semântico
da palavra diversidade implica não só a inclusão de
grupos étnicos mas também uma visão mais instável de poder
em que o item lexical minoria não teria função.
Novamente, é difícil decidir se essas tensões advêm do
discurso mediado do jornal ou do próprio discurso da
professora.
Em outra reportagem sobre a questão
de cotas nas universidades do Rio, as mudanças na lei de cotas
são explicadas, de modo didático, em duas seções, a primeira
sobre a lei atual e a segunda sobre a proposta de modificação
da lei, através de itens, alguns deles reproduzidos em 13 e 14,
abaixo:
(13) 40% das vagas são reservadas
apenas para candidatos que se declarem negros ou pardos.
(Folha, 08/08/03)
(14) […] Com isso, um candidato que
se declare negro, mas não venha de família carente, não
terá direito à cota racial. (Folha, 08/08/03)
Observe nos exemplos o uso dos itens
lexicais negro, negros e pardos que ecoa o
discurso de classificação por cor da pele, do IBGE, mencionado
anteriormente, em embate numa arena discursiva em que se fazem
presentes outros discursos mais recentes das leis ou de textos
acadêmicos ou, ainda, de debates fora do país acerca da questão,
o que está representado pelo uso da própria colocação cota
racial. O mesmo conflito está presente em outras
reportagens que não são recontextualizações diretas da lei
de cotas, mas que resultam do debate sobre a questão. Numa
dessas reportagens a notícia é uma pesquisa sobre a condição
social dos Afro descendentes, um termo usado entre aspas
de modo a ser atribuído ao pesquisador, identificado pelo
jornal como negro, e cuja voz é ouvida em toda a
reportagem. O exemplo 15 reproduz a frase onde a palavra é
usada:
(15) O economista contabilizou como negros,
ou "afrodescendentes", a soma dos grupos que o
IBGE classifica como pretos e pardos. (Folha, 06/06/03)
No meu entender, o pesquisador está
contestando a classificação por cor, do IBGE, pois ele não só
inclui os pardos no grupo de negros como também classifica esse
grupo novo, constituído diferentemente, com base em uma noção
de raça enquanto origem cultural. A associação classe/raça
também parece estar sugerida nessa mesma reportagem, como
mostra o exemplo 16, abaixo:
(16) “A gente sabe que, no Brasil, a pobreza
tem cor: é negra. Os negros estudam menos, ganham
menos e são mais pobres”, afirma o economista da UFRJ, que é
negro também. (Folha, 06/06/03)
O uso da palavra negra como
atributo num processo relacional onde o portador ([ela] é
negra – ela como recurso coesivo que recupera a
palavra pobreza e que está elidido no processo - ver BÁRBARA
e GOUVEIA, 2001) é re-ecoado em outra frase possivelmente
apropriada do texto da pesquisa, desta vez como modificador em
um grupo nominal que pode estar substituindo outra colocação,
mais comum na língua, como argumentei na seção anterior.
Observe no exemplo 17 (que pode ser interpretado como discurso
indireto livre, com termos como metropolitano permeando a
reportagem e aparentemente apropriados do estudo) a colocação pobreza
negra:
(17) Na região metropolitana de São
Paulo, por exemplo, 45% dos pobres são negros, mas, na população
em geral, a proporção de negros cai para 32,1%. No Rio
acontece o mesmo: entre os pobres, 60,4% são negros, uma proporção
maior de negros que a verificada na população total, 53,5%. A pobreza
negra metropolitana acaba se refletindo em outras
questões urbanas, como a violência -- da qual os negros,
principalmente os jovens do sexo masculino, são as principais vítimas.
(Folha, 06/06/03)
Essa predisposição, menos usual, da
palavra negra, para ocorrer como adjetivo de pobreza,
pode ser interpretada simultaneamente como negativa, em
vista da prosódia semântica criada com as palavras violência
e vítimas e, simultaneamente, como reveladora de uma
imbricação de classe e raça conforme argumentei
anteriormente. Isso se repete em outro exemplo de DD em uma
reportagem sobre ações afirmativas patrocinadas pelo Centro
de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap),
conforme se pode ver em 18 e 19, este último exemplo sugerindo
um sentido para negro como pessoa moradora de favela,
menos educada, em última instância, como pobre.
(18) “A pobreza negra é uma
realidade. (…)”, afirma Ivanir dos Santos, coordenador do
Ceap. (Folha, 30/06/03)
(19) “Muitas vezes a gente não
consegue subir no emprego lá fora só porque é negro. A
gente é do morro, a gente tem menos estudo, aí tudo fica mais
difícil. Pobreza é isso”, afirma Elisete da Silva
Napoleão, 39, uma das costureiras do grupo. (Folha, 30/06/03)
No exemplo 20, talvez a única ocorrência
desta nova predisposição da palavra negra (em beleza
negra) com prosódia semântica positiva, a associação é
com carnavalescos. Entretanto, no meu entender, o próprio
carnaval é uma representação estereotípica do Brasil como o
país da democracia racial. Refinando meu argumento, se
entendemos carnaval nos termos de Bakhtin (ver BAKHTIN, 1981), o
carnaval brasileiro, da beleza negra, poderia ser visto como um
dos raros momentos em que o poder fica suspenso e se permite aos
descendentes de africanos misturarem-se ao outro grupo racial
dominante numa sociedade com uma enorme diferença social entre
pessoas dos extremos de uma linha de cor.
(20) Os blocos afro-carnavalescos
cantavam a beleza negra. (Folha, 01/02/03)
Para finalizar esta seção,
acrescento dois exemplos de um ensaio publicado no jornal no período
da coleta do corpus com fim de consubstanciar a análise da
interdiscursividade nas reportagens. O autor do ensaio é o sociólogo
Sérgio Paulo Rouanet e o tema abordado é a intolerância. A
relação semântica entre pobreza e raça bem como o conflito
no uso de itens lexicais dos campos semânticos de raça e cor
parecem estar presentes também neste ensaio, como mostram os
exemplos 21 e 22, abaixo; o segundo exemplo sugerindo que a base
do pensamento do sociólogo acerca da questão racial é também
a da classificação pela cor da pele (note a referência que
ele faz às “diferenças de cor”) e, ainda, indicando dar o
teórico um tratamento, em separado, às questões de classe e
raça (observe como ele, paradoxalmente, faz uma lista em que
entram como questões distintas a cor e a condição
social):
(21) O problema, entre nós, é o
estado de pobreza em que vive a maioria da população
negra. Enquanto persistir essa situação, os negros serão
vítimas de uma intolerância dupla, sobredeterminada, que os atinge enquanto negros e
enquanto pobres. (Folha, 09/02/03)
(22) Os alunos aprenderiam a aceitar e
compreender as diferenças _de cor, de gênero, de
orientação sexual, de condição social. (Folha,
09/02/03)
7 Dialogicidade e diferença
Volto-me, nesta seção, para a questão
da dialogicidade e da diferença nas reportagens, observando a
gama de diferentes graus de dialogicidade proposta em Fairclough
(2003) e levando em conta as formas diferentes de atribuição
de vozes nos textos. Fairclough (2003, p. 41) apresenta cinco
cenários diferentes relativos à natureza da orientação para
a diferença nos textos:
(a) uma abertura para a diferença, ou aceitação ou, ainda,
reconhecimento dessa diferença; uma exploração da diferença,
no sentido mas rico do termo “diálogo”;
(b) uma acentuação da diferença, do conflito, da polêmica;
uma luta entre os significados, normas e poder;
(c) uma tentativa de resolver ou de superar a diferença;
(d) uma suspensão da diferença, um foco na igualdade e na
solidariedade;
(e) um consenso, uma normalização e aceitação das diferenças
de poder que suspende ou suprime as diferenças de significado e
normas.
O autor chama a atenção para o fato
de que os cenários acima não foram pensados como uma tipologia
dos eventos e interações sociais, pois podem ser combinados de
várias maneiras nos textos e eventos sociais. Uma investigação
do modo como são combinados por meio dos diversos modos de
representação de discursos nas reportagens analisadas neste
trabalho pode ser útil para a interpretação das diferentes
escolhas lexicais feitas nos relatos acerca da questão racial.
Argumento, assim, que os cenários
propostos por Fairclough (2003) podem ser aplicados,
preferencialmente, numa análise de um corpus de pequena escala,
por exemplo, um corpus composto por uma reportagem e o(s) gênero(s)
discursivo(s) que ela recontextualiza (uma tarefa, de saída, não
muito fácil, no caso do discurso mediado). Numa análise em
larga escala,como é o caso desta desenvolvida neste trabalho, o
melhor a fazer é reconhecer que quanto mais vozes/discursos
diferentes, representados através de DD, mais dialógicos e
abertos à diferença os textos serão. O jornal analisado, bem
como outros, como é o caso dos britânicos (ver SHORT, SEMINO e
CULPEPPER, 1996) parecem não partilhar muito desta
dialogicidade.
Um passo adiante seria reconhecer que
quanto mais houver apropriação de escolhas lexicais e,
portanto, de discursos, presentes em DD ou outro modo de
representação de discurso, mais tensão, conflito e, conseqüentemente,
luta de ideologias e poder estarão em jogo, o que espero ter
mostrado na análise acima. Suponho que exemplos onde um item
lexical novo, como é o caso de não-negras, desafia,
mesmo que ainda timidamente, uma classificação monolítica, ou
exemplos onde uma palavra usada de maneira não muito usual,
como é caso de negra no grupo nominal pobreza negra,
contesta a esteticização racial acrescentando a variável da
pobreza a esta noção, podem ser interpretados tanto como uma
acentuação da diferença e como uma tentativa de superá-la.
Além disso, penso que exemplos tais como o de textos em que a
beleza negra é associada ao carnaval, isto é, quando um
estereótipo é resgatado, o foco é de solidariedade e a
diferença é suspensa, também no sentido bakhtiniano de
carnaval.
Finalmente, na tentativa de
exemplificar um cenário de consenso, ou, melhor dizendo, de
banalização da diferença no corpus, escolheria o exemplo de
apresentação da voz da estudante em DD, acerca de sua luta
para enfrentar o preconceito racial na escola, que é avaliada,
ou posicionada na reportagem como instruções de uma receita. A
metaforização dos passos que a estudante dá em direção a
uma ação afirmativa como procedimentos de uma receita pode
ajudar a apagar o sentido de uma ação nova, simbólica e,
assim, do discurso que ela introduz, transferindo-os para o
reino das atividades do dia-a-dia da sociedade, onde permanecem
inalterados o senso comum e as ideologias.
8 Considerações finais
A título de conclusão, ressalto que
a investigação feita contribui para os estudos na área de análise
crítica do discurso, ao consolidar o uso das linhas de concordância
como ferramentas poderosas na análise dos textos como eventos
sociais. Enfatizo, ainda, que a análise, de um lado, indica que
a noção de democracia racial ainda é um discurso muito
presente, mediado pelo jornal analisado, uma vez que ela se
textualiza através de itens lexicais do campo semântico cor
da pele; do outro lado, a análise sugere que este discurso
já não é mais hegemônico, na medida em que outros discursos
como o das ações afirmativas começam, gradualmente, a entrar
na arena discursiva e a lutar por poder. Isso acontece através
do uso não convencional ou da criação de relações lexicais
novas que fazem com que uma classificação de raça baseada na
cor da pele passe, lentamente, a ser substituída por uma outra
classificação que, talvez, leve a uma (re)construção mais sólida
dos povos de origens africanas no Brasil e, quiçá, em outros
contextos culturais. Para reforçar a idéia da tensão e do
conflito de discursos, é interessante começar a observar os
discursos presentes em outros gêneros discursivos. Como
exemplo, mostro o primeiro parágrafo de um artigo recente de
uma revista publicada pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de
Pessoal do Ensino Superior (CAPES), cujo tema é a abertura das
universidades brasileiras a grupos minoritários:
(23) Em muitos cursos…a presença de
representantes de minorias é substantiva, ultrapassando mesmo,
no que se refere aos negros, ou pretos (Segundo o
dicionário Aurélio, ‘negro’ significa ‘de cor preta’),
sua participação na população. (Ciência Hoje, n. 34, 2003,
p. 16-20)
A tentativa aqui é de volta a uma
situação de sinonímia entre os itens negro e preto,
fundamentada no discurso de autoridade do dicionário clássico
da língua (ver WILLIAMS, 1988 sobre esta questão), o que
sugere, novamente, a existência de discursos distintos lutando
por poder na arena discursiva.
As relações lexicais abordadas na
primeira seção de análise deste trabalho foram deslocadas
para, ou re-alocadas no, pano de fundo das vozes/discursos
representados nos textos. A combinação das duas ferramentas, a
análise das relações lexicais e a investigação da
intertextualidade, permitiu a percepção de uma tensão entre
os termos relativos à cor da pele e à origem cultural e um
conflito entre os discursos mediados pelo jornal. Ademais,
permitiu uma interpretação cautelosa dos graus de
dialogicidade e dos cenários de orientação para a diferença
racial na linguagem mediada das reportagens. O jornal analisado
usa também, estrategicamente, o DD, aparentemente, dando voz a
muitos representantes da sociedade, incluindo aqueles
socialmente excluídos. Como conseqüência dessa dialogicidade,
o discurso da democracia racial ainda “ataca”, ou luta pela
permanência ou, eu diria também, “assombra” vozes e
discursos, sem, contudo, manter sua estabilidade de longa data.
Pelo contrário, este discurso parece estar sendo minado para
que se possam revelar os muitos anos de discriminação social e
exclusão dos brasileiros descendentes de africanos. Com relação
aos cinco cenários de orientação para a diferença, propostos
por Fairclough (2003), sua aplicação na análise é outra
indicação de mudança discursiva com relação à questão
racial e, quiçá, de um projeto de ações afirmativas bem
sucedido na sociedade.
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______; Meyer, M. (Eds). Methods
of Critical Discourse Analysis. London; Thousand
Oaks; New Delhi: Sage, 2001.
Recebido em 10/08/04. Aprovado em
05/10/04.
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Title:
Interdiscursivity
and conflicting discourses on race in Brazilian news
reports |
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Author:
Célia
Magalhães |
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Abstract:
In
this paper I set out from debates on the racial issue in
Brazilian social sciences to analyse a contemporary corpus
of news reports of a major Brazilian broadsheet newspaper.
My aim is the investigation of change in mediated
discourses on race. Based on a combination of the
theoretical and methodological tools of CDA with a corpus
linguistics tool I focus on keywords used to refer to skin
colour, the lexical relations created around them and
their association with intertextuality in the newspaper.
The combined analysis of lexical relations and
intertextuality has allowed for the perception of tensions
over terms of race and colour and of conflicting
discourses of race classification in the paper. The
analysis has also allowed for a cautious interpretation of
dialogicality and thus of different orientations to racial
difference in the reports. |
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Keywords:
race;
lexis; intertextuality; dialogicality; interdiscursivity.
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Tìtre:
L’Interdiscursivité et conflit entre
discours sur la race dans des reportages brésiliens
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Auteur:
Célia
Magalhães |
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Résumé:
Dans cet article, je pars de débats sur la question
raciale dans les théories brésiliennes pour analyser un corpus
contemporain de reportage d’un journal brésilien.
Mon
objectif est la recherche du changement dans les discours
moyenné sur
la race. Ayant comme support la combinaison des outils théoriques
et méthodologiques de l’analyse critique du discours et
de la linguistique de corpus, je focalise des
mots-clés utilisés dans le journal pour faire référence
à la couleur de la peau, les relations lexicales créées
autour de ces mots, et leur association avec
l’intertextualité. L’analyse combinée des relations
lexicales et de l’intertextualité permet d’apercevoir
la tension entre des termes relatifs à la couleur de la
peau et à l’origine culturelle et un conflit entre
discours venus de plusieurs classifications de race.
L’analyse permet aussi une interprétation prudente de
la dialogicité et, donc, des différentes orientations
pour la différence raciale dans les reportages.
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Mots-clés:
race; lexique; intertextualité; dialogicité;
interdiscursivité.
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Título:
Interdiscursividad
y conflicto entre discursos sobre raza en reportajes
brasileños |
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Autor:
Célia
Magalhães |
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Resumen:
Este
artículo tiene
como punto de partida los debates sobre la cuestión
racial en las teorías sociales brasileñas, para analizar
un corpus contemporáneo de reportajes de un periódico
brasileño. Mi objetivo es la investigación de los
cambios en los discursos mediados sobre raza. A base de
una combinación de herramientas teóricas y metodológicas
del análisis crítico del discurso y de la lingüística
de corpus, enfoco palabras clave usadas en el periódico
para referir al color de la piel,
a las relaciones lexicológicas criadas alrededor
de dichas palabras, y su asociación con la
intertextualidad. El análisis combinado de las relaciones
lexicológicas y de la intertextualidad permite: percibir
una tensión entre términos relativos al color de la piel
y al origen cultural; un conflicto entre discursos
originarios de distintas clasificaciones de raza y,
finalmente, una interpretación cautelosa de la dialogística
y, por lo tanto, de las distintas orientaciones para la
diferencia racial en los reportajes. |
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Palabras-clave:
raza; léxico; intertextualidad; dialogística;
interdiscursividad.
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