|
Revista Linguagem em (Dis)curso, volume
5, número especial, 2005 |
 |
A
imagem: interpretação e comunicação
Jane
Rita Caetano da Silveira
|
|
Resumo: O
propósito deste artigo é apresentar algumas evidências
explanatórias da Teoria da Relevância de Sperber e
Wilson (1995), no tratamento interpretativo/comunicativo
da imagem, em contraponto a estudos semióticos baseados
em Peirce (1938-1951), especificamente na relação semântica
estabelecida entre o signo e seu objeto. Na análise
ilustrativa de uma charge, pela Relevância, enfatiza-se a
importância fundamental do contexto cognitivo na construção
de processos inferenciais para a compreensão,
ressaltando-se que a interpretação, indo além da imagem
visual, requer habilidades cognitivas e perceptuais, não
contempladas no nível explicativo da teoria semiótica,
essencialmente fundamentada em código.
|
|
Palavras-chave:
comunicação humana; cognição; processos inferenciais;
imagem visual; semiótica.
|
1
Introdução
Seja
do ponto de vista da semiótica, e das várias abordagens teóricas
fundamentadas em códigos, seja do ponto de vista das teorias
cognitivas, a imagem tem sido amplamente estudada na área de
linguagem e comunicação.
Entre
as vantagens de um texto constituído por imagens, de acordo
com alguns teóricos, destaca-se o fato de ele ser universal,
pois vence a barreira da linguagem, podendo, através de um
entendimento imediato, ser compreendido por pessoas de língua
e cultura diversas. Outra vantagem, comumente apontada, é a
de que a imagem permite uma leitura em menos tempo do que o
requerido pelo texto escrito, tornando-a atraente aos
potenciais leitores.
Joly
(1996) apresenta, ainda, como fator positivo, o aumento do
prazer estético e comunicativo na análise de obras constituídas
por imagem, ressaltando que a desconstrução desta permite
aguçar o sentido da observação e do olhar, aumentando as
informações na recepção espontânea das obras.
Obviamente,
alguns autores posicionam-se desfavoravelmente à predominância
da imagem na civilização atual, justificando que o seu
excesso contribui para a falta de reflexão lógica dos indivíduos.
Entretanto, a presença da imagem é cada vez mais forte e, se
não se pode ignorá-la, uma alternativa é explorar o seu
estudo.
Neste
artigo, iniciamos com diferentes caracterizações da imagem,
para depois apresentarmos alguns pressupostos teóricos que a
explicam enquanto um elemento comunicativo. Finalizamos com
uma análise ilustrativa de como a imagem é compreendida do
ponto de vista de uma abordagem cognitiva da comunicação,
especificamente, a Teoria da Relevância, de Sperber e Wilson
(1995), em contraponto à
abordagem semiótica.
2
Caracterizando a imagem
Há
várias formas de se definir a imagem, dependendo do seu foco
de estudo. Para Contrera e Hattori (2003, p. 26), a imagem é
“um termo que comumente utilizamos para designar representações
gráficas ou verbais de algo que existe ou poderia existir”.
Em outras palavras, é a representação de algo por semelhança.
W.
J. T. Mitchell (apud
CONTRERA; HATTORI, 2003), um estudioso da Iconologia, ciência
que trata do discurso em imagens e sobre imagens,
classifica-as, numa abordagem mais didática, como gráficas
(pinturas, estátuas e desenhos), ópticas (geradas pelo
espelhamento e projeção), perceptuais (as que nos chegam
pelos sentidos e reconhecimento de aparência), mentais
(realizadas pelos sonhos, pela memória e pelas idéias) e
verbais (descritas pelas palavras e sugeridas por metáforas).
Esta classificação não exclui, entretanto, a possibilidade
de fusão entre os conceitos para a compreensão do
significado da imagem. Afinal, podemos trabalhar uma imagem
verbal, sugerida por uma metáfora, e uma imagem mental,
gerando uma idéia ou um pensamento.
Indo
além de um estudo classificatório, Joly (1996) afirma que a
analogia é o ponto comum entre as diferentes significações
da imagem. Segundo o autor, uma imagem é, antes de tudo, algo
que se assemelha a alguma coisa. Isto se aplica até mesmo
quando esta imagem não é concreta: nos sonhos e fantasias,
por exemplo, a imagem se parece com a visão natural das
coisas. Esta semelhança coloca a imagem na categoria das
representações: ela se parece com a coisa, porém não a é,
sendo definida, portanto, como signo analógico, que tem na
semelhança o seu princípio de funcionamento.
Entretanto,
o autor ressalta que a imagem não se caracteriza apenas por
ser um signo icônico ou figurativo, já que ela pode
intercruzar diferentes materiais que a compõem para
constituir uma mensagem visual. Nesse sentido, a mensagem
visual pode ser construída com signos icônicos, que dão a
impressão de semelhança com a realidade, jogando com a
analogia perceptiva e com os códigos de representação
herdados pela tradição de representação ocidental, e com
os signos plásticos, que correspondem aos componentes da
imagem como a cor, as formas, a composição e a textura.
Para
Joly (1996), dentre todas as teorias que podem abordar a
imagem (teorias em matemática, em informática, em estética,
em psicologia, em retórica, em sociologia, entre outras), a
que melhor consegue dar conta do seu conceito, de forma mais
geral, “globalizante” e que ultrapassa as suas categorias
funcionais, é a teoria semiótica. O autor enfatiza como essencial, para a compreensão da imagem, o fato de ela
ser heterogênea, abrangendo, dentro de um limite, diferentes
categorias de signo: tanto as imagens, no sentido teórico do
termo (signos icônicos, analógicos), quanto os signos plásticos
e os lingüísticos, estes relacionados à linguagem verbal.
No
presente trabalho, nos referiremos à imagem visual, percebida
pela visão e processada inferencialmente para ser
compreendida, numa abordagem teórico-cognitiva da comunicação;
trata-se, portanto, de um texto, num sentido geral, que
carrega e comunica seus próprios significados, dependendo do
contexto onde está inserida.
3
Explicando a imagem do ponto de vista semiótico e cognitivo
Assim
como na linguagem verbal a língua é o objeto de estudo, na
semiótica é o signo que se encarrega de definir toda e
qualquer significação, formando o alicerce da análise da
linguagem não-verbal.
A
semiótica é entendida, em termos gerais, como a ciência que
estuda os signos, os quais são sinais que representam algo,
podendo ser objetos perceptíveis ou apenas imagináveis. Em
outras palavras, segundo Peirce (1938-51),
signo é tudo aquilo que representa algo para alguém.
Nos
moldes desse autor, Santaella (1983, p. 13) define a semiótica
como
a
ciência que tem por objeto de investigação todas as
linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o
exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno
de produção de significação e de sentido ou,
simplesmente, [...] é a ciência dos signos.
A
semiótica peirceana tem sido amplamente explorada para
investigar processos comunicativos, embora não tenha sido
sistematizada para modelos comunicacionais específicos.
Nos
estudos dos signos, Peirce apresenta relações triádicas que
se traduzem em 10 classes sígnicas, a partir de relações
complexas entre signo/signo, signo/objeto e
signo/interpretante. Ao considerar a relação de signo com o
objeto que representa, o autor distinguiu três tipos de
categorias principais de signos: símbolos (relação
convencional entre o signo e sua significação), ícones
(termo não arbitrário para signos em sua relação [de
semelhança] com o objeto) e índices (relação de contigüidade
com o objeto).
O
ícone, numa relação de similaridade, de comparação, pode
ser exemplificado pelo mapa terrestre, que representa a Terra.
Como exemplo de índice, poderíamos citar as impressões
digitais, que representam quem as fez. E o símbolo, de caráter
lógico, convencional, atrelado à cultura pode ser
exemplificado pelas palavras, porque representam a língua.
Pela
sua forte ligação com a imagem, o nosso interesse aqui está
centrado no ícone. Na verdade, segundo Santaella (2000), a
imagem é citada como exemplo de ícone, pois a qualidade de
sua aparência é semelhante à qualidade da aparência do
objeto que representa. Dizendo de outro modo, o ícone é um
signo que tem alguma semelhança com o objeto representado.
Dessa
forma, a convencionalidade ou arbitrariedade dos símbolos,
fundada na consciência ou conhecimento da convenção pelo
usuário, contrasta com o que poderia ser chamado de
naturalismos dos signos icônicos. Os signos, então, podem
ser naturais, que procedem da natureza e que aprendemos a
interpretar (nuvens escuras no céu são sinais de chuva), ou
convencionais, produzidos por um grupo social, com
determinantes culturais, que são diferenciados de sociedade
para sociedade, e que decorrem de qualquer interferência do
homem na natureza: costumes, crença, língua, alimentos,
entre outras.
Na
relação triádica de Peirce (1940), o signo passa por três
etapas, até ser definitivamente decodificado por nossa mente
ou não: objeto – é a representação do signo; representamen
– tem a função de representar o objeto; e interpretante
– constitui o efeito mental produzido pelo signo. O
interpretante é "ad infinitum", pois sempre gerará
outros e outros signos. Ou, de acordo com a definição do
autor, o sentido de um signo seria outro signo pelo qual ele
poderia ser traduzido.
Como
ressalta Eco (1991, p. 60), para Peirce, cada interpretante
(expressão que traduz uma expressão anterior) amplia a
compreensão do conteúdo do signo: o conteúdo interpretado
permite ir além do signo originário e entrever a necessidade
da futura ocorrência contextual de um outro signo.
Os
estudos modernos geralmente atribuem a definição de pragmática
como um dos ramos da semiótica a Morris (1938)
que, para tentar estabelecer a forma geral de uma ciência de
signos, distinguiu três ramos de investigação: sintaxe
(relações formais entre signos), semântica (relações
entre signos com os objetos do mundo que designam) e pragmática
(relações entre signos e seus usuários ou intérpretes.)
Esta classificação tríplice, tornada mais explícita e
conhecida através de Morris, deve-se, entretanto, a Peirce,
cujo trabalho tem influenciado, mesmo que de forma indireta,
muitos dos estudos dentro da teoria dos signos ou da significação.
O
uso do termo pragmática, por outro lado, dentro da filosofia
analítica, teve forte influência do filósofo e lógico
Carnap, que reinterpretou a tricotomia de Morris da seguinte
maneira:
Se
numa investigação é feita uma referência explícita ao
falante, ou, em termos mais gerais, ao usuário da
linguagem, então a atribuímos (a investigação) ao
campo da pragmática. Se abstraímos do usuário da
linguagem e analisamos apenas as expressões e suas denotações,
estamos no campo da semântica. E finalmente se abstraímos
também das abstrações, e analisamos somente as relações
entre as expressões, estamos na sintaxe. (CARNAP, 1938,
p. 2)
O
ponto importante aqui é que, tanto Morris quanto Carnap
concordam, seja qual for a distinção feita entre semântica
pura e pragmática pura, que a análise do significado em
linguagens naturais necessariamente envolve considerações
pragmáticas. E, da mesma forma, ambos reservam à pragmática,
dentro do contexto mais amplo da semiótica, um espaço
especial, afirmando que os signos de uma linguagem, para que
possam referir os objetos do mundo e organizar-se como
estrutura, dependem do uso que deles possa fazer o indivíduo.
Então, a pragmática é caracterizada como a disciplina que
estuda a relação dos signos com os seus usuários.
Esta
forma de introduzir a pragmática, via semiótica, definida,
em termos clássicos, como o estudo da relação entre os
signos e os indivíduos que os interpretam, desenvolveu-se, na
filosofia da linguagem, a partir de Grice (1957), Austin
(1962) e Searle (1969) – a tradição dos atos de fala.
Essa forma de pragmática valorizou o aspecto cognitivo e
permitiu que começassem a ser explorados os estudos do uso da
linguagem.
Assim,
enquanto teorias fundamentadas em códigos sustentam uma espécie
de pragmática da comunicação bastante modelada pela semântica,
tendo no código um elemento indispensável, a teoria
inferencial sustenta um processo que privilegia o raciocínio
dos interlocutores dentro de um contexto.
As
teorias inferenciais e dos códigos, embora não se oponham,
parecem ser absolutamente distintas em seus propósitos. Uma
das formas de abordar as relações e as diferenças entre
ambas é o trabalho de Sperber e Wilson (1995) sobre a Teoria
da Relevância, desenvolvendo uma aproximação entre essas
duas abordagens, que não podem ser reduzidas uma à outra.
A
idéia fundamental desta teoria, como enfatiza Silveira
(2002), está no conceito de Relevância, de base cognitiva,
numa perspectiva graduada e comparativa, que estabelece uma
relação de equilíbrio entre o custo mental despendido e os
efeitos contextuais alcançados ao ser processada uma informação.
Tal conceito é construído a partir de uma propriedade básica
da cognição humana: a de que normalmente prestamos atenção
apenas aos fenômenos ou estímulos que nos parecem
relevantes, buscando a Relevância máxima de uma informação,
ou seja, maiores efeitos com o menor esforço justificável.
Essa
característica, inerente à compreensão verbal e não-verbal,
é chamada por Sperber e Wilson de princípio cognitivo, ao
qual integra-se o princípio comunicativo da Relevância:
“Todo ato de comunicação ostensiva carrega consigo a
presunção de sua Relevância ótima” (1995, p. 158). Em
outras palavras, numa visão de comunicação genuína e
intencional, o estímulo ostensivo deve ser relevante o
suficiente para atrair a atenção do ouvinte, focalizá-la na
intenção do comunicador e revelar essa intenção,
desencadeando um processo inferencial no destinatário.
A
teoria dos autores fundamenta-se, assim, em duas propriedades
indissociáveis: ostensão, por parte do comunicador
(autor/falante) e inferência, por parte do receptor
(leitor/ouvinte). A ostensão é o estímulo (enunciados lingüísticos
ou estímulos sensório-perceptuais) utilizado para chamar a
atenção, a fim de que se desenvolva no receptor um processo
inferencial para a compreensão.
Para
chegar à informação pretendida, é necessário selecionar
um contexto – num nível de representações mentais que se
tornam disponíveis durante o processo interpretativo –
capaz de equilibrar o melhor possível o esforço mental em
relação ao efeito a ser obtido. Desse modo, a interpretação
será consistente com o princípio de Relevância e esse critério
garante a interpretação adequada de um estímulo, seja ele
de natureza sensório-perceptual ou lingüística.
Nessa
teoria, então, é de fundamental importância o papel do
contexto, entendido como um conjunto de suposições (informações)
que vêm à mente do indivíduo no processamento inferencial
da informação. Tais suposições podem advir do ambiente físico,
observável, através do código lingüístico ou de estímulos
perceptuais, da memória enciclopédica, que armazena as
nossas crenças e conhecimentos, e de raciocínios dedutivos.
Para
Sperber e Wilson (1995), a compreensão no processo
comunicativo inferencial implica um raciocínio lógico para
derivar conclusões. Segundo os autores, as inferências
espontâneas realizadas na comunicação diária, nas quais a
dedução é um processo-chave, são caracterizadas como não-demonstrativas,
sistemas globais de pensamento, em que há livre acesso à
informação conceitualmente representada na memória.
Constituindo processos cognitivos que combinam informação
advinda dos sistemas de input com informação armazenada na
memória para derivar conclusões, através da formação e
confirmação de hipóteses, essas inferências seguem um cálculo
lógico não-trivial, que não pressupõe premissas fixadas
para derivar conclusões válidas. Tais conclusões não podem
ser provadas, apenas confirmadas pela força das premissas,
originada de várias fontes: percepção (através da visão,
audição, tato, olfato, paladar), decodificação lingüística,
suposições factuais e esquemas de suposições armazenados
na memória e dedução.
De
acordo com Silveira e Feltes (2002, p. 14), nessa abordagem,
o
cálculo inferencial não-demonstrativo difere das inferências
demonstrativas, que sofrem restrições lógicas, sob um
formalismo rigoroso, e que são julgadas como válidas ou
inválidas. A presente proposta caracteriza-se exatamente
pela tentativa de fornecer uma descrição
explanatoriamente justificada da comunicação humana, sem
submeter-se às limitações da lógica padrão no
tratamento de fenômenos da linguagem natural.
Desse
modo, no mecanismo dedutivo humano apresentado por Sperber e
Wilson,5 as regras (essencialmente de eliminação),
ligadas a conceitos, interpretam e analisam o conteúdo das
premissas. Em tais raciocínios, as suposições factuais são
interpretadas no contexto específico em que se inscrevem,
levando a conclusões válidas, através de julgamentos
intuitivos, qualitativos e comparativos.
As
implicações não-triviais derivadas do mecanismo dedutivo
nessa abordagem computacional da comunicação são chamadas
de efeitos contextuais, alcançados quando uma informação
nova (derivada de sistemas de input) é processada no contexto
das informações velhas, armazenadas na memória do
ouvinte/leitor, resultando numa suposição relevante se
alterar as suas crenças anteriores, o seu conhecimento de
mundo Há três tipos de efeitos contextuais, sempre
considerados numa relação de equilíbrio com o esforço
mental para alcançá-los: implicação contextual, derivando
uma nova suposição; fortalecimento, que amplia ou fortalece
uma suposição factual existente; e contradição, que
elimina a mais fraca entre duas suposições contraditórias.
É
nessa perspectiva teórica que passamos a explicar, em linhas
gerais, como a imagem comunica, oferecendo algumas evidências
do potencial explanatório, psicologicamente plausível, da
proposta de Sperber e Wilson.
4
Analisando a imagem
Tomando,
então, por base a Teoria da Relevância, apresentaremos um
exemplo de texto constituído por imagens, a fim de
ilustrarmos como se processa a compreensão inferencial a
partir do estímulo visual. O objetivo é mostrar que o
significado para a compreensão é construído essencialmente
através de pistas contextuais nas quais a imagem é
processada.
O
exemplo que segue é uma charge publicada no jornal Gazeta do
Povo (PR), em 12 de abril de 2004, da autoria de Paixão.
Trata-se de uma peça comunicativa que geralmente apresenta um
fato cotidiano com pinceladas de humor ou ironia e forte
dependência de informações, inseridas num contexto marcado
preferencialmente pela atualidade.
Ao
observarmos a charge, percebemos os estímulos ou inputs
visuais:
-
a caricatura do presidente brasileiro Lula;
-
a figura de uma tartaruga na frente do presidente;
-
uma coleira no pescoço da tartaruga;
-
Lula, com uma mão no bolso, segura a coleira com a
outra, e seus pés estão em movimento, ou seja, ele está
caminhando;
-
os pés da tartaruga também estão em posição de
movimento.
Se
analisássemos, do ponto de vista da semiótica peirceana, a
imagem enquanto código visual, teríamos a caricatura do
presidente e o desenho da tartaruga como ícones,
representando por semelhança o Lula e o animal, e poderíamos
destacar como índices: os pés do presidente, numa posição
que indica ele estar caminhando, o mesmo ocorrendo com a
tartaruga; a coleira na mão do presidente pode ser índice de
que ele está segurando a tartaruga para esta não escapar; a
postura de Lula, com a mão no bolso, pode indicar descontração,
despreocupação; e também o fato de a tartaruga estar na
frente seria um índice de que ela está caminhando mais rápido
que o presidente. Além disso, é possível identificar em
Lula, como presidente do Brasil, o símbolo de maior
autoridade nacional.
Entenderíamos,
então, que o presidente está passeando com uma tartaruga,
levando-a pela coleira, e que o chargista criou as imagens
numa analogia com um cachorro quando passeia com seu dono; por
outro lado, poderíamos ter uma comparação entre o ritmo da
caminhada de Lula e o da tartaruga.
No
entanto, a charge, compreendida desse modo, não estaria
apresentando a sua característica básica, uma crítica, por
tratar-se de um texto de opinião que sintetiza um momento da
realidade na qual se inscreve Além disso, essa característica
a torna intrinsecamente interpretativa, indo além da imagem,
visto que há uma intenção informativa do autor a ser
reconhecida como um ato de comunicação. Infere-se, portanto,
a partir das imagens, que o comunicador está pretendendo
apontar alguma crítica ao desempenho do governo brasileiro.
Em
termos de Relevância, numa complementaridade de código
visual e inferências, a partir dos inputs visuais que compõem
a charge, podem ser acionadas informações da nossa memória
enciclopédica, entre elas:
1)
O presidente tem sido criticado por não estar fazendo o
que prometeu ao povo brasileiro.
2)
A tartaruga representa um animal que se caracteriza pela
lentidão ao se locomover.
3)
Cachorros costumam estar presos na coleira para não
fugirem do dono enquanto passeiam.
4)
A tartaruga na frente do presidente significa que está
andando mais rápido do que ele.
5)
O desempenho de Lula tem sido caracterizado pela
morosidade nas ações governamentais.
Percebe-se
que essas informações, possíveis de estarem armazenadas na
memória dos brasileiros, no contexto atual, não foram
explicitadas lingüisticamente, mas resgatadas, de modo implícito,
do conhecimento de mundo. E tornam-se relevantes, já que são
efeitos contextuais comunicativos e cognitivos alcançados com
o menor esforço de processamento justificável em vista da
acessibilidade das informações que formam o ambiente
cognitivo do povo brasileiro.
Combinando-se
as informações novas (visuais) com o contexto de informações
mentais, ativado pelas imagens da charge, podemos concluir
que:
6)
Se a tartaruga, um animal muito lento para caminhar, está
na frente do presidente, então está andando mais rápido
que ele.
7)
Se a tartaruga está andando mais rápido que o
presidente, então ele praticamente não está se mexendo.
8)
Se o presidente praticamente não está se mexendo, então
as suas ações governamentais estão “paradas”.
A
construção deste raciocínio inferencial pode ser explicada
como segue: (i) uma informação nova – imagens da charge, (ii)
processada no conjunto de suposições que constituem o
contexto de informações velhas dos indivíduos – advindas
do contexto sócio-político brasileiro, (iii) leva à implicação
contextual (conclusão):
9)
O presidente Lula não está tendo um desempenho satisfatório
em suas ações governamentais, pois não está fazendo o
que prometeu ao povo brasileiro.
Sem
as informações contextuais sobre o cenário político-governamental,
esse raciocínio não seria construído e a charge não
passaria a mensagem pretendida, o que também confirma o
argumento de Sperber e Wilson de que o ouvinte usa suas crenças,
suposições factuais e esquemas de suposições na interpretação
de informações.
Ressalta-se
então que, indo além do estímulo visual, as informações
contextuais disponíveis aos leitores são necessárias para a
compreensão adequada do que o chargista propõe. Ou seja, as
informações devem ser contextualizadas como premissas de um
raciocínio interpretativo para que se atinja um processo de
comunicação bem sucedida.
Assim
sendo, e enfatizando-se o papel do contexto como um fato
objetivo no enriquecimento inferencial da imagem, as suposições
contextuais (1-5), somadas aos inputs visuais criados pelo
chargista, transformaram-se em premissas (6-8) e derivaram (9)
num cálculo não-trivial. Nesse raciocínio, evidencia-se,
portanto, que os processos inferenciais centrais integram
informação dos sistemas de input, neste caso visuais, com
informação armazenada na memória para derivar conclusões.
5
Considerações finais
A
breve aplicação da Teoria da Relevância às inferências
possíveis de serem construídas a partir da charge aqui
apresentada, mais especificamente de suas imagens, parece
evidenciar a plausibilidade e validade dos mecanismos
inferenciais humanos propostos por Sperber e Wilson (1995)
para tratar do processamento da informação na comunicação
espontânea e intencional. Entretanto, conforme salientamos, a
análise realizada não se pretendeu completa ou sistemática,
sobretudo porque outras interpretações seriam possíveis a
partir das habilidades perceptuais e do conhecimento de mundo
dos indivíduos, como propõe a teoria.
O
objetivo foi mostrar percursos cognitivos plausíveis que
elucidam a construção do contexto e do raciocínio
inferencial para a compreensão, em contraponto à análise
semiótica, que, centrada na imagem, restringe-se à
identificação de ícones, índices e símbolo como signos
comunicativos. Nesse sentido, pode-se observar que sem o
contexto cognitivo das informações armazenadas na memória
enciclopédica, no qual os apelos visuais da charge foram
processados, não seria possível a construção de premissas
e conclusões implicadas que levaram à sua interpretação.
No
modelo teórico de Sperber e Wilson, então, as noções de
contexto, sob o ponto de vista psicológico, de efeitos
cognitivos e de esforço de processamento contribuem
fortemente para explicar a compreensão dos indivíduos, a
partir de estímulos lingüísticos ou sensório-perceptuais.
Os
autores destacam particularmente, entre as várias fontes de
força das suposições factuais, a dedução como um ponto
crucial em inferências não-demonstrativas e não-triviais na
formação das hipóteses interpretativas, confirmadas por
operações não-lógicas através das evidências disponíveis.
Como ressalta Silveira (1998), isso demonstra a posição não-reducionista
dos autores, tanto no que se refere à integração de
sistemas formais – precisos e explícitos – com os
sistemas cognitivos da psicologia humana para tratar de raciocínios
espontâneos, quanto no que diz respeito à visão
complementar de código e inferência, focalizando o primeiro
como um input para desencadear os processos inferenciais
indissociáveis do fenômeno comunicacional genuíno.
Em
tais inferências, os princípios de Relevância, de base
cognitiva e comunicativa, governam o comportamento ostensivo e
intencional do comunicador, possibilitando a compreensão do
receptor ao operarem na seleção das suposições e do
contexto, através da presunção de Relevância ótima, que
implica a relação custo mental-benefício cognitivo, de modo
equilibrado, nas suposições processadas.
Considerando,
então, o papel fundamental do contexto em nossa análise,
apresentamos, à luz da Relevância, um texto que comunica
através de imagens, mas cuja interpretação, indo além dos
inputs visuais, é construída por meio de inferências lógico-cognitivas.
Desse
modo, é possível dizer que modelos fundamentados em código,
como as abordagens semióticas, têm-se mostrado insuficientes
do ponto de vista explanatório, já que uma habilidade
cognitivo-interpretativa, não contemplada por esses modelos,
passa a ser requerida para explicar a compreensão e, conseqüentemente,
a comunicação que vai além do que é decodificado. É reforçada,
assim, a idéia de que a interpretação de um texto (nesse
artigo constituído por imagens caricaturadas) é altamente
dependente do contexto, no sentido de que este intervém para
recuperar adequadamente, através de processos inferenciais, a
intenção pretendida pelo autor.
Referências
AUSTIN, J. L. How
to do things with words. Oxford: Clarendon, 1962.
CARNAP, R. Logical
foundations of probability. London: Routledge and Kegan
Paul, 1938.
CONTRERA,
Malena Segura; HATTORI, Osvaldo Takaoki. Publicidade
e Cia. São Paulo: Thompson, 2003.
ECO,
U. Semiótica e
filosofia da linguagem. São Paulo: Ática, 1991.
GRICE,H.P. Meaning. Philosophical
Review, n. 66, p.377-388, 1957. [Reimpr. In: STEINBERG,
D.; JAKOBOVITS, L. (Eds.). Semantics:
an interdisciplinary reader. Cambridge: Cambridge University
Press, 1971.]
______. Logic and Conversation. In: COLE;
MORGAN (Eds.). Sintax
and Semantics. New York: Academic Press, 1975. V. 3:
Speech Acts
JOLY, Martine. Introdução à analise da
imagem.
6. ed. Campinas: Papirus, 1996.
MORRIS, C. W. Writings
on the general theory of signs. The Hague: Mouton, 1971.
PEIRCE, Charles S. Collected
Papers. Cambridge, Mass.: Harvard University Press,
1931-58.
SANTAELLA,
Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.
______.
A teoria geral dos
signos: como as linguagens significam as coisas. 2. ed. São
Paulo: Pioneira, 2000.
SEARLE, John R. Speech
Acts. Cambridge: Cambridge University Press, 1969.
SILVEIRA,
Jane R. Caetano. Relevância e inferência na novela
brasileira. In: 5th International Congress of
the International Society of Applied Psycolinguistics,
Porto, Portugal, 1998.
______.
Teoria da Relevância: uma resposta à comunicação
inferencial humana. In: IBAÑOS, Ana Maria; ______ (Orgs.). Na
interface semântica/pragmática: programa de pesquisa em
lógica e linguagem natural. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.
______;
FELTES, Heloísa. Pragmática e cognição: A textualidade pela relevância. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2002.
SPERBER, D.; WILSON, D. Relevance:
communication & cognition. 2nd ed. Cambridge,
Mass.: Harvard University Press, 1995.
______. Pragmatics and Modularity. In: DAVIS
(Ed.). Pragmatics – a reader. New York: Oxford University Press, 1991.
Recebido
em 05/09/04. Aprovado em 30/11/04.
|
Resumos: |
|
Title:
The
image: interpretation and communication
Author:
Jane Rita Caetano da Silveira
Abstract:
The
purpose of the present article is to present some
explanatory evidence of Sperber and Wilson’s (1995)
Relevance theory in the interpretative/communicative
treatment of the image in counterpoint with semiotic
studies based on Pierce (1938-1951), specifically in the
semantic relation established between the sign and its
object. In the illustrative analysis of a cartoon,
according to Relevance, one emphasizes the fundamental
significance of the cognitive context in the construction
of inferential processes for understanding, while
foregrounding the fact that interpretation, beyond the
visual image, requires cognitive and perceptive
capabilities that are not considered at the explanatory
level of the semiotic theory, essentially based on the
code.
Keywords:
human
communication; cognition; inferencial processes; visual
image; semiotics.
|
|
Tìtre:
L’image:
interprétation et communication
Auteur:
Jane Rita Caetano da Silveira
Résumé:
L’objectif
de cet article est celui de présenter quelques évidences
descriptives de la Théorie de la Pertinence de Sperber et
Wilson (1995), concernant le traitement interprétatif/communicatif
de l’image, en oposition aux études sémiotiques
fondés chez Peirce (1938-1951), surtout dans la relation
sémantique établie entre le signe et son objet. Dans
l’analyse illustrée d’une caricature, par la
Pertinence, on donne de l’emphase à l’importance
fondamentale du contexte cognitif dans la construction des
procès d’inférence pour la compréhension, remarquant
que l’interprétation, allant au-delà de l’image
visuelle, réclame des habilités cognitives et
perceptives, pas contemplées au niveau explicatif de la
théorie sémiotique, fondée en code dans son essence.
Mots-clés:
communication
humaine; cognition; procès d’inférence; image visuelle;
sémiotique.
|
|
Título:
La
imagen: interpretación y comunicación
Autor:
Jane Rita Caetano da Silveira
Resumen:
El propósito de este
artículo es presentar algunas evidencias explicativas de
la Teoría de la Relevancia de Sperber y Wilson (1995), en
el tratamiento interpretativo / comunicativo de la imagen,
en contrapunto a estudios semióticos fundamentados en
Peirce (1938-1951), específicamente en la relación
semántica establecida entre el signo y su objeto. En el
análisis ilustrativo de una “charge” {chiste con
representación pictórica y de carácter satírico}, por
la Relevancia, se enfatiza la importancia fundamental del
contexto cognoscitivo en la construcción de procesos de
inferencias para la comprensión, subrayándose que la
interpretación, si va más allá de la imagen visual,
requiere habilidades cognoscitivas y perceptibles, no
observadas en el ámbito explicativo de la teoría
semiótica, esencialmente fundada en el código.
Palabras-clave:
comunicación humana;
cognición; procesos de inferencias; imágenes visuales;
semiótica.
|
Notas:
Em 'Meaning', Grice (1957)
estabelece a distinção entre significado do falante, através
da concretização da sentença num contexto real, no domínio
da pragmática, e significado da sentença, que é uma
unidade teórica abstrata, pertencendo ao domínio da semântica.
Austin (1962) introduziu na filosofia da linguagem a teoria
dos atos de fala, onde reconhece a dimensão social ou
interpessoal da linguagem nos atos de fazer promessas, fazer
perguntas e dar ordens. A teoria dos atos de fala de Searle
(1969) propõe que o uso da linguagem deveria especificar
que tipos de atos podem ser realizados pelos falantes.
Nessa análise ilustrativa, o contexto é construído de
forma hipotetizada, de modo que, naturalmente, outras extensões
(informações) contextuais seriam possíveis. Por outro
lado, pode ocorrer o fato bastante comum de o leitor não
alcançar a implicatura pretendida pelo chargista, o que não
é problemático para o modelo, pois ele dá conta de
explicar por que e como o processo comunicacional pode ser
mal sucedido, já que a interpretação está vinculada aos
diferentes conhecimentos de mundo dos indivíduos e às suas
habilidades cognitivas.
 |
|
|
Copyright PPGCL/Unisul 2006 © (48) 3621-3369 -
Desenvolvimento: Prof. Dr. Fábio José Rauen |