1 Introdução
Um dos aspectos mais polêmicos da Teoria da Relevância
de Sperber e Wilson (1986/1995) diz respeito à relação entre esforço e
efeito postulada por seus proponentes. Para Sperber e Wilson, a relevância de
um estímulo cognitivo é determinada por dois fatores fundamentais, quais
sejam, o esforço necessário para que esse estímulo seja processado de forma
ótima e os efeitos que esse processamento ótimo alcança. Segundo a Teoria da
Relevância (daqui em diante, TR), através desta relação ótima a relevância
de um estímulo cognitivo para um indivíduo é vista como uma função positiva
dos efeitos contextuais alcançados através do processamento desse estímulo.
Em contraposição, a quantidade de esforço envolvida neste processamento é
vista como uma função negativa.
Críticas a esta relação esforço/efeito enfatizam
que a maximização de relevância, e seus conseqüentes efeitos contextuais,
pode se dar, em certos contextos, às custas de maior ou menor esforço
cognitivo (cf. Medeiros, 2003). Para Alves (1996), no caso da tradução, a relação
entre esforço cognitivo e efeitos contextuais pode ser melhor compreendida na
imbricação entre o ambiente cognitivo do tradutor e as meta-representações
geradas a partir da atribuição de relevância para determinadas unidades de
tradução. Portanto, para Alves a relação esforço/efeito precisa ser
relativizada em contextos tradutórios. Gutt (1998), de forma mais radical,
advoga em favor da exclusão do esforço de processamento da conceituação de
relevância e sugere que esta revisão não afetaria significativamente a
discussão sobre a natureza da tradução. Na busca por uma relativização
desta proposta, Alves (2001) avança na discussão sobre a relação entre esforço
e efeito em tradução argumentando que a busca por semelhança interpretativa,
dentro do arcabouço da TR, se dá através do mínimo esforço processual
necessário para se alcançar o máximo de efeitos contextuais possíveis.
Com o intuito de desenvolver esta linha de argumentação,
o presente artigo analisa aspectos processuais da tradução de um fragmento de
um mesmo texto de partida em inglês para o espanhol peninsular e para o português
brasileiro por tradutores novatos e expertos. O artigo procura demonstrar que a
relação esforço/efeito em tradução é construída através da
meta-representação que o sujeito tradutor tem dos textos de partida e de
chegada e, como decorrência, apresenta sempre uma dimensão relativa.
2 Quadro Teórico
A idéia central que norteia os pressupostos da TR
busca construir a noção de relevância com base na relação estabelecida
entre esforço (cognitivo) e efeito (contextual). Assumindo que a cognição
humana é direcionada pelo principio de relevância, Sperber e Wilson
(1986/1995) propõem fornecer uma explicação consistente para o funcionamento
dos mecanismos inferenciais humanos sem recorrer a uma ampla gama de regras e
princípios. De fato, Sperber e Wilson argumentam que é a expectativa de relevância,
mais que a relevância per se, que é
responsável pelo sucesso dos processos comunicativos entre os seres humanos.
A suposição de que os seres humanos operam em
contextos (mentais) variáveis sobre os quais atua um grau de relevância fixo
rompe com a relação Griceana de graus variados de relevância atuando em
contextos fixos e abre espaço para o redimensionamento da discussão sobre
processos inferenciais. Neste contexto, são fundamentais as noções de
manifestação mútua e ambiente cognitivo como elementos dinâmicos com um
papel constitutivo na relação esforço/efeito maximizada pelo principio de
relevância. Trata-se, sem dúvida, de uma questão complexa haja vista o perigo
de se postular uma relação custo/beneficio no processo de atribuição e
maximização de relevância.
Sensível a esta linha de argumentação, Gutt (1998)
propõe introduzir uma mudança radical no arcabouço da TR através da exclusão
da noção de esforço da conceituação de relevância. Se, por um lado,
Sperber e Wilson (1986/1995) utilizam a noção de esforço cognitivo para
explicar a existência de graus diferenciados de relevância, Gutt defende o
ponto de vista de que a questão pode ser resolvida sem referência ao esforço.
Argumenta que “suposições são mais ou menos relevantes em um contexto à
medida que tenham mais ou menos efeitos contextuais naquele contexto” (GUTT,
1998, p. 96). Nesse sentido, o papel do esforço estaria meramente inserido no
principio de eficiência que parece direcionar o funcionamento cognitivo dos
seres humanos.
A partir da exclusão da noção de esforço da
definição de relevância, Gutt propõe a revisão da pressuposição de relevância
ótima postulada pela TR em favor de uma pressuposição de relevância
adequada.
Pressuposição de relevância
adequada: O
conjunto de suposições {I} que o emissor pretende tornar manifesto para o
receptor é adequadamente relevante. (ibid)
Com base nesta pressuposição, o princípio de relevância,
segundo Gutt, seria redefinido da seguinte forma:
Principio de relevância
revisto: todo ato de
comunicação comunica a pressuposição de sua relevância adequada. (ibid)
A partir desta redefinição, Gutt defende a idéia
de que o esforço de processamento pode ter implicações na decisão de um
indivíduo se envolver ou não em uma troca comunicativa mas não lhe parece
necessário supor que esse esforço esteja relacionado com os efeitos
contextuais esperados. Esta afirmação de Gutt me parece ser de especial importância
no caso do estudo de processos tradutórios. Se, à luz da TR, a tradução se
configura como uma atividade mental direcionada pela busca de semelhança
interpretativa entre unidades de tradução de um determinado texto de partida e
de um texto de chegada correlato, me parece pertinente que esta relação seja
postulada como decorrente da meta-representação que o tradutor tem dos textos
de partida e de chegada. Neste contexto, a atribuição de relevância adequada,
na forma como proposta por Gutt (1998), não vincularia a obtenção de efeitos
contextuais ao esforço desempenhado. Estaria muito mais relacionada aos efeitos
contextuais influenciados por fatores circunstanciais, tais como, manifestação
mútua e características do ambiente cognitivo do tradutor. Desta forma, o acréscimo
de esforço pode, indiferentemente, aumentar ou reduzir efeitos contextuais.
Gutt é enfático ao afirmar que não é necessário assumir que uma comparação
entre efeitos contextuais e esforços cognitivos resultaria em um valor
determinado de relevância que direciona a reação de indivíduos. O nível de
esforço pode aumentar devido ao prazer de realizar determinada atividade
comunicativa.
Como mencionado anteriormente, a discussão da relação
entre esforço cognitivo e efeito contextual é o ponto central deste artigo.
Para tanto, cabe mencionar a proposta de Alves (2001) de estabelecer uma ligação
entre semelhança interpretativa, esforço e efeito nos estudos sobre o processo
tradutório e o desempenho de tradutores novatos e expertos. Concordo com Gutt
sobre a necessidade de uma redefinição da relação esforço/efeito postulada
pela TR. Contudo, ao invés de defender sua exclusão, prefiro argumentar que em
contextos tradutórios a semelhança interpretativa é alcançada através de
uma busca de equilíbrio entre esforço e efeito. Este equilíbrio é uma questão
de grau e depende da meta-representação que o tradutor tenha dos textos de
partida e de chegada, incluindo nesta meta-representação expectativas sobre a
recepção da tradução por um possível público leitor. Desta forma,
relativizando a relação esforço/efeito em tradução, é possível postular,
dentro do arcabouço da TR, que a atribuição de semelhança interpretativa
pelo tradutor se dá através do mínimo esforço processual necessário para se
alcançar o máximo de efeitos contextuais possíveis sempre direcionados pela
meta-representação que este tradutor construa em consistência com o princípio
de relevância.
Analisando esta questão a partir da perspectiva da
aquisição de competência em tradução, Gonçalves (2003) propõe uma
revisitação conceitual e paradigmática da TR, levando-se em conta
pressupostos conexionistas. A proposta de uma competência tradutória específica,
em complementação a uma competência tradutória geral, norteada pelo princípio
de relevância e direcionada para a busca de semelhança interpretativa, somente
é possível dada a forma flexível e plástica como a TR aborda a regulação
de processos cognitivos, implementado-os com base em dois fatores voltados para
a maximização das atividades cognitivas: o máximo de efeitos contextuais possíveis
– ou a quantidade adequada, como se prefere na reformulação do princípio
de relevância – através do mínimo esforço cognitivo necessário.
Através desta relativização é possível tentar
mapear os processos inferenciais de tradutores novatos e expertos e analisá-los
à luz da relação esforço/efeito em sua busca por solução de problemas,
tomada de decisão e atribuição de semelhança interpretativa. Um estudo
preliminar que almeja tais objetivos será o objeto das próximas seções.
3 Quadro Metodológico
Os procedimentos metodológicos adotados neste artigo
pautam-se pelo paradigma da triangulação de dados processuais nos Estudos da
Tradução proposto em Alves (2003). Os parâmetros de análise valem-se também
da proposta de Alves e Gonçalves (2003) para a aplicação do arcabouço teórico
da TR ao estudo do processo da tradução.
Com o objetivo de investigar a relação esforço/efeito
em tradução, foram selecionados quatro sujeitos: dois tradutores com alto grau
de competência e dois tradutores novatos. Um dos tradutores expertos é falante
nativo do português brasileiro e o outro do espanhol peninsular. A mesma
combinação de repete entre os dois tradutores novatos. Desta forma, torna-se
possível contrastar a competência em tradução desses quatro tradutores entre
dois pares lingüísticos próximos (inglês-português e inglês-espanhol) bem
como entre sujeitos com graus de competência diferenciada (experto e novato).
No âmbito deste artigo, os tradutores expertos são definidos como indivíduos
com mais de dez anos de experiência profissional em tradução e reputação
consolidada. Os tradutores novatos têm cerca de um ano de experiência em tradução
com pouca prática profissional. Todos os sujeitos traduziram o mesmo texto e
receberam tarefa de tradução idêntica. Trabalharam nas mesmas condições de
produção e voltados para o mesmo público alvo. Ao longo das próximas seções
deste artigo, o tradutor novato brasileiro será identificado como T1, o novato
espanhol como T2, o tradutor experto brasileiro como T3 e o experto espanhol
como T4.
O texto de partida utilizado no presente artigo
intitula-se Bugbear - Email virus strikes in new form (cf. Anexo 1).
Trata-se de um texto de 262 palavras publicado na versão eletrônica do jornal
britânico The Guardian em 06 de junho
de 2003. O texto divulga a notícia do ataque de uma nova versão de um vírus
de informática, o Bugbear. Aos
tradutores brasileiros e espanhóis foi solicitada a produção de uma tradução
que alertasse usuários de computadores sobre o grau de periculosidade do
ataque. O público alvo eram leitores de jornais eletrônicos do perfil da Folha
de São Paulo no Brasil e do La Vanguardia na Espanha.
O desenho experimental configura, assim, a
possibilidade de se contrastar dados processuais sobre a tradução do texto
Bugbear
do inglês britânico para o português brasileiro e o espanhol peninsular por
dois grupos de tradutores com diferentes perfis tradutórios. Serão observados
padrões de natureza processual, detalhados a seguir nesta seção, e
investigada a relação entre esforço e efeito no desempenho dos tradutores.
Para fins de análise foram estabelecidas duas hipóteses
de trabalho:
a) a relação esforço/efeito em tradução será norteada pela busca de
semelhança interpretativa compatível com o grau de competência do tradutor;
b) a busca por semelhança interpretativa será regulada através de uma
busca de equilíbrio entre o nível de esforço (cognitivo) empreendido e o nível
de efeito (contextual) almejado e variará segundo a meta-representação que o
tradutor tenha dos textos de partida e de chegada.
Em outras palavras, espera-se que os tradutores
expertos (T3 e T4) regulem o nível de esforço empreendido em relação aos
requisitos da situação de comunicação com o intuito de maximizar a relevância
dos fatos que desejam comunicar. Por outro lado, os tradutores menos experientes
(T1 e T2) terão a relação esforço/efeito guiada por padrões de recuperação
lexical e serão menos sensíveis a questões de acessibilidade contextual.
As duas hipóteses serão testadas através da triangulação dos
produtos da tradução com protocolos de pausa obtidos através do programa
Translog e protocolos retrospectivos, gravados utilizando-se a função
replay do Translog imediatamente após
a realização da tarefa de tradução. O leitor interessado encontrará mais
informações sobre esses procedimentos metodológicos em Alves (2003). Para
fins da análise aqui desenvolvida cabe esclarecer que os protocolos de pausa
identificam a existência de um problema de tradução pelo tempo gasto em sua
solução enquanto que os protocolos retrospectivos fornecem pistas inferenciais
sobre a atribuição de relevância no processamento da tradução. Desta forma,
espera-se poder estabelecer uma correlação entre o tempo de pausa e as
características do relato inferencial que iluminem, à luz da TR, a relação
esforço/efeito em tradução. Em outras palavras, quanto maior o tempo gasto no
processamento de uma determinada unidade de tradução, maior o esforço
cognitivo despendido. Segundo as hipóteses de trabalho que norteiam este
artigo, espera-se, em uma relação de tradução congruente com os pressupostos
da TR, uma busca de equilíbrio entre o nível de esforço (cognitivo)
empreendido e o nível de efeito (contextual) almejado que variará segundo a
meta-representação que o tradutor tenha dos textos de partida e de chegada.
4 Análise
Por razões de espaço a análise dos dados será
limitada a um único exemplo. Trata-se de um fragmento do texto de partida que
introduz a informação sobre o agente responsável pela divulgação do ataque
do vírus Bugbear, qual seja, a
empresa MessageLabs especializada na
monitoração e filtragem de vírus informáticos. O fragmento do texto em inglês
diz:
According
to MessageLabs, a Cheltenham-based virus filtering firm
O problema que se coloca para fins de análise não
diz respeito à complexidade da tradução para o português e o espanhol do
sintagma nominal a Cheltenham-based vírus
filtering firm. A complexidade lingüística não parece ter sido um
problema para os tradutores expertos. Contudo, como veremos no decorrer da análise,
foi foco de problema para os tradutores novatos. A questão que se coloca em
discussão neste artigo diz respeito à necessidade (ou não) de explicitação
por parte dos tradutores da localização da cidade de Cheltenham onde se encontra a sede da empresa MessageLabs.
A explicitação de conceitos durante o ato tradutório
pode, segundo Baker (1996), pode ser postulada como um quase “universal” de
tradução. Na verdade, Baker chegou a utilizar o termo translation universals numa tentativa de buscar, através de
ferramentas da lingüística de corpus, padrões de tradução que transpusessem
fronteiras entre diferentes pares lingüísticos e pudessem ser postulados como
características próprias do texto traduzido. O presente artigo não tem por
objetivo a discussão desta problemática. Contudo, uma primeira análise dos
produtos dos quatro tradutores revela que os dois tradutores expertos optaram
pela explicitação da referência a Cheltenham
enquanto que os tradutores novatos não se preocuparam com a localização da
cidade.
|
TRADUTOR
|
TRADUÇÃO
|
CATEGORIA
|
|
Novato brasileiro – T1
|
De acordo com a MessageLabs, uma firma
especializada em filtrar vírus situada em Cheltenham […] |
Neutro
|
|
Novato espanhol – T2
|
Según MessageLabs, una empresa fabricante de
programas antivirus con sede en Cheltenham, […] |
neutro
|
|
Experto brasileiro – T3
|
Segundo a MessageLabs, uma companhia com sede em
Cheltenham, EUA, que produz filtros contra vírus, [...] |
explicitação
|
|
Experto espanhol – T4
|
Según
la empresa de protección antivirus MessageLabs, con sede en la zona de
Cheltenham [oeste de Inglaterra], […] |
Explicitação
|
Tabela 1 –
Fragmentos dos textos de chegada dos tradutores
expertos e novatos.
Pode-se argumentar que as especificidades da tarefa
de tradução – a produção, para um público alvo de leitores de jornais
eletrônicos, de uma tradução que alertasse usuários de computadores sobre o
grau de periculosidade do ataque do vírus – poderiam levar os tradutores a
prescindir da explicitação do topônimo nos textos de chegada em português e
espanhol. Os tradutores poderiam, inclusive, optar por uma estratégia de
simplificação, outro quase “universal” de tradução postulado por Baker,
e omitir a referência para os leitores brasileiros e espanhóis haja vista ser
de caráter redundante a informação sobre a localização da sede da empresa
MessageLabs. Contudo, não foi este o comportamento dos tradutores
expertos. T3 e T4 explicitaram, de fato, a localização da empresa.
Verifica-se, contudo, nas suas traduções, um problema de dupla solução.
Enquanto o tradutor brasileiro optou por situar Cheltenham
nos EUA, o tradutor experto espanhol localizou a cidade no oeste da Inglaterra.
Como só uma das opções pode ser correta em detrimento da outra, a explicitação
revela-se, ao mesmo tempo, uma estratégia bem e mal sucedida. Na investigação
da relação esforço/efeito em tradução, objeto de interesse deste artigo, a
questão que se coloca, em função da análise de processos inferenciais e da
tomada de decisão em tradução, é como os quatro tradutores chegaram a esses
produtos.
T1, o tradutor novato brasileiro, gastou 8 minutos e
31 segundos para chegar ao ponto do texto no qual se deparou com o problema de
tradução aqui analisado. A transcrição do protocolo de pausa registra uma
pausa de 14 segundos antes do nome da empresa MessageLabs
seguida de uma outra mais longa, com duração de um minuto e 24 segundos após
o nome da empresa. Registram-se também pausas adicionais num total de 20
segundos para a finalização da tradução do segmento. O losango ao final da
transcrição representa um sinal de espaçamento e, dentro do recorte metodológico
aqui adotado, significa uma mudança hierárquica no processamento e o
deslocamento do foco de atenção do tradutor para uma outra unidade de tradução.

Figura 1 – Protocolo de pausa com representação do
programa Translog do desempenho de T1.
A representação do programa
Translog revela, através da análise de pausas, que o problema para
T1 parece residir no nível da codificação conceitual e procedimental. As
pausas de aproximadamente quatro segundos antes e no meio da digitação de
Cheltenham
parecem indicar que T1 não se preocupou com o nome da cidade. Contudo, como
atesta a verbalização retrospectiva coletada imediatamente após o término da
tarefa, a tradução do topônimo Cheltenham
foi objeto efetivo de preocupação por parte do tradutor novato brasileiro.
Este trecho não foi difícil de traduzir já que quase
não havia palavras desconhecidas. Meu único problema foi “Cheltean” que
assumi ser o nome de uma cidade. (T1)
O relato de T1 é ilustrativo das reflexões
desenvolvidas na parte teórica deste artigo. A afirmação de que a tradução
foi fácil por não haver palavras desconhecidas indica uma meta-representação
da tradução enquanto uma instância de codificação linear com foco nas
unidades lexicais. O problema concreto de T1, qual seja, seu desconhecimento do
que significava Cheltenham, foi
resolvido rapidamente, em cerca de quatro segundos, com a suposição que se
tratava do nome de uma cidade. Cabe destacar ainda a pronuncia incorreta do nome
da cidade, transcrita entre aspas, e a digitação de todo o trecho em
caracteres maiúsculos, característica ortográfica diferente daquela
apresentada em letras minúsculas no texto de partida. São componentes
adicionais que comprovam a falta de experiência de T1 com a prática tradutória.
Com o pouco esforço empreendido neste processo, a
proposta de tradução de T1 para MessageLabs,
“uma firma especializada em filtrar vírus situada em Cheltenham”, revela
uma re-textualização que não recupera os efeitos contextuais almejados pelo
texto de partida. O leitor da tradução tampouco é informado corretamente
sobre o tipo de atividades desempenhadas pela empresa. Pode-se dizer, à luz da
TR, que a relação esforço/efeito é inconsistente apesar de compatível com
as premissas de meta-representação sinalizadas por T1. As pausas e os relatos
retrospectivos comprovam que o tradutor novato brasileiro concentrou seus esforços
na busca da recuperação lexical do texto de partida. Trata-se de um desempenho
correlato às evidências encontradas por Pinto (2004) para a relação esforço/efeito
encontrada entre tradutores novatos.
T2, o tradutor novato espanhol, apresenta um
desempenho processual semelhante àquele de T1. Gastou 13 minutos e 8 segundos
para chegar ao ponto do texto no qual se deparou com o problema de tradução
aqui analisado. A representação do programa Translog
registra uma pausa de seis segundos logo após a digitação do nome da empresa
MessageLabs,
seguida da digitação do losango azul que indica mudança de foco processual e
de uma outra pausa mais longa, com duração de quase 22 segundos, após a qual
a sede da empresa é situada em Cheltenham.
Registra-se, a seguir, um movimento recursivo no texto identificado pelas
flechas que marcam o movimento do cursor e pausas adicionais, num total de 26
segundos para a finalização da tradução do segmento. A recursividade
observada no processo de tradução pode ser indicativa de uma preocupação por
parte do tradutor sobre como ligar as duas partes do sintagma nominal, quais
sejam, Cheltenham-based e
vírus filtering.

Figura 2 – Protocolo de pausa com representação do
programa Translog do desempenho de T2.
A representação do programa
Translog revela, através da análise de pausas, que o problema para
T2, assim como para T1, parece residir no nível da codificação conceitual e
procedimental. A ausência de pausas durante a digitação do nome da cidade
parece indicar que T2 não se preocupou com a localização da sede da empresa.
De fato, o relato retrospectivo de T2 não faz alusão ao problema. Como atesta
a verbalização retrospectiva coletada imediatamente após o término da
tarefa, o objeto de preocupação foram as instâncias de codificação
conceitual e procedimental que veiculam o significado de a
vírus filtering firm.
¿Traducir virus filtering como programas antivirus?,
¿Podría ser filtros antivirus? (T2)
O relato de T2 corrobora também as reflexões
desenvolvidas na parte teórica deste artigo. As dúvidas entre “programa
antivírus” e “filtros antivírus” são representativas do foco exclusivo
no processamento lexical. T2 não faz alusões a problemas de acessibilidade
contextual da informação veiculada pelo texto de partida. O problema com o topônimo
foi resolvido rapidamente pelo tradutor novato espanhol, sem hesitações, com a
indicação de que a sede da empresa MessageLabs
está localizada em
Cheltenham.
Com o pouco esforço empreendido, a proposta de tradução
de T2 para descrever as atividades realizadas pela MessageLabs,
“una empresa fabricante de programas antivirus con sede en Cheltenham”,
revela uma re-textualização que, como aquela feita por T1, tampouco recupera
os efeitos contextuais almejados pelo texto de partida. Assim como ocorreu no
texto de chegada produzido pelo tradutor novato brasileiro, o leitor da tradução
feita pelo tradutor novato espanhol não é informado corretamente sobre o tipo
de atividades desempenhadas pela empresa que não é fabricante de programas
antivírus. Pode-se dizer, à luz da TR, que a relação esforço/efeito no
desempenho de T2 é congruente com as premissas de meta-representação
sinalizadas pelo sujeito tradutor. Contudo, sua tradução não chega a alcançar
efeitos contextuais satisfatórios. Como observado em relação ao desempenho do
tradutor novato brasileiro, o processo inferencial de T2 também parece ser
característico da relação esforço/efeito encontrada por Pinto (2004) entre
tradutores novatos. Em outras palavras, os esforços dos tradutores novatos
concentram-se sobretudo no nível da recuperação lexical e não parecem levar
em consideração questões de natureza contextual.
T3, o tradutor experto brasileiro, gastou quatro
minutos e 58 segundos para alcançar o ponto do texto no qual se deparou com o
problema de tradução aqui analisado. Foi o tradutor mais veloz entre os quatro
sujeitos, gastando, neste processo, a metade do tempo utilizado por T1 e um terço
daquele necessário para T2. Pode-se dizer, portanto, que o processo de T3
revela menos esforço por parte do tradutor para a execução da tarefa de tradução.
A transcrição do protocolo de pausa de T3 registra uma pausa de três segundos
antes da digitação do nome da empresa MessageLabs, seguida da digitação do losango azul que indica mudança
de foco processual e de uma outra pausa curta, com duração de dois segundos,
após a qual traduz adequadamente as informações sobre as atividades da
empresa e a localização da sua sede em Cheltenham.
Percebe-se, através da representação linear do programa Translog, que T3 não teve problemas para resolver questões
relacionadas a instâncias de codificação conceitual e procedimental como
aconteceu com T1 e T2. A informação de que a empresa MessageLabs é “uma companhia que produz filtros contra vírus com
sede em Cheltenham” veicula adequadamente o significado do texto de partida.
Pode-se argumentar, portanto, que T3, um tradutor experto, conseguiu uma relação
esforço/efeito ótima uma vez que em pouco espaço de tempo conseguiu produzir
efeitos contextuais adequados informando aos leitores da tradução sobre as
atividades da empresa e sua localização.

Figura 3 – Protocolo de pausa com representação do
programa Translog do desempenho de T3.
Contudo, é interessante observar na representação
do protocolo de pausa de T3 uma longa pausa, com duração de um minuto e 29
segundos, logo após a digitação do nome da empresa. Segue-se imediatamente a
ela o losango azul que indica mudança hierárquica no foco do processamento do
tradutor e a digitação do aposto “nos EUA”. O relato retrospectivo de T3
fornece pistas interessantes sobre o processamento inferencial do tradutor e
revela aspectos da sua meta-representação do texto de partida.
Aqui foi a parada que eu fiz para ver onde ficava a
cidade. Fui à Enciclopédia Britânica. Vi que tem uma que fica nos Estados
Unidos, em Maryland, e outra na Inglaterra. Ai, eu resolvi apelar para o Google.
Bati o nome da firma. Deu “dot com” e eu vi que não tinha a extensão
“dot uk” e conclui que era a firma de Maryland. Ai eu coloquei EUA. (T3)
É relevante registrar o fato de que, indiretamente,
T3 revela, através da explicitação da situação geográfica de Cheltenham, a preocupação de contextualizar melhor os leitores da
tradução. Parece querer fornecer-lhes pistas comunicativas auxiliares para a
construção de uma meta-representação do texto de partida. Pode-se argumentar
criticamente que se trata de um comportamento redundante e que o esforço gasto
pelo tradutor não contribui para aumentar os efeitos contextuais previamente
alcançados. Trata-se de uma argumentação procedente haja vista que, além de
redundante, a informação é incorreta. De fato, a sede da empresa MessageLabs
fica na Inglaterra. T3 se apressou ao atribuir à ausência da terminação
“.uk” no resultado da sua consulta uma conseqüente localização da sede da
empresa MessageLabs nos EUA.
Ao final da tradução, já durante a fase de revisão,
T3 introduz ainda um componente adicional de esforço ao modificar rapidamente,
sem pausas, a ordem vocabular do fragmento aqui analisado quando o modifica para
“Segundo a MessageLabs, uma companhia com sede em Cheltenham, EUA, que produz
filtros contra vírus”. Infelizmente, o esforço suplementar de contextualização
empreendido por T3 tem efeito contrário ao almejado e contribui para
enfraquecer os efeitos contextuais já alcançados na tradução. A explicitação,
segundo Gutt (1991/2000), é um recurso utilizado como pista comunicativa para
ajudar na criação de uma meta-representação mais adequada do texto de
partida. É útil, sobretudo, quando há uma distância muito grande entre o
texto de partida e o ambiente cognitivo do leitor da tradução. Parece ter sido
este o objetivo de T3 e, ainda que o tradutor tenha se equivocado na referência
geográfica, o fato demonstra uma preocupação efetiva em aumentar os níveis
de acessibilidade contextual para os leitores da tradução. Em outras palavras,
diferente do desempenho de T1 e T2, o tradutor experto brasileiro não teve
dificuldades para solucionar instâncias de codificação conceitual e
procedimental e envidou esforços suplementares para resolver questões de ordem
macro textual. No que diz respeito à relação esforço/efeito, encontramos no
comportamento processual de T3 uma evidência em favor dos argumentos de Gutt
(1998) no sentido de redefinir a noção de esforço na conceituação de relevância.
Para T3, o esforço adicional foi relevante, pois, no seu entender, gerou uma
meta-representação do texto de partida congruente com o princípio de relevância.
Este esforço adicional, contudo, não contribui, de fato, para a maximização
de efeitos contextuais. Pode-se argumentar, portanto, que a relação esforço/efeito
é relativa em contextos de tradução e depende sobretudo da meta-representação
que o tradutor tenha dos textos de partida e de chegada.
Finalmente, T4, o tradutor experto espanhol,
apresenta um comportamento processual semelhante ao de T3, mas com resultados
diferentes em termos da relação esforço/efeito. Gastou praticamente seis
minutos para alcançar o ponto do texto no qual se deparou com o problema de
tradução aqui analisado. Foi o segundo tradutor mais veloz entre os quatro
sujeitos. Pode-se dizer, portanto, que o processo de T4 revela menos esforços
por parte do tradutor experto espanhol para a execução da tarefa de tradução
do que aquele observado entre os dois tradutores novatos. È também um esforço
correlato, em termos de tempo, àquele observado no comportamento de T3. A
transcrição do protocolo de pausa de T4 registra, inicialmente, uma pausa de
sete segundos antes que o tradutor introduza a informação adequada sobre as
atividades da MessageLabs, “empresa
de protección antivirus”. É interessante observar a anteposição da informação
em termos de ordem vocabular durante um processo que contém cerca de oito
segundos de pausas. A digitação do losango azul indicativo de mudança de foco
no processamento cognitivo, feita logo após o nome da empresa MessageLabs, é seguida por uma pausa de 14 segundos e por uma outra
bem mais longa, com duração de três minutos e 45 segundos, dentro do mesmo
foco hierárquico. O processo de reflexão de T4 tem como resultado a introdução
da informação de que a sede da empresa MessageLabs
está localizada no oeste da Inglaterra.

Figura 4 – Protocolo de pausa com representação do
programa Translog do desempenho de T4.
O relato retrospectivo de T4 fornece mais indícios
sobre seu comportamento e revela, assim como em T3, a preocupação de
explicitar a localização de Cheltenham.
Desconozco
el lugar de la sede en Cheltenham. Voy a la Británica. Decido verificar si es
ciudad, región, o barrio de una gran ciudad. La encuentro en Estados Unidos e
Inglaterra. Desconfío de la primera impresión y busco en Google la página web
de la empresa en
www.messagelabs.com.
Observo que los headquarters están en Gloucester. Voy a
www.multimap.com.
Retorno a la Británica y confirmo que el borough de Cheltenham está en la región
de Gloucester y decido, así, no mencionar la localidad y dejar zona oeste de
Inglaterra. (T4)
Da mesma forma que T3, o tradutor experto espanhol
consulta a Enciclopédia Britânica. Descobre que há duas cidades com o mesmo
nome nos EUA e na Inglaterra, mas, desconfiado, decide envidar mais esforços e
buscar o sitio da empresa MessageLabs
na Internet. Recupera, assim, a localização da empresa no condado de
Gloucester na Inglaterra e, acreditando que a informação é muito específica,
opta por acrescentar na tradução a informação que a sede da empresa está
localizada na zona de Cheltenham no
oeste da Inglaterra.
Percebe-se, através da representação linear do
programa Translog, que T4, semelhante
a T3, também não teve problemas para resolver questões relacionadas a instâncias
de codificação conceitual e procedimental como aconteceu com T1 e T2. A
informação que identifica “la empresa de protección antivirus MessageLabs,
con sede en la zona de Cheltenham [oeste de Inglaterra]” contém pistas
comunicativas suplementares com o objetivo explícito de aumentar o grau de
acessibilidade contextual da tradução. Um outro relato retrospectivo de T4
confirma esta suposição.
Me asalta
la convicción de que cualquier lector español padecerá mis mismas dudas y
decido aclarar que se encuentra en el oeste de Inglaterra. (T4)
Através da análise da representação linear do
programa Translog, pode-se argumentar
que T4 obteve, de imediato, uma relação esforço/efeito ótima uma vez que,
assim como T3, conseguiu em pouco espaço de tempo produzir efeitos contextuais
adequados informando os leitores da tradução sobre as atividades da empresa e
sua localização. Registram-se ainda como fatores positivos nesta relação de
esforço/efeito ótima a anteposição da descrição das atividades da
MessageLabs
ao nome da empresa; uma tentativa de tornar o texto menos marcado em espanhol.
Contudo, não satisfeito com esse resultado, T4 decide envidar ainda mais esforços
na sua tradução e concentra-se na explicitação da situação geográfica da
sede da empresa. A fim de contextualizar melhor os leitores da tradução, o
tradutor experto espanhol parece querer fornecer-lhes pistas comunicativas
auxiliares para a construção da meta-representação do texto de partida em língua
espanhola. Assim como observado com relação ao desempenho de T3, pode-se
argumentar que esse comportamento é redundante e que o esforço gasto pelo
tradutor não contribui para aumentar os efeitos contextuais previamente alcançados.
Contudo, os relatos retrospectivos de T4, ainda com mais veemência que aqueles
proferidos por T3, deixam claro que este esforço adicional se fazia necessário
diante da meta-representação que T4 tinha do texto de partida. Pode-se, desta
forma, argumentar novamente que a relação esforço/efeito é relativa em
contextos de tradução e depende, sobretudo, da meta-representação que o
tradutor tenha dos textos de partida e de chegada. Reforça-se, assim, os
argumentos de Gutt (1998) no sentido de redefinir a noção de esforço da
conceituação de relevância bem como aqueles apresentados por Alves (2001)
quando o autor argumenta que durante o processo de tradução a busca por
semelhança interpretativa, dentro do arcabouço da TR, se pauta pelo mínimo
esforço processual necessário para se alcançar o máximo de efeitos
contextuais possíveis, sempre em consonância com a meta-representação que o
tradutor tenha dos textos de partida e de chegada.
Confirmam-se, deste modo, as duas hipóteses de
trabalho formuladas no quadro metodológico deste artigo. Com relação à
primeira hipótese, o desempenho dos tradutores indica que a relação esforço/efeito
em tradução é direcionada por uma busca de semelhança interpretativa compatível
com o grau de competência do tradutor. O processo de atribuição de semelhança
interpretativa de T1 e T2 é distinto daquele observado em T3 e T4 e se revela
correlato a uma pressuposição de recuperação lexical por parte dos
tradutores novatos e outra de explicitação de pistas comunicativas com vistas
ao aumento da acessibilidade contextual por parte dos tradutores expertos.
Confirma-se também a segunda hipótese relacionada à suposição de que a
semelhança interpretativa será regulada através de uma busca de equilíbrio
entre o nível de esforço (cognitivo) empreendido e o nível de efeito
(contextual) almejado e variará segundo a meta-representação que o tradutor
tenha dos textos de partida e de chegada. As características processuais do
desempenho dos quatro tradutores, e em especial aquelas que dizem respeito a T3,
são evidências fortes neste sentido.
5 Conclusão
A análise dos dados processuais parece confirmar
algumas das relações já apontadas para diferenças no desempenho de
tradutores novatos e expertos no que tange à alocação de esforço cognitivo
para a solução de problemas de tradução. A análise reforça, neste sentido,
os resultado obtidos por Pinto (2004) e indicam que tradutores novatos tendem a
concentrar seus esforços na recuperação de cadeias lexicais. Tradutores
expertos, por outro lado, resolvem com facilidade problemas de natureza lingüística
e tendem a concentrar seus esforços em questões de caráter macrotextual.
Reitera-se também a afirmação de Pinto de que a relação entre tempo e esforço
não tem necessariamente impactos positivos sobre o produto da tradução.
Adicionalmente, a análise dos dados parece apontar
para uma interpretação da relação esforço/efeito, à luz da TR, situando-a
na perspectiva da meta-representação que o tradutor tenha dos textos de
partida e de chegada. Neste sentido, enquanto a atuação do princípio de relevância
é fixa, seus resultados em ambientes cognitivos diferenciados têm implicações
distintas na atribuição do mínimo esforço cognitivo necessário para se
alcançar um determinado efeito contextual. Configura-se, portanto, que em
contextos tradutórios a relação esforço/efeito é uma questão de grau.
Encerrando o artigo, como atesta Gonçalves, neste
volume, pode-se argumentar que em função da flexibilidade e plasticidade
postuladas no arcabouço teórico da TR é possível repensar o caráter
ortodoxo da teoria e sua inserção inicial no âmbito das Ciências Cognitivas.
Gonçalves (2003) argumenta em favor de uma releitura da TR que a aproxime de
pressupostos teóricos mais dinâmicos, tais como aqueles postulados pelo
conexionismo. Esta argumentação encontra eco na redefinição da relação
esforço/efeito postulada ao longo deste artigo. Esta redefinição torna possível
a transformação de uma relação fixa em uma relação dinâmica que se
configura na interação do sujeito com suas meta-representações e seu
ambiente cognitivo. A emergência de um contexto mental como balizador da
atribuição de relevância e da construção de significado, amplificado na prática
da tradução, parece apontar para o dinamismo das relações construídas no
equilíbrio da interface entre esforço cognitivo e efeitos contextuais.
Referências