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Revista Linguagem em (Dis)curso, volume
4, número especial, 2004 |
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Ampliando
a noção de contexto na lingüística sistêmico-funcional e na
análise crítica do discurso
José
Luiz Meurer
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Resumo: Apesar
de todos os avanços realizados por pesquisadores na Lingüística
Sistêmico-Funcional (LSF) e na Análise Crítica do
Discurso (ACD) na descrição da estreita relação entre
a linguagem e o contexto social, verifica-se ainda a
necessidade de teorizações mais amplas sobre essa questão.
Neste artigo exploro aspectos da teoria da estruturação
de Giddens como ferramentas para a análise de contexto em
estudos do discurso. Concentrando-me em regras e recursos
como propriedades estruturadoras da vida social,
exemplifico como essas noções podem ser usadas para
especificar elementos contextuais na SFL e ACD. Para isto,
analiso aspectos de um texto de Chomsky, “Sobre os
Bombardeios”, de 11 de setembro, 2001. Apresento também
a noção de intercontextualidade para me referir a
contextos que se entrecruzam com outros contextos. Minha
preocupação central é tentar expandir os conhecimentos
sobre a inter-relação entre linguagem e estruturação
social.
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Palavras-chave: contexto
social; lingüística sistêmico-funcional; análise crítica
do discurso; teoria da estruturação.
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1
Introdução
Um
dos princípios centrais da lingüística sistêmico-funcional
(LSF) estabelece que todas as possíveis redes semânticas
devem se relacionar a especificações contextuais “acima” dessas redes em termos de “categorias de alguma teoria
social geral ou teoria de comportamento”, e “abaixo”, em termos de “categorias de formas lingüísticas do
extrato da gramática” (Halliday,
1973, p. 69). Em outras palavras, em análises de textos
realizadas com base na LSF, todos os significados têm uma
conexão direta com o contexto social – “acima” e, também,
uma conexão direta com os elementos lexicogramaticais –
“abaixo”. Na LSF, portanto, não se analisa um texto
unicamente em termos dos elementos lexicogramaticais. Ao invés
disso, cada significado deve ser relacionado simultaneamente a
rotinas sociais e a formas lingüísticas.
Devido
a este princípio geral, avanços importantes a respeito das
interconexões entre texto e contexto vêm sendo alcançados
por pesquisadores em LSF e em outras áreas de estudo da
linguagem, especialmente na análise crítica do discurso (ACD).
Por exemplo, na LSF, o contexto da situação, subdividido em campo, relações e
modo,
e o contexto da cultura
com sua ligação a aspectos socioculturais mais amplos da
atividade humana têm sido usados para descrever ramificações
importantes da linguagem e do contexto com respeito a registro
(Halliday,
1978; Halliday e Hasan,
1989; Hasan,
1996) e gênero (Martin, 1984; Eggins,
1994; Butt et al, 2001). Na ACD, Fairclough e Wodak (1997, p. 271-279), por
exemplo, procuram explicar a relação entre linguagem e
contexto discutindo tópicos de caráter social como: “a ACD
investiga problemas sociais”; “as relações de poder são
discursivas”; “o discurso constitui a sociedade e a
cultura”; “a ligação entre o texto e a sociedade é
mediada”; e “o discurso é uma forma de ação social”,
(de forma semelhante a Fairclough, 1989, 1992, 1993, 1995; e
Wodak, 1996).
Existe
um consenso em LSF e ACD de que o contexto tem implicações
cruciais para a análise da linguagem em uso. Em 1978, em seu
livro – hoje um clássico – sobre a linguagem como “semiótica
social”, Halliday enfatiza que os critérios para descrever
o contexto devem ser sociológicos, i. e., “baseados em
alguma teoria da estrutura social e de suas mudanças”. Com
base nesta perspectiva, ele alerta:
Se
descrevermos o contexto da situação em termos de observações
ad hoc sobre o ambiente onde a linguagem é usada, poderemos dizer
que isto é uma consideração ‘social’ da linguagem,
porém dificilmente ‘sociológica’, já que os
conceitos nos quais nos baseamos não são parte de nenhum
tipo de teoria social geral. (Halliday,
1978, p. 34-35, minha tradução)
Apesar
dos desenvolvimentos já obtidos a partir da proposta de
Halliday sobre a necessidade de uma teoria social para
descrever a relação dos significados com o contexto, é
necessário problematizar em maior grau as noções sociológicas
sobre a interação ente discurso e contexto (observado também
em Chouliaraki e Fairclough, 1999; Meurer, 1999, 2000; Lemke,
2001; Hasan, 1999, 2004, por exemplo). Em dois longos artigos
– Speaking with
reference to context e Analysing
discursive variation – Hasan (1999 e 2004,
respectivamente) observa que a noção de contexto se tornou
uma espécie de apêndice não-teórico que precisa ser
explicado em escala mais ampla. Essas e outras publicações
de Hasan privilegiam o chamado contexto da situação, mas não o contexto
da cultura. Neste trabalho, buscando expandir os
conhecimentos sobre esta última dimensão do contexto e sua
interação com o discurso, discuto e aplico aspectos da teoria
da estruturação do sociólogo inglês Anthony Giddens
(1979 e 1984). Meu objetivo é desenvolver uma fundamentação
sociológica abrangente para a descrição e explicação da
interdependência entre textos e contextos mais amplos. Não
raro, tal interdependência torna-se naturalizada e
despercebida.
Em
meu esforço para ampliar as bases teóricas de análise do
contexto já disponíveis na LSF e na ACD, proponho o uso do
termo intercontextualidade,
em analogia à intertextualidade
e interdiscursividade. A intercontextualidade é a condição em que
dois ou mais contextos se interligam e interpenetram em uma
determinada prática social. Na intercontextualidade um
contexto é “levado” para outro contexto e dá-se o
compartilhamento de características de ambos, muitas vezes
com o predomínio de um sobre o outro. Por exemplo, as
economias nacionais são cada vez mais intercontextuais porque
são influenciadas por economias de outras nações. São cada
vez mais intercontextuais porque compartilham características
que se originam além das fronteiras nacionais e se estendem a
outros contextos. A intercontextualidade neste sentido resulta
do processo de globalização, ao mesmo tempo em que o
acentua. Ações como aquelas representadas no texto de
Chomsky que apresento logo abaixo têm base intercontextual
porque dependem de um número de contextos diferentes –
religiosos, políticos, econômicos, militares –
instanciados por diferentes agentes investidos com diferentes
identidades, em diferentes países. Com a complexidade do
mundo contemporâneo, muitos contextos se sobrepõem e se
mesclam, com crescente grau de intercontextualidade.
As
noções sociológicas que apresentarei são oferecidas como
elementos para uma contextualização mais abrangente da análise
de textos, em um esforço que precisa ser elaborado em maior
profundidade em pesquisas e publicações futuras. Em relação
aos trabalhos sobre contexto no âmbito da LSF, minha proposta
diz respeito ao contexto
da cultura, enquanto que no âmbito do modelo
tridimensional da ACD de Fairclough (1989, 1992), diz respeito
à análise de textos como prática social. Exemplificarei as noções apresentadas
por intermédio da análise – em alguns pontos com o apoio
da LSF – do seguinte texto escrito por Chomsky em inglês e
circulado também em português na Internet e em jornais
brasileiros, entre eles, o Globo,
nos dias seguintes ao ataque de 11 de setembro às torres do
World Trade Center, em Nova Iorque.
Sobre
os Bombardeios
Os
ataques de hoje foram grandes atrocidades. Em termos de número
de vítimas, o ataque não chega ao nível de outras tragédias
como, por exemplo, o bombardeio do Sudão pelo governo
Clinton, que aconteceu sem nenhum pretexto aparente,
destruindo metade dos suprimentos farmacêuticos do país
e matando um número desconhecido de pessoas (ninguém
sabe ao certo quantas – os Estados Unidos bloquearam um
pedido para abrir inquérito nas Nações Unidas e ninguém
fez muito esforço para continuar). Isso sem falar em
casos muito piores que vêm à mente. Mas, seja como for,
esse crime foi horrendo, não há dúvida. As principais vítimas,
como sempre, foram os trabalhadores: faxineiros, secretárias,
bombeiros, etc. Isso repercutirá sem dúvida na vida de
gente pobre e oprimida como os palestinos. Levará
provavelmente também a medidas de segurança mais duras
com perda de direitos civis e liberdades internas.
Os
eventos de ontem revelam, dramaticamente, a bobagem de idéias
sobre "defesa de mísseis". Como era óbvio
desde sempre – e mostrado repetidamente por analistas
estratégicos – se alguém quiser fazer grandes estragos
nos Estados Unidos, inclusive com o uso de armas de
destruição de massa, dificilmente vai recorrer a um
ataque de mísseis. Há inúmeras formas mais fáceis de
causar destruição e que são basicamente impossíveis de
serem impedidas. Mas os eventos de hoje irão, mesmo
assim, ser usados para aumentar a pressão para se
desenvolver esse tipo de sistema e pô-lo em prática. A
"defesa" é um pretexto fraco para planos de
militarização do espaço. Mas, com um bom programa de
relações públicas, mesmo os argumentos mais fracos
ganham peso frente a uma opinião pública assustada. Em
resumo, o crime é um presente para a direita mais reacionária,
aqueles que esperam usar a força para controlar seus domínios.
Isso sem contar as prováveis ações americanas
e o que elas causarão – provavelmente outros ataques
como esse ou coisa ainda pior. As perspectivas futuras são
ainda piores do que elas eram antes das últimas
atrocidades.
Quanto
a saber de que forma devemos reagir, temos uma escolha.
Podemos expressar um horror justificado ou podemos tentar
entender o que pode ter levado aos crimes, ou seja, fazer
um esforço para entrar na cabeça de quem cometeu aqueles
atos. Se escolhermos a última opção, não podemos fazer
nada melhor, creio eu, do que prestar atenção nas
palavras de Robert Fisk, cujo conhecimento direto dos
assuntos da região, após anos de coberturas jornalísticas,
não tem concorrente. Descrevendo "a crueldade
perversa e impressionante de um povo esmagado e
humilhado", ele diz que "não se trata de uma
guerra da democracia contra o terror – o que vão tentar
fazer o mundo acreditar nos próximos dias. Trata-se também
de mísseis americanos esmagando lares de palestinos e
helicópteros americanos atirando em uma ambulância no Líbano
em 1996 e bombas americanas destruindo uma pequena vila
chamada Qana e uma milícia libanesa – paga e
uniformizada por Israel, um aliado dos Estados Unidos –
espancando, estuprando e assassinando tudo o que passava
pela frente até em campos de refugiados". E há
mais, muito mais. De novo, temos uma escolha a fazer:
podemos tentar entender o que se passou, ou nos recusar a
fazê-lo, contribuindo assim para a possibilidade de que
coisas ainda piores aconteçam no futuro. [Noam Chomsky (http://www.zmag.org,
consultado em 23/09/2001)]
A
teorização sobre o contexto que apresento a seguir focaliza
as três seguintes noções sociológicas derivadas da teoria
da estruturação:
práticas
sociais, prescrições de papéis
e estruturas sociais em forma de regras
e recursos. Essas três perspectivas ou dimensões são
necessárias porque, de acordo com Giddens (1979, p. 117),
“os sistemas sociais são constituídos de práticas
sociais” que, por sua vez, são “pontos de articulação
entre atores”
humanos desempenhando papéis em estruturas
sociais específicas (minha ênfase). Usadas em conjunto,
essas noções possibilitam um panorama amplo do “fluxo
ativo da vida social” (Giddens
e Pierson, 1998, p. 76) e, portanto, um panorama de interconexões
entre texto e contexto. A teoria da estruturação é
relevante devido a sua abrangência para captar a vida social
como dinamicamente organizada em um fluxo de práticas
interligadas que podem, simultaneamente, (a) reproduzir
identidades, relações e modos de conceituar o mundo (Fairclough, 1992), ou (b) desafiar e contribuir para mudar
essas identidades, relações e conceituações, promovendo
novos fluxos de práticas sociais. Abordarei, em primeiro
lugar, práticas sociais e prescrições de papéis e, em
seguida, regras e recursos.
2
Práticas Sociais
As
práticas sociais podem ser definidas como aquilo que as
pessoas fazem, isto é, as atividades em que se engajam ao
conduzir a vida social. As práticas incluem as atividades do
dia-a-dia, incluindo o uso de textos como a publicação de
Chomsky, por exemplo, que é uma mistura dos gêneros discussão
e exposição exortativa (Martin,
1989; Butt et al., 2001). As práticas sociais, embora possam incluir ações
inesperadas – o lançamento de mísseis
– como aquelas avaliadas por Chomsky em seu texto, podem ser
definidas, mais tipicamente, como os “modos habituais,
ligados a perspectivas temporais e espaciais específicas, em
que os indivíduos aplicam recursos (materiais ou simbólicos)
para agir em conjunto no mundo” (Chouliaraki
e Fairclough,
1999, p. 21).
As práticas são “constituídas ao longo da vida
social – nos domínios especializados da economia e da política,
por exemplo, mas também no domínio da cultura, incluindo a
vida do dia-a-dia” (ibid). Concordo com Chouliaraki e
Fairclough (ibid) que é importante considerar as práticas
sociais na análise da ação humana, incluindo o uso de
textos, porque “constituem um ponto de conexão entre as
estruturas sociais abstratas e eventos concretos – entre
‘sociedade’ e pessoas vivendo suas vidas”.
Aspectos dessas estruturas são focalizados no presente
trabalho (na seção sobre “estruturas sociais: regras e
recursos”).
Como
representado na Figura 1, não existe prática social
independente de prescrições relativas a papéis/identidades
sociais e estruturas sociais mais amplas em forma de
regras/recursos (noções desenvolvidas mais abaixo). Em uma
analogia ao conceito de cadeias de textos (Bakhtin,
1992), sugiro a incorporação à LSF e à ACD do termo cadeias de práticas para indicar que cada prática social sempre se
relaciona a outras práticas no mesmo contexto e/ou em outros
contextos, em situações de intercontextualidade.

Figura
1 – Diagrama generalista de influências entre prescrições,
práticas sociais e regras/recursos (de acordo com GIDDENS,
1979, p. 117).
No
texto de Chomsky, algumas das práticas (a maioria delas
aterrorizantes) a que ele se refere são: “o bombardeio do
Sudão pelo governo Clinton”; a destruição da “metade
dos suprimentos farmacêuticos do país”; o bloqueio, pelos
Estados Unidos, a “um pedido para abrir inquérito nas Nações
Unidas”; “medidas de segurança mais duras”; “fazer
grandes estragos nos Estados Unidos”; “o uso de armas de
destruição de massa”; “um ataque de mísseis”; “inúmeras
formas de causar destruição”; “aumentar a pressão para
se desenvolver esse tipo de sistema e pô-lo em prática”;
“militarização do espaço”; “usar a força para
controlar seus domínios”; “outros ataques como esse ou
coisa ainda pior”; “expressar um horror justificado”;
“mísseis americanos esmagando lares de palestinos”;
“helicópteros americanos atirando em uma ambulância no Líbano”;
“bombas americanas destruindo uma pequena vila chamada Qana”;
“uma milícia libanesa [...] espancando, estuprando e
assassinando”; “tentar entender”.
Na
ampliação do contexto que estarei elaborando abaixo, as práticas
sociais devem ser vistas como parte do panorama tridimensional
da Figura 1. Examinadas em conjunto com prescrições de papéis
e regras e recursos (ver as próximas seções) as práticas
sociais são, desta forma, situadas num contexto amplo de base
sociológica. Note-se que a maioria das práticas
representadas no texto de Chomsky envolve os Estados Unidos
como uma nação, retratando uma identidade nacional de país
que acabou de sofrer atrocidades, todavia em conseqüência de
incursões ainda mais violentas sobre outros países
e de investidas para controlar esses países por intermédio
de força militar.
3
Prescrições de Papéis
A
dimensão das prescrições relativas a papéis sociais,
intimamente relacionadas com posição social e identidade, é
essencial à teoria de estruturação porque põe em cena a noção
de agentividade – o fato de que os indivíduos agem – na
implementação da ação humana. Sem agentividade não pode
haver práticas sociais nem instanciação ou manifestação
de estruturas sociais. As prescrições de papéis podem ser
definidas como “prerrogativas e obrigações” (Giddens,
1979, p. 118) associadas a identidades sociais específicas.
Identidades, por sua vez, são categorias ou tipificações
feitas “com base em algum critério ou critérios sociais
definitivos, tais como ocupação ou profissão, relação de
parentesco, faixa etária” (ibid, p. 118), orientação
sexual, filiação religiosa ou político-partidária,
nacionalidade, língua materna, moradia, grupo étnico, poder
aquisitivo, habilidade física e outros. Tais prerrogativas e
obrigações são fragmentadas e se interconectam com o
potencial de agentividade, o poder para agir. No texto de
Chomsky, por exemplo, as identidades mais significativas
incluem: o próprio Chomsky, Robert Fisk, as Nações Unidas e
várias nações: Estados Unidos, Sudão, Líbano e Israel. Além
disso, há referências lexicais a identidades mais gerais
como: “palestinos”, “vítimas”, “trabalhadores”,
“faxineiros”, “secretárias”, “bombeiros”,
“gente pobre e oprimida”, “a direita mais reacionária”,
“quem cometeu aqueles atos”, “um povo esmagado e
humilhado”, “uma pequena vila chamada Qana”. Cada uma
dessas identidades incorpora diferentes prescrições.
Em
trabalhos que se apóiam na LSF, os papéis e as identidades têm
sido analisados sob a perspectiva da noção de
relações
e suas interconexões com a metafunção
interpessoal da linguagem, realizada pelo sistema lexicogramatical de modo.
Por exemplo, Fairclough (1989, 1992, 1995), Heberle (1997,
2001), Reichmann (2001) e Silva (2002) usam este aspecto da
LSF como método para explorar identidades e relações em ACD.
O ponto a enfatizar aqui – e a ser mais elaborado em
trabalhos futuros – é que os textos surgem em contextos (e
situações de intercontextualidade)
caracterizados sempre pela inter-relação tridimensional
representada na Figura 1: identidades, práticas sociais e
regras/recursos (ver a próxima seção). A análise de texto
realizada tanto da perspectiva da LSF como da ACD pode ser
enriquecida com a exploração de princípios teóricos
relativos à sua interação com essas três dimensões
sociais, explicadas na teoria da estruturação.
Na
ampliação de contexto que estou propondo, poderíamos
explorar identidades e prescrições de papéis para procurar
expor tensões não resolvidas e mesmo contradições, pois as
identidades são influenciadas por conexões intercontextuais
e são, portanto, dinâmicas, fluidas e controvertidas. Ou poderíamos, também,
explorá-las em contato com outras identidades para investigar
como, por exemplo, certas ações são legitimadas dependendo
de quais identidades estejam em jogo. No texto de Chomsky,
para ilustrar, ele mostra que um ataque de Clinton contra o
Sudão (que envolve a “nossa” identidade, i.e., dos
Estados Unidos, contra a “deles”, i.e., dos
“terroristas”) foi, de alguma forma, justificado pelo
congresso dos Estados Unidos ao bloquear um pedido de inquérito
sobre o ataque. Não haverá legitimação, entretanto, se o
ataque for “deles” (supostamente o “eixo do mal”)
contra “nós” (supostamente o “eixo do bem”). Algumas
dessas perspectivas serão ilustradas nas próximas seções,
pois prerrogativas e obrigações associadas a identidades
específicas dependem do inter-relacionamento das identidades
com regras e recursos implicados em diferentes práticas
sociais, como veremos abaixo.
4
Estruturas Sociais: Regras e Recursos
Esta
perspectiva do contexto é a que tem recebido menos atenção
na LSF e mesmo em trabalhos de base crítica. Considero,
portanto, que a sua ampliação é a contribuição mais
relevante do presente trabalho para uma descrição de
contexto com orientação sociológica, em resposta à chamada
de Halliday há quase trinta anos. Na teoria da estruturação,
“a estrutura é expressa primariamente nas coisas que as
pessoas fazem de uma maneira regular e institucionalizada” (Giddens
e Pierson, 1998, p. 78). Em vez de se assemelhar a um padrão
fixo de configuração visual como, por exemplo, “o
esqueleto ou a morfologia de um organismo ou as vigas de
concreto que sustentam um edifício”, a estrutura é
concebida como “regras e recursos envolvidos recursivamente
na reprodução social” (Giddens,
1984, p. 16). As regras e os recursos constituem propriedades
estruturadoras, conforme enfatiza Giddens. São essas
propriedades que nos permitem reconhecer determinadas práticas
sociais como semelhantes ou “as mesmas” devido à sua
estabilidade, embora temporária, no tempo e no espaço. Por
exemplo, gêneros textuais são formas de práticas sociais
reconhecidas por terem formas e funções que se repetem (Bakhtin,
1992).
As noções de regras e recursos como propriedades
estruturadoras são explicadas e exemplificadas a seguir.
5
Regras como Propriedades Estruturadoras: Elementos Normativos
e Códigos de Significação
Na
teoria da estruturação, “todas as práticas envolvem um
conjunto de regras que ocorrem simultaneamente e se conectam
de maneira bastante solta” (Cohen,
1989, p. 239). As regras, por sua vez, contêm dois aspectos: elementos normativos e códigos
de significação (figura 2). Os elementos normativos
dizem respeito às “sanções
aos modos de conduta social” ou “técnicas ou
procedimentos generalizáveis aplicados à implementação /
reprodução da vida social”, enquanto que os códigos de
significação correspondem à face semântica
das regras e dizem respeito, portanto, à “constituição de
significações” (Giddens,
1984, p. 21). Em outras palavras, o aspecto normativo
ou regulativo das
regras tem a ver com “a maneira apropriada ou legítima em
que as atividades devem ser realizadas, bem como com as sanções
positivas e negativas que são aplicáveis às atividades
tacitamente ou de forma consciente” (Cohen 1989, p. 236). Saber uma regra significa “saber como
proceder” (Giddens,
1979, p. 67, mencionando Wittgenstein). Por outro lado, o
aspecto semântico, ou de significação,
das regras se refere aos “significados discursivos e tácitos
que os agentes atribuem às suas próprias atividades e às
atividades dos outros, e aos contextos socialmente constituídos”
(Cohen, 1989, p.
236). No diagrama generalista, identificado pela figura 2, as relações que perfazem a estruturação social podem ser fortes e
livres, conforme representadas pela espessura das linhas.

Figura
2 – Diagrama
Generalista de Relação entre regras e
recursos e respectivas estruturas de legitimação,
significação e dominação.
Giddens
observa algumas características das regras no que diz
respeito às estruturas sociais: as regras sociais “estão
sujeitas a uma diversidade de contestação muito mais ampla
do que as regras de um jogo”, por exemplo; e, mais
importante, as regras são sempre associadas a práticas, não
podendo tampouco existir independentemente de recursos (GIDDENS,
1984, p. 18).
A
instanciação dos dois aspectos das regras, juntamente com
recursos (discutidos na próxima seção) dá origem à dualidade
da estrutura. Isto significa que a efetivação de regras
e recursos (em práticas sociais específicas) constitui ao
mesmo tempo o meio e
o resultado das práticas
sociais. Em outras palavras, à medida que os indivíduos agem
no mundo, fazem uso de – e ao mesmo tempo recriam –
estruturas sociais específicas.
O processo é semelhante ao uso da linguagem: cada vez que
alguém produz um texto, a lexicogramática – entre outros
elementos que viabilizam o uso da linguagem – constitui o
meio ou condição para produzir o texto e ao mesmo tempo o
resultado ou produto. Em outras palavras, ao mesmo tempo em
que a lexicogramática permite (é o meio
para) a construção de textos, é reproduzida (é o resultado) ao se construir um texto. De forma semelhante, as
estruturas existentes são reconstruídas constantemente,
envolvendo sempre as três dimensões representadas na Figura
1: regras e recursos, atribuições de papéis identitários e
práticas sociais.
Note-se
que as propriedades estruturadoras dos sistemas sociais não
apenas restringem, mas também capacitam a ação humana,
engendrando desta forma mudanças potenciais cada vez que uma
prática social é instanciada. Qualquer tipo de estabilidade,
conseqüentemente, é temporário. Entretanto, devido ao fato
de que todas as ações implicam de alguma forma o uso de
estruturas já existentes, em muitos contextos as mudanças não
acontecem com facilidade.
Como
a face normativa das regras constitui propriedades
estruturadoras? Para responder esta questão, vamos tomar como
exemplo a força normativa de um possível projeto
"defesa de mísseis" nos Estados Unidos, como aquele
mencionado no texto de Chomsky. Caso um projeto dessa natureza
seja aprovado (a aprovação em si já constitui uma
regulamentação e, é claro, envolve significações) pelo
congresso dos Estados Unidos, resultará em um grande número
de normas e conseqüências práticas: contratos entre governo
e companhias de engenharia e alta tecnologia, especificação
de locais de fabricação, construção de plataformas de lançamento,
etc. Portanto, o aspecto normativo das regras tem um papel
estruturador porque está profundamente envolvido na (re)produção
de atividades humanas, em diferentes práticas sociais. Ou
seja, as propriedades estruturadoras das normas se
materializam nas ações e identidades dos indivíduos e das
instituições. Ações e identidades são em grande parte
orientadas por regulamentações, que têm força
estruturadora porque estabelecem o que se espera que os
agentes humanos façam, ou não façam.
Da
mesma forma, como as significações – a face semântica da
regras – constituem propriedades estruturadoras? Como
adquirem o poder de “organizar” a ação humana? Uma
resposta pode ser iniciada com a seguinte afirmação: pensamentos
provocam ações (Casti,
2003; Bohm,
1994). No entanto, os pensamentos estão ligados a significações
e são as significações, na verdade, que levam à ação. É
desta forma que exercem poder estruturador. Vamos examinar
algumas significações construídas no texto de Chomsky para,
em seguida, especificar mais claramente essa forma de poder.
Utilizo aqui processos do sistema de transitividade da LSF. A
contagem da ocorrência desses processos revela que 46,27%
são materiais; 29,85%
relacionais; 19,40%
mentais; e 4,48%
verbais. Isto significa que quase a metade (46,27%)
do total das significações criadas por Chomsky em seu
comentário avaliativo/exortativo representa ações, seguidas
de atributos
específicos (29,85%),
operações mentais (19,40%)
e atividades verbais (4,48%).
Dentro da totalidade dos processos materiais nesse texto,
72.73%
estão ligados a ações do governo dos Estados Unidos e seus
aliados. Em conjunto, esses processos criam um quadro mais ou
menos dantesco: “bloquear”, “usar
a força”,
“controlar”, “esmagar”, “explorar”,
“atirar”, “destruir”, “espancar”, “estuprar”,
“assassinar”. Por outro lado, há apenas uma ocorrência
de processo mental atribuída aos Estados Unidos, ou seja,
“esperar”, em uma oração encaixada (aqueles que esperam
usar a força) que segue a classificação dos
ataques como “um
presente para a direita mais reacionária, aqueles que esperam
usar a força”. Em termos desses processos materiais e
do processo mental, a significação geral que Chomsky cria
neste texto é a de um governo que pratica ações
criminosas e atrocidades, que tem força física, mas não
intelecto.
Por
intermédio de significações, Chomsky critica o governo dos
Estados Unidos e busca realçar as práticas do governo que se
apoiarão em outras significações fabricadas pelo próprio
governo. A exploração de significações pode ser vista
talvez com maior clareza no uso dos processos relacionais.
Dois aspectos diferentes da identidade nacional, e conseqüentes
práticas potenciais, emergem do texto dependendo das
significações a serem adotadas a respeito dos ataques: se
aquelas que Chomsky diz visualizar ou se aquelas – conforme
Chomsky – propostas pelo governo dos Estados Unidos. O
processo relacional “foram”, usado após o tema “os
ataques de hoje” na primeira oração, aponta para o
atributo “grandes atrocidades”. Apesar de Chomsky começar
o texto com esta avaliação negativa, ela não passa de uma
concessão, pois a segunda oração restringe sua significação:
“Em termos de número de vítimas, o ataque não chega ao nível
de outras tragédias como, por exemplo, o bombardeio do Sudão
pelo governo Clinton”. O uso da negação (“não”) é
notável, pois é um elemento lingüístico catalítico na
criação de significados opostos. Uma nova negação explícita
volta a ocorrer em um processo relacional no último parágrafo:
“não se trata de uma guerra da democracia contra o terror
– o que vão tentar fazer o mundo acreditar nos próximos
dias”. E como negações regularmente predizem correção (Winter,
1977), Chomsky de fato acrescenta um novo complemento ao
processo relacional “trata-se” (um sinônimo de “é”)
para corrigir a afirmação anterior com uma citação de
Robert Fisk:
Trata-se
também de mísseis [dos Estados Unidos] esmagando lares
de palestinos e helicópteros [dos Estados Unidos]
atirando em uma ambulância no Líbano em 1996 e bombas
[dos Estados Unidos] destruindo uma pequena vila chamada
Qana e uma milícia libanesa – paga
e uniformizada por Israel, um aliado dos Estados Unidos –
espancando, estuprando e assassinando tudo o que passava
pela frente até em campos de refugiados.
Em
seguida a esta citação, Chomsky enfatiza o lado negativo da
identidade do governo dos Estados Unidos acrescentando à
correção uma oração existencial: “E há mais, muito
mais”. Há ainda outras significações construídas no
texto por intermédio de processos relacionais: “Os eventos
de ontem revelam, dramaticamente, a bobagem de idéias
sobre ‘defesa de mísseis’”; “A ‘defesa’ é
um pretexto fraco para planos de militarização do espaço”,
e “o crime é um presente para a direita mais reacionária”.
Na
ampliação de contexto que estou propondo, o importante na análise
não é apenas apontar as normas e as significações em si,
mas como elas – conforme a teoria da estruturação –
exercem papel estruturador e se interconectam com as práticas
que daí derivam. No texto de Chomsky, os conjuntos de
significações conflitantes têm o potencial para conduzir a
práticas marcadamente diferentes. Em seu segundo parágrafo,
Chomsky afirma: “Mas
os eventos de hoje irão […] ser usados para aumentar a
pressão para se desenvolver […] planos de militarização
do espaço”. Na verdade, são os significados atribuídos
aos eventos que serão usados
para aumentar a pressão e se manifestarão, portanto,
como elementos estruturadores de práticas que se seguirão.
Assim sendo, caso o governo dos Estados Unidos venha a
implementar práticas fundamentadas nas significações atribuídas
por Chomsky aos eventos de 11 de setembro, tentará entender
os fatos e não buscará soluções baseadas em poderio
militar. Por outro lado, caso o governo dos Estados Unidos
venha a implementar práticas fundamentadas nas significações
que Chomsky atribui a esse governo, as “soluções” serão,
sim, baseadas em poderio militar. Tal é o poder das significações
como propriedades estruturadoras da ação humana.
6
Recursos como Propriedades Estruturadoras: Alocação e
Autorização
De
forma semelhante às regras, os recursos são propriedades das
estruturas e estão implicados na reprodução da vida social.
Assim sendo, são também meio
e resultado dos
processos de estruturação. Sem recursos não há poder e não
há ação. Os recursos são também caracterizados por duas
dimensões que se interligam: recursos
alocativos, ou simplesmente alocação,
que resultam de posses materiais, i.e., do “controle de
produtos materiais ou aspectos do mundo material”, e recursos
autoritativos, ou simplesmente autorização
“que derivam da coordenação da atividade dos agentes
humanos” (Giddens,
1984, p. 17). Mais especificamente, a alocação (Giddens,
1984, p. 258) engloba as capacidades que geram controle sobre:
-
Características
materiais do ambiente (matéria prima, fontes de poder
material).
-
Meios
de produção/reprodução material (instrumentos de produção,
tecnologia).
-
Produtos
manufaturados (artefatos criados pela interação dos dois
itens anteriores).
e
a autorização (ibid.) inclui capacidades que geram controle
sobre:
-
organização
do tempo-espaço social (a constituição
temporal-espacial de rotas e regiões [pelas quais as
pessoas circulam]).
-
A
produção/reprodução do corpo (organização e relação
de seres humanos em associação mútua).
-
A
organização de oportunidades de vida (constituição de
oportunidades de desenvolvimento e expressão pessoais).
De
forma semelhante às regras, os recursos não são processos
estruturadores isolados. Ao contrário, a mobilização de
recursos implica igualmente a mobilização de regras: da
mesma forma em que as regras não podem ser conceituadas à
parte de recursos, os recursos também são afetados pelas
regras. Portanto, os recursos não são apenas adicionais às
regras, mas meios por intermédio dos quais as regras são
implementadas em práticas sociais (Giddens,
1979).
Como
não há ação sem recursos, os recursos estão também
diretamente implicados na geração e manutenção do poder.
Assim sendo, “os recursos são a ‘base’ ou os ‘veículos’
do poder” (Giddens, 1979, p. 69). Os indivíduos e as instituições se
apóiam nessas “bases” para se engajar em práticas
sociais, para desempenhar diferentes papéis, e para
“controlar” o fluxo de ações e interações com outros
indivíduos e instituições (Cohen,
1989). Resultando da interação, muitas vezes
intercontextual, de recursos e regras, “o poder é gerado
por formas definidas de dominação paralelamente ao
envolvimento de regras com práticas sociais, e, deveras, como
um elemento integral dessas práticas” (Giddens,
1979, p. 69). Todas as formas de prática social, portanto,
envolvem alguma forma de poder. Assim sendo, todos os indivíduos
e todas as instituições têm alguma forma de poder, apesar
de alguns/umas serem muito mais poderosos/as do que outros/as.
E se tanto os indivíduos como as instituições têm
estreitas ligações com recursos, ou falta deles, não faz
sentido ignorar tal face das identidades e das práticas.
Todos
os textos envolvem também algum tipo de recurso. No texto de
Chomsky, embora não haja epítetos ou classificadores
acrescentados ao seu nome, os/as leitores/as poderiam
antecipar, na época de sua publicação logo após o 11 de
setembro, que se tratava de comentários críticos sobre os
ataques ao World Trade Center porque o autor é conhecido por
sua análise fustigante das políticas do governo dos Estados
Unidos. Como tal, Chomsky tem angariado recursos autoritativos
para expressar publicamente seus pontos de vista e desafiar,
com legitimidade, as significações do envolvimento dos
Estados Unidos e seus projetos e políticas nacionais.
Na
ampliação de contexto que estou elaborando, proponho que
focalizemos ainda mais explicitamente em LSF e ACD a interligação
dos elementos textuais com as práticas humanas em contextos e
em intercontextos atuais. Precisamos evidenciar numa variedade
crescente de gêneros textuais quem mantém mais poder, por
que e como, isto é, através de que recursos e de que formas
de significação, ideologicamente mobilizadas, para servir
interesses específicos. No caso do texto de
Chomsky, tanto recursos alocativos como autoritativos podem
ser examinados, por exemplo, em relação às ações dos
Estados Unidos de “bloquear um pedido para abrir inquérito
nas Nações Unidas”, “aumentar a pressão para se
desenvolver [projetos de armamento] e colocá-los em prática”,
ou “tentar entender o que se passou”.
7
Estruturas de Legitimação, Significação e Dominação
Em
sua função de propriedades estruturadoras dos sistemas
sociais, as regras e os recursos são implementados ou
instanciados simultaneamente em diferentes domínios sociais:
no nível pessoal, no nível institucional e no nível da
sociedade em geral. Por exemplo, ações pessoais (e.g., a
decisão de Clinton em atacar o Sudão) têm influência no nível
institucional (e.g., o congresso dos Estados Unidos aprova
Clinton) e eventualmente na ordem mundial (expande-se
internacionalmente o impacto das ações do governo dos
Estados Unidos, provocando ressentimentos e reações que
podem perturbar pessoas em muitas partes do globo). Os
diferentes níveis se interpenetram e se inter-influenciam.
Nesses três níveis, dependendo das relações complexas
entre normas/significações e alocação/autorização
implicadas nas práticas sociais, diferentes
identidades/distribuição de papéis identitários são
instanciadas, diferentes relações são estabelecidas, e
diferentes representações da “realidade” – e,
portanto, diferentes significações – são criadas. Esses
aspectos da vida social se influenciam mutuamente, levando à
formação de estruturas
de legitimação, estruturas
de significação e estruturas
de dominação socialmente interconectadas (figura 2).
As
estruturas de legitimação (e.g., instituições legais) e as
estruturas de significação (e.g., diferentes discursos) se
relacionam bidirecionalmente, i.e., moldam e são moldadas por
elementos normativos e códigos de significação,
respectivamente, conforme esses são implementados por indivíduos
desempenhando papéis em diferentes práticas sociais. De
maneira semelhante, as estruturas de dominação – políticas,
econômicas, teóricas, intelectuais, etc. – se
interconectam aos recursos alocativos e autoritativos
utilizados pelos indivíduos envolvidos em papéis e
identidades em práticas diversas.
Como
também é sugerido pelas flechas bidirecionais na figura 2,
existe uma estreita relação de interdependência entre
estruturas de legitimação, significação e dominação.
Portanto, normas e significações que podem se originar (intercontextualmente)
em diferentes ambientes sociais podem ser legitimadas em uma
determinada prática, por intermédio do uso de recursos
alocativos e/ou autoritativos. Ou, o uso de diferentes
recursos em determinadas práticas pode ser legitimado por
determinadas significações. Por exemplo, no texto de
Chomsky, temos a referência à seguinte prática inusitada:
“uma milícia libanesa – paga e uniformizada por Israel,
um aliado dos Estados Unidos – espancando, estuprando e
assassinando tudo o que passava pela frente até em campos de
refugiados”. O que a milícia libanesa supostamente fez, de
acordo com Chomsky, pode ter sido legitimado por significações
construídas em Israel e nos Estados Unidos a respeito do povo
palestino. É importante investigarmos e discutirmos que tipos
de significações legitimam que tipo de dominação e
vice-versa.
Sempre
que estruturas de dominação são mobilizadas, estruturas de
legitimação e de significação podem ser reforçadas em uma
constante interação entre regras e recursos, implementos em
práticas sociais. Por exemplo, se o congresso dos Estados
Unidos, conforme o texto de Chomsky, usou recursos
autoritativos para bloquear um inquérito sobre os bombardeios
ordenados por Clinton no Sudão, reforçou a legitimidade da ação
do presidente dos Estados Unidos bem como das significações
que são atribuídas ao poderio deste país. Entretanto, da
mesma forma em que as estruturas de dominação podem levar à
(re)produção e à legitimação de diferentes regras, as
estruturas de legitimação e significação podem afetar as
estruturas de dominação, reproduzindo-as ou desafiando-as.
Nesse processo, cria-se o potencial para mudanças sociais.
Por exemplo, em seu texto Chomsky desafia significados
relativos à estrutura de dominação dos Estados Unidos por
intermédio do questionamento das significações que o
governo do país atribui aos ataques de 11 de setembro. Talvez
se tivéssemos maior número de pessoas questionando por meio
de textos diversos as práticas pouco éticas no mundo atual,
teríamos um maior potencial de desafiar tais práticas e
eventualmente cooperar para mudanças.
Como
observado por Giddens (1984, p. 31) e sugerido na figura 2,
“as estruturas de significação devem ser compreendidas
sempre em conexão com estruturas de dominação e legitimação”.
Para compreendermos quais estruturas de dominação e de
legitimação estão em jogo é essencial investigar – e
divulgar ao grande público – as diferentes significações
que são atribuídas a “fatos” idênticos tais como os
ataques de 11 de setembro no texto de Chomsky.
Isso nos ajudaria também a entender melhor talvez o que
motiva a ação humana, como o mundo é estruturado e como
resistir ou verbalmente nos opor a tais estruturações.
Porque as estruturas são socialmente construídas, o que os
indivíduos consideram legítimo ou não e os significados que
atribuem a objetos, eventos e fenômenos variam dependendo das
formas de dominação, legitimação e significação
envolvidas. Tanto a LSF como a ACD nos dão subsídios para
mostrar que a linguagem está diretamente envolvida em tais
processos. Entretanto, porque não temos ainda teorização
sociocultural sistemática sobre a interligação da linguagem
com as estruturações sociais mais abrangentes, tais
processos não foram ainda suficientemente explorados.
8
Considerações Finais
Uma
das preocupações mais importantes tanto da LSF como da ACD
é estabelecer relações claras entre linguagem e contexto.
Como observei na introdução, um dos princípios fundamentais
da LSF é relacionar as redes semânticas a especificações
contextuais “acima”
dos significados, em termos de “categorias de alguma
teoria social geral ou teoria de comportamento”, e “abaixo”
(Halliday,
1973, p. 69), em
termos de elementos da lexicogramática. Avanços importantes
vêm acontecendo neste campo com o desenvolvimento e aplicação,
na LSF, das noções de contexto
da situação (relacionado ao registro) e contexto
da cultura (relacionado ao gênero textual) e, na ACD, com
a interpretação da linguagem como prática
social (HALLIDY, 1978; Fairclough,
1989, 1995; MEURER, 2002a, 2002b. Todavia, enquanto o nível
de profundidade (“delicadeza”, no sentido de Halliday) é
bastante alto em termos de estabelecer interconexões entre as
variáveis do contexto da situação (campo, relações e
modo), metafunções específicas da linguagem (experiencial,
interpessoal e textual) e os sistemas correspondentes de opções
lexicogramaticais (transitividade, modo verbal e tema/rema), não
existe um nível de profundidade igual de análise no que diz
respeito ao contexto da cultura, ou seja, às estruturas
sociais mais amplas – “acima” – que influenciam o
discurso.
A
maioria dos pesquisadores na ACD incorpora consensualmente o
princípio de Halliday sobre contexto às suas investigações
a respeito de aspectos menos visíveis do uso da linguagem em
especial a questões de ideologia e sua inter-relação com a
reprodução e a manutenção de formas de domínio de uns
sobre outros (Fairclough,
1989). Creio que o enquadre teórico que apresentei neste
trabalho possa ser uma opção – a ser aprofundada – em
direção a uma análise mais detalhada da interação entre
linguagem e o contexto mais amplo, com base em uma teoria
social. As noções sociológicas da teoria da estruturação
que acabo de apresentar podem auxiliar os analistas do
discurso a investigar como as regras (normas e significações),
juntamente com recursos (alocação e autorização), se
interconectam com diferentes práticas discursivas. A teoria
da estruturação pode auxiliar a explicar como a linguagem se
mescla com as estruturações sociais e funciona como condição
e resultado de práticas humanas específicas, reforçando-as
ou desafiando-as.
Embora
os atores humanos, incluindo os analistas do discurso tanto em
LSF como na ACD, disponham de uma enorme quantidade de
conhecimentos que lhes permitem “ir em frente” no mundo, o
conhecimento é sempre limitado a certos textos e contextos
que direta ou indiretamente lhes chegam ao alcance. Todas as
significações são, conseqüentemente, também limitadas. E
porque as significações e formas da legitimação e dominação
são socialmente construídas e muitas vezes um tanto
obscuras, um dos objetivos da LSF e da ACD continua sendo
construir mais conhecimento explícito sobre os conjuntos de
significações bem como sobre as normas e os recursos que de
uma forma ou outra moldam as práticas humanas.
O
mundo é, em alguns contextos, caracterizado por estruturas
perversas. Princípios sociológicos como aqueles que discuti
neste trabalho podem contribuir para uma compreensão mais
clara sobre quais estruturas de significação são
legitimadas para o beneficio ou vantagem de que formas de
alocação e autorização. Minha utopia é que as teorizações
e métodos de análise de práticas discursivas desenvolvidos
na LSF e na ACD possam ser expandidos e venham a ter
resultados positivos derivados da compreensão dos indivíduos
a respeito dessas estruturas. Essas teorizações e métodos
podem auxiliar a perceber relações de causa e conseqüência
entre a linguagem e o contexto da cultura, levando à reflexão
sociologicamente fundamentada sobre identidades, sobre
significações e formas de dominação. Isso pode
legitimamente auxiliar na condução de “políticas de
vida” (Giddens,
1991, p. 209-233) mais democráticas nos contextos imediatos e
nos intercontextos mais amplos das práticas humanas. A
linguagem é a “arma”.
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Recebido
em 24/08/04. Aprovado em 20/10/04.
|
Title:
Building further context in Systemic Functional Linguistics and Critical
Discourse Analysis |
|
Author:
José Luiz Meurer |
|
Abstract:
Despite
all the advances achieved by Systemic Functional
Linguistics (SFL) and Critical Discourse Analysis (CDA) in
the description of the pervasive relationship between
language and social context, there is still a need to
pursue further theorizing on the issue. In this paper I
explore aspects of Giddens’ structuration theory as
contextualization tools in discourse analysis.
Concentrating on rules and resources as structuring
properties of social life, I illustrate how they may be
used to supplement analyses in SFL and CDA by discussing
aspects of meanings as instantiated in a text by Noam
Chomsky, ‘On the Bombings’, of September 11, 2001. I
also introduce the notion of intercontextuality to refer
to contexts that cut across other contexts. My main
concern is to attempt to expand the body of knowledge on
the interrelationship between language and social
structuring. |
|
Keywords:
social
context; systemic functional linguistics; critical
discourse analysis; structuration theory.
|
|
Tìtre:
Donnant
de l’ampleur à la notion de contexte dans la
linguistique systémique-fonctionnelle et dans l’analyse
critique du discours |
|
Auteur:
José Luiz Meurer |
|
Résumé:
Malgré tout le progrès réalisé par des chercheurs
en Linguistique Systémique-Fonctionnelle (LSF) et en
Analyse Critique du Discours (ACD) dans la description de
la relation étroite entre le langage et le contexte
social, on peut encore vérifier le besoin de théorisations
plus larges sur cette question. Dans cet article, je développe
des aspects de la théorie de la structuration de Giddens
servant comme des outils pour l’analyse du contexte dans
les études du discours. En me concentrant dans les règles
et recours comme proprietés qui font la structure de la
vie sociale, je donne des exemples pour démontrer comment
ces notions peuvent être utilisées pour spécifier des
éléments contextuels en SFL et ACD.
Avec
cet objectif, j’analyse certains aspects d’un texte de
Chomsky, “Sur les Bombardements”, daté du 11
Septembre, 2001. Je présente aussi la notion d’intercontextualité
pour recourir aux contextes qui s’íntercroisent avec
d’autres contextes. Mon souci central est celui d’essayer
d’étendre les connaissances sur l’inter-relation
entre langage et structuration sociale. |
|
Mots-clés:
contexte
social; Linguistique Systémique-Fonctionnelle; Analyse
Critique du Discours; théorie de la structuration.
|
|
Título:
Ampliando
la noción de contexto en la lingüística sistémico-funcional
y en el análisis crítico del discurso
|
|
Autor:
José Luiz Meurer |
|
Resumen:
A pesar de todos los avances realizados por
investigadores en la Lingüística Sistémico-Funcional (LSF)
y en el Análisis Crítico del Discurso (ACD), en lo que
concierne a la descripción de la estrecha relación entre
el lenguaje y el contexto social, se verifica aún la
necesidad de teorías más amplias sobre dicha cuestión.
En este artículo examino aspectos de la teoría de la
estructuración de Giddens como herramientas para el análisis
del contexto en estudios del discurso. Concentrando mi
atención en las reglas y recursos como propiedades de
estructuración de la vida social, ejemplifico cómo se
pueden usar esas nociones
para especificar elementos contextuales en la LSF y
ACD. Por lo tanto, analizo aspectos de un texto de
Chomsky, “Sobre los Bombardeos”, del 11 de septiembre,
2001. Presento también la noción de intercontextualidad
para referirme a contextos que se entrecruzan con otros
contextos. Mi preocupación central es intentar expandir
los conocimientos sobre la inter relación entre lenguaje
y estructuración social.
|

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