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Revista Linguagem em
(Dis)curso, volume 6, número 3, set./dez. 2006 |
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As relações oral/escrita nos gêneros
orais formais e públicos: o caso da conferência acadêmica
Roxane Rojo
Bernard Schneuwly
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Resumo: A questão das
relações de continuidade e de mútua constitutividade entre a linguagem
oral e a escrita é da maior relevância para a compreensão do
funcionamento dos gêneros orais formais e públicos e dos gêneros de
texto escrito em nossas sociedades letradas, assim como dos fenômenos
dos letramentos e do ensino-aprendizagem de línguas nas escolas. Neste
artigo, pretendemos fazer um exercício de análise de um gênero oral
formal e público – a conferência acadêmica – em termos das relações
entre oral-escrita, oral-oral e escrita-escrita na constituição da
conferência e em sua “retextualização” (MARCUSCHI, 2001a) como
transcrição. Serão tomados como dados os múltiplos textos orais e
escritos em jogo numa conferência proferida por Bernard Schneuwly. Ao
final, defender-se-á a posição de que oralidade e escrita mantêm uma
relação complexa de mútuo efeito e interferência nos gêneros orais
formais públicos, que pode ser melhor compreendida em termos de “sistema
de atividades” que colocam em circulação e em relação “sistemas de
gêneros” (BAZERMAN, 2005a, 2005b), entendidos no sentido bakhtiniano do
termo. |
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Palavras-chave: gênero
discursivo; oralidade; escrita; conferência acadêmica; ensino. |
1 Introdução
Não existe ‘o oral’, mas ‘os
orais’ sob múltiplas formas, que, por outro lado, entram em relação com
os escritos, de maneiras muito diversas: podem se aproximar da escrita e
mesmo dela depender – como é o caso da exposição oral ou, ainda mais, do
teatro e da leitura para os outros –, como também podem estar mais
distanciados – como nos debates ou, é claro, na conversação cotidiana.
Não existe uma essência mítica do oral que permitiria fundar sua
didática, mas práticas de linguagem muito diferenciadas, que se dão,
prioritariamente, pelo uso da palavra (falada), mas também por meio da
escrita, e são essas práticas que podem se tornar objetos de um trabalho
escolar. (SCHNEUWLY, 2004, p. 135)
Muito se tem discutido, nos anos
recentes, sobre as relações que se estabelecem entre as modalidades oral e
escrita no uso da língua.
As décadas de 70 e 80 testemunharam uma abordagem dicotômica dos dois fenômenos,
que buscava e, por vezes, mistificava, semelhanças e diferenças de um oral tido
como puro e de uma escrita tão transparente e pura quanto.
O quadro 1, montado a partir das
discussões presentes em Marcuschi (2001a, p. 27-31), mostra as qualidades tidas
como privativas de uma ou de outra modalidade, nos anos 80:
|
Cultura oral |
versus |
Cultura letrada |
|
pensamento concreto
raciocínio prático
atividade artesanal
cultivo da tradição
ritualismo… |
|
pensamento abstrato
raciocínio lógico
atividade tecnológica
inovação constante
analiticidade… |
|
Formas sociais orais |
versus |
Formas sociais escriturais |
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esquemas práticos
saber fazer
competências culturais difusas
despossessão… |
|
conjunto de saberes objetivados
coerentes
sistematizados
poder de mando e de dizer… |
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Fala |
versus |
Escrita |
|
contextualizada
dependente
implícita
redundante
não-planejada
imprecisa
não-normatizada
fragmentária… |
|
descontextualizada
autônoma
explícita
condensada
planejada
precisa
normatizada
completa… |
Quadro 1 – A perspectiva
dicotômica das modalidades e de seu contexto de uso.
Ou seja, via-se a fala como
desorganizada, variável, heterogênea e a escrita como lógica, racional, estável,
homogênea; a fala seria não-planejada e a escrita, planejada e permanente; a
fala seria o espaço do erro e a escrita, o da regra e da norma, enquanto a
escrita serviria para comunicar à distância no tempo e no espaço; a fala somente
aconteceria face a face; a escrita se inscreveria, a fala seria fugaz; a fala é
expressão unicamente sonora; a escrita, unicamente gráfica.
Estas semelhanças e diferenças
levantadas também teriam origem ou decorrência para as culturas e os contextos
de uso da linguagem oral ou escrita e, logo, para os letramentos: a escrita
levaria, por si só, a estágios mais complexos e desenvolvidos de cultura e de
organização cognitiva e daria acesso por si mesma ao poder e à mobilidade
social.
2 Relações entre linguagem oral e linguagem escrita – um debate em aberto
Em muito devido às mudanças
históricas decorrentes das novas tecnologias eletrônicas e digitais da
comunicação e da informação, que colocaram em causa, com suas mídias, muitas
dessas constatações – como a situação face-a-face da fala e a distância da
escrita; a fugacidade da fala e a preservação do escrito etc. –, da década de 90
em diante, começou-se a pensar relações menos simplistas e dogmáticas entre a
fala e a escrita nas sociedades complexas e letradas. Duas posições ganharam
relevo nestas discussões mais recentes:
a) a existência de um contínuo ou
gradação entre fala/escrita (lingüística textual, análise conversacional,
teorias de gêneros textuais); e
b) a existência de relações complexas
de constitutividade mútua entre fala e escrita em contextos específicos de uso
(teorias da enunciação e do discurso).
No Brasil, o proponente e articulador
principal da visão do contínuo é Marcuschi (2001a; 2001b, dentre outros). Antes
dele, já Kato (1986) apresentava uma visão de continuidade entre as construções
de fala e escrita na criança em desenvolvimento:

Figura 1 – Relações de
continuidade fala/escrita na criança.
Ou seja, a criança desenvolveria uma
fala inicial sem contato com a escrita (F1). Quando de seus contatos
iniciais com a escrita (E1), sua fala seria modificada por efeitos de
letramento (F2… Fn), assim como sua escrita (E2…En)
também sofreria impactos desses processos.
Marcuschi (2001a, 2001b) apresenta
visão mais sofisticada destas relações de continuidade, fundada nos gêneros
textuais. Para ele, “as diferenças entre fala e escrita se dão dentro
do continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na
relação dicotômica de dois pólos opostos. Em conseqüência, temos a ver com
correlações em vários planos, surgindo daí um conjunto de variações
e não uma simples variação linear” (MARCUSCHI, 2001a, p. 37, destaque
do autor).

Figura 2 – Relações de
continuidade fala/escrita em relação a gêneros textuais (MARCUSCHI,
2001a, p. 38).
Os critérios principais de
distribuição dos gêneros pelo contínuo seriam o “meio de produção” (sonoro ou
gráfico) e a “concepção discursiva” (oral ou escrita). Assim teríamos, por
exemplo, a seguinte distribuição de gêneros textuais:
|
Gênero textual |
Meio de produção |
Concepção discursiva |
Domínio |
|
|
Sonoro |
Gráfico |
Oral |
Escrita |
|
|
Conversação espontânea |
X |
|
X |
|
a |
|
Artigo científico |
|
X |
|
X |
d |
|
Notícia de TV |
X |
|
|
X |
c |
|
Entrevista publicada na Veja |
|
X |
X |
|
b |
Quadro 2 – Distribuição de
quatro gêneros textuais de acordo com o meio de produção e a concepção
discursiva (MARCUSCHI, 2001a, p. 40).
Embora a concepção brevemente exposta
acima apresente uma versão bastante mais sofisticada das relações em oral e
escrita nos usos sociais da língua, esta ainda guarda um pendor tipológico e
taxonomizante, e relações de semelhança e diferença – enquanto múltiplas
variáveis – operam no interior do contínuo.
De outra natureza é a concepção de
relações entre usos orais e escritos da língua explicitada na epígrafe deste
texto. Esta perspectiva é adotada por Corrêa (2001), Rojo (2001), Schneuwly
(2004, 2005) e Signorini (2001b), dentre outros. Rojo (2001, p. 51-52) inicia
seu texto distinguindo, com Barthes, “o escrito” – o que, na escrita, refere-se
ao traço, à grafia
– e “a escrita”, “a que produz textos” (BARTHES, 1981, p. 12). Ao longo
do texto, a autora sustenta que a dicotomia entre modalidades pode somente dizer
respeito ao “escrito”, pois, na “escrita”, reinam soberanos, sobre as relações
complexas entre modalidades, o gênero discursivo e o contexto ou situação
específicos de produção do texto numa dada esfera social.
Já Signorini (2001b, p. 99-101)
aponta para os “hibridismos da escrita”, que se verificam “no/pelo imbricamento,
conjunção, ou ‘mixagem’ – para usar um termo de Street (1984) –, não só
de formas percebidas como próprias das modalidades oral e escrita, como também
de códigos gráfico-visuais, gêneros discursivos e modelos textuais”. Em
direção semelhante caminha a noção de “heterogeneidade da escrita” de Corrêa
(2001, p. 142-156), quando insiste na existência de um
[...] trânsito entre as
práticas sociais do campo das práticas orais e do campo das práticas
letradas, como modo de justificar a presença de fatos lingüísticos da
enunciação falada (gêneros, recursos fônicos, morfossintáticos, lexicais
e pragmáticos) na enunciação escrita. Segundo o que penso, é sempre o
produto do trânsito entre práticas sociais orais/faladas e
letradas/escritas que nos chega como material de análise do modo de
enunciação falado e do modo de enunciação escrito, ambos – como se sabe
– manifestações de uma única e mesma língua.
Schneuwly (2005, s. p.), durante sua
conferência analisada no presente artigo, enfoca a questão agora do ponto de
vista dos usos da língua e da linguagem na esfera escolar. Diz o autor:
[...] A relação entre gêneros
orais e gêneros escritos não é uma relação de dicotomia. É antes uma
relação de continuidade e de efeito mútuo, isto é, gêneros orais podem
sustentar gêneros escritos; gêneros escritos podem sustentar gêneros
orais. Eles estão em mútua interdependência, cada gênero oral que entra
na escola, em geral, pressupõe a escrita, assim como cada gênero escrito
trabalhado na escola pressupõe o oral. Então, de uma certa maneira, esta
é uma distinção relativamente artificial, pois há um entrelaçamento
contínuo. Além disso, cada gênero oral é sempre também sustentado por um
outro gênero oral, isto é, há sempre um gênero oral e um gênero oral
sobre o gênero oral, um discurso sobre. Cada gênero é sempre também
objeto de outros gêneros de alguma maneira. E então há sempre o falar
para escrever, o escrever para falar, o escrever para escrever e o falar
para falar, o que mostra que sempre um gênero é dependente de outros
gêneros, o que é um fenômeno evidente de intertextualidade, mas que está
sempre na base de nosso trabalho.
Esta é, pois, questão da maior
relevância para a compreensão do funcionamento dos gêneros orais formais e
públicos e dos gêneros de texto escritos em nossas sociedades letradas, assim
como dos fenômenos dos letramentos e do ensino-aprendizagem de línguas nas
escolas.
Por isso, neste texto, pretendemos
fazer um exercício de análise de um gênero oral formal e público – a conferência
acadêmica – em termos das relações complexas e de mútuo efeito entre
oral-escrita, oral-oral e escrita-escrita
na constituição da conferência e em sua “retextualização” (MARCUSCHI, 2001a)
como transcrição. Serão tomados como dados os múltiplos textos orais e escritos
em jogo
numa conferência proferida por Bernard Schneuwly, em outubro de 2005.
Eventualmente, será também levada em conta a tradução (quase) simultânea feita
durante a conferência. Ao final, defender-se-á a posição de que oralidade e
escrita mantêm uma relação complexa de mútuo efeito e interferência nos gêneros
orais formais públicos, que pode ser melhor compreendida em termos de sistema
de atividades que colocam em circulação e em relação sistemas de gêneros
(BAZERMAN, 2005a, 2005b), entendidos no sentido bakhtiniano do termo.
3 Retextualização – um conceito-chave
Marcuschi (2001a, p. 46) também
elabora o conceito de “retextualização”, entendida como “um processo que envolve
operações complexas [de passagem do texto falado para o escrito e vice-versa]
que interferem tanto no código como no sentido e evidenciam uma série de
aspectos nem sempre bem-compreendidos da relação oralidade-escrita.”
Na verdade, o autor distingue entre
“transcrição” (REY-DEBOVE, 1996) e “retextualização”. Na
“transcrição” ou “transcodificação” está envolvido o que costumamos
chamar de “o escrito”,
isto é, a materialidade fônica da fala e gráfica da escrita, por meio de
“procedimentos convencionalizados”. Neste nível, não há introdução de
transformações no texto produzido, apenas alteração na materialidade
(fônica-gráfica). No entanto, mesmo neste primeiro nível de operações
relativamente simples, já há uma neutralização do texto oral original:
eliminam-se hesitações, incorreções, reformulações, marcadores conversacionais,
repetições e truncamentos; introduz-se a pontuação. Há o que Marcuschi (2001a,
p. 52) denomina uma espécie de “idealização da língua pelo molde da escrita”.
Já na “retextualização” (MARCUSCHI,
2001a), entra em jogo o que costumamos denominar “a escrita”, isto é
interfere-se tanto na materialidade como na forma e no conteúdo do texto, na
passagem de um texto a outro. Refaz-se o textos mudando sua formatação
lingüística, por meio de uma série de operações que Marcuschi (2001a, p. 69)
sintetiza no quadro 3.

Quadro 3 – Aspectos
envolvidos nos processos de retextualização.
Em seu livro, o autor detalha e
exemplifica com abundância os processos envolvidos nestas operações e faremos
recurso aos conceitos e descrições do autor, na medida em que for necessário na
análise de nossos dados.
4 A conferência acadêmica – uma fala encadeada a uma escrita (ou muitas)
A conferência acadêmica é um gênero
oral formal e público que apresenta complexas relações entre textos orais e
escritos em sua elaboração e apresentação. Embora haja, em certos domínios de
estudo e pesquisa, muitos conferencistas que redijam um texto que será lido em
público,
em nossa área, é mais comum o procedimento de se elaborar inicialmente um resumo
e depois um arquivo num editor de apresentações (um “power point”, como
se diz comumente),
com slides contendo esquemas; enumerações; definições ou citações;
quadros, tabelas e gráficos; ilustrações e imagens, animados ou não. Sobre esses
dois escritos
e em relação com eles, articula-se a fala do conferencista, que, depois, pode
vir a ser transcrita (ou transcodificada) e, por vezes, editada ou
retextualizada para a elaboração de um artigo acadêmico para publicação.
É esse gênero discursivo que
estaremos analisando neste artigo, visando explorar as relações entre oralidade
e escrita nesta situação de comunicação. Mais exatamente, trata-se da
conferência intitulada Gêneros orais e escritos na escola,
proferida pelo professor Bernard Schneuwly
a um público de professores universitários e alunos de graduação e pós-graduação
das áreas de Lingüística, Lingüística Aplicada e Educação, na UNICAMP, em
20/10/2005. A conferência foi proferida com tradução quase-simultânea, feita
pela mesma pessoa que depois elaborou a transcrição da conferência.
Seguiram-se à conferência 45 minutos de debates.
Para a elaboração da conferência foi
dado ao professor apenas o título e não uma ementa de conteúdo ou um resumo. Mas
tratava-se do mesmo título de livro de sua autoria (com sua equipe de pesquisa),
traduzido e publicado no Brasil em 2004. Portanto, ficava claro que se esperava
uma síntese do trabalho do professor (e sua equipe) nos últimos 10 anos, sobre a
questão dos gêneros de texto na escola. Para a conferência, o professor elaborou
um power point, que será analisado juntamente com sua fala. O professor
também gravou sua fala (e as traduções e discussões) diretamente no computador,
por meio da ferramenta Audacity.app, gerando um arquivo de som (.wav)
para transcrição.
Goffman (1981, p. 176) chama a
atenção para a existência, nas conferências, de parênteses (brackets),
muitas vezes acompanhados de rituais,
e qualifica a “abertura” e “fechamento” da conferência como “parênteses que
ocorrem na interface entre espetáculo e jogo, neste caso, a situação e a
conferência propriamente dita”.
O texto oral do gênero conferência
acadêmica é, pois, aberto por um ritual inicial de apresentação do conferencista
convidado e de seu(s) tema(s), apresentação das regras da conferência relativas
a tempo e interação e de agradecimentos mútuos pelo convite e pela aceitação do
convite:
Mod.: Vamos abrir a conferência do Prof.
Bernard Schneuwly que está numa breve visita aqui e à Católica […] Esta
primeira conferência de hoje é uma conferência ligada ao trabalho dele
dos últimos […] dez anos, sobre o ensino de gêneros, primeiro escritos,
não é?, na primeira fase, eles trabalharam, com foco especial na
produção, e, em seguida, gêneros orais na sala de aula, né?, e que teve
algum impacto nos nossos referenciais, né?, enquanto trabalho. Uma
síntese deste trabalho dos últimos dez anos está no livro que a gente
traduziu ãn… o ano passado, acabamos de traduzir o ano passado, da
Mercado de Letras, que chama… que tem o mesmo título da conferência, que
é Gêneros orais e escritos na escola. O professor/ Nós temos ãn… até
meio dia para discussão e exposição […]/ vai falar uma hora uma hora e
pouquinho e aí a gente faz as discussões e… […] Professor Bernard
Schneuwly é da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da
Universidade de Genebra e trabalha com o ensino de francês língua
materna […] Eu passo a palavra então… Bernard…
Prof.: Merci. Ãn. C´est un
grand plaisir de venir ici vous parler d’un thème que me tient à coeur –
Roxanne l’a dit – sur lequel je travaille depuis des très très longues
années. Et donc…
Embora tenhamos escolhido fazer para
este artigo uma transcrição que Marcuschi (2001a) qualifica como uma
“idealização” da fala, isto é, já na forma do português padrão (“vamos” por
“vamo”, por exemplo), adotando a pontuação da escrita e eliminando maiores
digressões da fala, não procedemos a maiores re-organizações do texto, para
preservar, como exemplificação, já na fala inicial da moderadora, as
“descontinuidades” sintáticas da linguagem oral, por exemplo, no enunciado “o
trabalho dele dos últimos […] dez anos, sobre o ensino de gêneros, primeiro
escritos, não é?, na primeira fase, eles trabalharam, com foco especial na
produção, e, em seguida, gêneros orais na sala de aula, né?”. Além dos
fáticos (“Né?”, “Não é?”) e das hesitações (“ãn…”), os enunciados iniciais já apresentam
descontinuidades sintáticas (“gêneros, primeiro escritos, não é?, na primeira
fase, eles trabalharam, com foco especial na produção”), que, no texto escrito
ou transcrito, sofreriam re-organizações.
A partir deste momento, a fala do
conferencista passa a relacionar-se estreitamente e a constituir-se a partir do
texto escrito do editor de apresentações, como veremos logo mais. O power
point organizado pelo conferencista constava de 16 slides,
distribuídos conforme o quadro 4:
|
Nº |
Função |
Conteúdo |
Formato |
|
1 |
Título |
“Genres
oraux et genres écrits à l’école” (Gêneros orais e escritos na
escola) – Bernard Schneuwly – Université de Genève |
Slide
título |
|
2 |
Plano de fala |
Tópicos principais da conferência (6) |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
subtítulos |
|
3 |
Desenvolvimento dos tópicos 1 e 2 |
“Genres: rappel théorique”
Gêneros: apanhado teórico |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
citações resumidas |
|
4 |
Desenvolvimento do tópico 3 |
“L’école:
institution créatrice de genres – la forme scolaire”
A escola: instituição criadora de
gêneros – a forma escolar |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
itens |
|
Nº |
Função |
Conteúdo |
Formato |
|
5 |
Desenvolvimento do tópico 3 |
“La forme scolaire”
A forma escolar |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
itens |
|
6 |
Desenvolvimento do tópico 3 |
“La discipline scolaire”
A disciplina escolar |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
itens |
|
7-8 |
Desenvolvimento do tópico 4 |
“Les genres en ‘français’: le point de
vue de la transposition didactique”
Os gêneros em “francês”: o ponto de
vista da transposição didática |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
itens |
|
9 |
Desenvolvimento do tópico 4 |
“Les genres en ‘français’: le point de
vue de la transposition didactique”
Os gêneros em “francês”: o ponto de
vista da transposição didática |
Slide
tabela com dados de pesquisa a título
de exemplo |
|
10-11 |
Desenvolvimento do tópico 5 |
“Les genres en ‘français’: le point de
vue de l’ingénierie”
Os gêneros em “francês”: o ponto de
vista da engenharia |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
itens |
|
12 |
Desenvolvimento do tópico 5 |
“Les genres en ‘français’: le point de
vue de l’ingénierie”
Os gêneros em “francês”: o ponto de
vista da engenharia |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
definições |
|
13-14 |
Desenvolvimento do tópico 5 |
“Les genres en ‘français’: le point de
vue de l’ingénierie”
Os gêneros em “francês”: o ponto de
vista da engenharia |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
itens |
|
15 |
Desenvolvimento do tópico 6 |
“Les genres pour enseigner”
Os gêneros para ensinar |
Slide
lista com marcadores - enumeração de
itens |
|
16 |
(In) Conclusão – anuncia continuidade
na próxima conferência |
“Affaire à suivre…”
Próximos capítulos… |
Slide
título |
Quadro 4 – Slides do
editor de apresentações utilizado.
Mencionamos anteriormente que
consideramos este esquema de apresentação um texto num gênero presente na
conferência e não, simplesmente, uma ferramenta computacional. A própria
ferramenta computacional – o editor de apresentações – disponibiliza modelos (templates)
de formato (layout) e de conteúdo (content) que predizem alguns
temas e finalidades possíveis dos textos (encontro empresarial, apresentação de
relatório técnico, visão geral de projeto, motivação de uma equipe, recomendação
de uma estratégia etc.) e permitem escolher entre formatos pré-prontos (título,
tabela, gráfico, organograma, lista com marcadores, texto, imagem ou mídia com
ou sem texto etc.). Podemos dizer que as ferramentas do software prevêem
e predizem tanto a forma composicional como alguns dos temas e estilos possíveis
de textos no gênero, além de possibilitarem um conjunto amplo de animações (de
som e imagem).
Este gênero tem uma função
planejadora da fala formal pública (no trabalho, no espaço acadêmico) e exerce
controle e apoio à execução desta fala, assim como apóia também a compreensão da
platéia. O texto dos slides esquematiza a fala e o número de slides,
por sua vez, serve de controle do tempo de execução da fala.
Vejamos dois tipos de desenvolvimento
da fala em relação ao texto escrito dos slides. No primeiro exemplo, a
fala expande um pouco o texto do slide, apenas o suficiente para
qualificar o elenco de itens a serem desenvolvidos.
Exemplo 1:

Je vais, dans un premier
temps/ Donc, c’est un peu le plan que je vais suivre/ Je vais parler une
heure, une heure et quart, quelque chose de ce type-là/ faire quelques
brefs préliminaires; ensuite, vous parler très brièvement – parce que ça
vous connaissez – faire un petit rappell de la notion de genre, puisque
c’est “les genres écrits et oraux” et… évidemment, je ne peux pas ne pas
parler des genres, mais très brièvement. Ensuite, regarder l’école,
qu’est-ce/ l’école étant donné que c’est une institution sociale, il y a
une “sphere d’activité”, comme dirait Bakhtine; quel est le rapport
entre, de manière générale, l’école et les genres et je vais ici
introduire la notion de “forme scolaire” parce que, à mon avis, c’est
cette “forme scolaire”, qui est une forme sociale, […]
Donc, l’école, la forme scolaire, parce que c’est, pour moi, la forme
scolaire qui définit les genres qui sont à l’intérieur de l’école. Je
vais, ensuite, […] regarder les genres en français, dans la langue
maternelle “français”, et adopter, dans un premier point/ dans un
premier temps, le point de vue de la transposition didactique et ensuite
je vais revoir les genres en français, mais, cette fois-ci, adopter le
point de vue de l’ingénierie – vous verrez un petit peu qu’est-ce que ça
signifie tout-à-l’heure. C’est deux manières de regarder la même realité
de deux points de vue, précisement, quoi. Je vais
terminer sur les genres pour enseigner, et ceci fait le lien avec
la conférence de demain. Et donc, voilà. Ça sera ‘un affaire à
suivre’.
O texto do slide de abertura
da conferência, que tem por função apresentar um “organizador avançado”, uma
meta-enunciação do que será desenvolvido, realiza-se no formato de fala
planejadora (VYGOTSKY, 1934), exibindo uma lista com marcadores dos grandes
tópicos que serão abordados na conferência, em número de 6. Os tópicos são
apresentados como frases nominais, nominalizações e apostos.
A fala da conferência expande um
pouco, como dissemos, os tópicos desta lista, constituindo uma descrição das
ações discursivas que serão realizadas (“faire quelques brefs préliminaires”;
“ensuite, vous parler très brièvement”; “je vais, ensuite, regarder”; “je vais
terminer sur”). Além de organizar, na forma narrativa, a seqüência temporal dos
grandes temas da exposição, a fala inicial qualifica minimamente esses tópicos
para além das qualificações já apresentadas no slide:
- l’école
à
une institution sociale; une “sphere d’activité”, comme dirait Bakhtine;
- la forme scolaire
à
qui définit les genres qui sont à l’intérieur de l’école;
- genres pour enseigner
à
ceci fait le lien avec la conférence de demain.
Ao retextualizar a lista de tópicos
do slide, o orador, portanto, procede a “reformulações por acréscimo”
(MARCUSCHI, 2001a). Mas, ao fazê-lo, qualifica apenas minimamente os tópicos,
coisa que ocorre sempre que o orador passa rapidamente – a elocução é também
mais rápida – pelos itens de um slide, seja porque vai retomá-los um a um
para comentá-los, como é o caso deste slide, seja por questões de
controle do tempo. O índice, neste caso é prosódico: uma fala de ritmo mais
rápido e muitas vezes com entonação de leitura. Certos itens podem ser
reconhecidos como aspados (citados ou lidos), pela entonação – pequena pausa
antes de iniciar o sintagma em tom e pitch mais alto e forte –, como é o
caso, no exemplo 1, de “genres écrits et oraix”, “sphère d’activité” e de “forme
scolaire”.
|
“Genres écrits et oraux” |
 |
|
“sphère d’activité” |
 |
|
“forme scolaire”. |
 |
Quadro 5 – Imagens
espectográficas dos trechos falados.
Neste caso, o conferencista também
escolhe um estilo interativo com a platéia (“vous parler”, “vous connaissez”,
“vous verrez”) e marcado por um registro relativamente informal (“quelque chose
de ce type-là”, “un petit peu qu’est-ce que ça signifie tout-à-l’heure”, “quoi”,
“et donc”, “voilà”, “ça sera"), estabelecendo uma relação mais próxima e
distensa com a platéia. Para Bovet (1999, p. 70), “o público desempenha um papel
importante na organização discursiva da exposição. Exemplos de formulação recipient designed
lembram a dimensão interativa da exposição, a despeito de seu caráter
monológico”. Isto é, por exemplo, o que acontece neste trecho, quando, face a
uma audiência de lingüistas que supõe conhecer e operar com o conceito de gênero
discursivo, o orador opta por justificar por que tratará esse item (gênero
discursivo) e tão rapidamente (“falar-lhes muito brevemente – pois isso vocês
conhecem – fazer um pequeno apanhado da noção de gênero, pois é ‘os gêneros
escritos e orais’ e… evidentemente, não posso não falar dos gêneros, mas muito
brevemente”).
Por outro lado, o texto oral
constituído sobre os slides apresenta algumas das características antes
mencionadas de descontinuidade sintática, auto-correção e retomada etc.
- Ensuite, regarder l’école,
qu’est-ce/ l’école étant donné que c’est une institution sociale, il y a
une “sphere d’activité”, comme dirait Bakhtine; quel est le rapport
entre, de manière générale, l’école et les genres
- Donc, l’école, la forme
scolaire, parce que c’est, pour moi, la forme scolaire qui définit les
genres
- Et
adopter, dans un premier point/ dans un premier temps, le point de vue
de la transposition didactique
Uma maneira diferente de reformular
por acréscimo o texto dos slides ocorre no exemplo 2.
Exemplo 2:

Alors,
maintenant, les rapports entre genres oraux et genres écrits, eh...
Dans un/ première/ distinction/ Donc la première defini// Pas
définition, le premier principe que nous définissons c’est que nous
nous limitons – mais ça fait déjà beaucoup – aux genres publiques,
c’est-à-dire, aux genres qui peuvent circuler, être accessibles à des
groupes ou des larges masses de gens, à l’opposée à des genres privés,
que nous ne traitons pas d’une certaine manière comme un objet à
enseigner. C’est un principe de base, mais qui est lié à notre
conception de l’école comme un lieu précisement publique, relativement
pas coupé mais séparé
de la sphère privée etc. Donc, c’est ça un principe de base. Ce
qu’évidemment, pour les genres oraux, exclut tout une série de genres,
mais également pour les genres écrits.
Le deuxième principe c’est
que le rapport entre genres oraux et genres écrits n’est pas un rapport
de dicotomie. C’est plutôt un rapport d’une certaine manière de
continuité et d’effet mutuel, c’est-à-dire, des genres oraux peuvent
soutenir des genres écrits; des genres écrits peuvent soutenir des
genres oraux. Ils sont en mutuelle interdépendence, chaque genre oral
traduit/ chaque genre oral prêté à l’école, en général, présuppose de l’écrit, tout comme chaque genre écrit travaillé à l’école préssupose
de l’oral. Donc, d’une certaine manière c’est une
distinction relativement artificielle, ce qui ne veut pas dire qu’après,
la production à un certain moment est écrite de manière dominante, mais
il y a un entrelacement continuel. D’ailleurs, chaque genre est
toujours aussi soutenu/ un genre oral est toujours aussi soutenu par
un genre oral lui-même, c’est-à-dire, il y a toujours un genre oral et
un genre oral sur le genre oral, ãn? un discours sur. Il y en a donc,
ici/ ãn…/ chaque genre est toujours aussi objet d’autres genres en
quelque sorte. Et donc il y a toujours le parler pour écrire, l’écrire
pour parler, l’écrire pour écrire, le parler pour parler, ce qui montre
que toujours un genre est dépendent d’autres genres, ce qui est un
phénomène d’intertextualité évidente, mais qui est à la base de notre
travail toujours.
Dada a extensão da reformulação feita
sobre o texto deste slide, vamos comentar apenas as reformulações e
acréscimos propostos para os últimos dois itens da lista com marcadores do slide, até porque estes dois tópicos expõem conteúdos importantes para nossa
discussão neste artigo. Neste ponto da conferência, o orador expõe dois
princípios de base para o tratamento dos “gêneros orais a ensinar”, reproduzidos
no slide, e que são definidos, exemplificados e sustentados, por meio de
acréscimos feitos ao texto primeiro:

Quadro 6 – Reformulações e
acréscimos feitos oralmente aos dois últimos itens do slide.
Vemos que, nesse segundo modo de
reformulação por acréscimo, esta é bastante mais extensa e, nele, o tópico do slide funciona como uma espécie de lembrete para o desenvolvimento de toda
uma fala que inclui, como vimos, (re-)definições, explicações, reformulações,
paráfrases do já-dito, exemplificações. Também aqui estão presentes as formas de
(des-)continuidade da fala, marcadas em negrito no exemplo, índices em geral de
busca e da seleção lexical mais adequada, que leva a reformulações responsáveis
pelo caráter “entrecortado” da produção oral.
Estas são, portanto, duas maneiras
principais de reformular por acréscimo os textos dos slides. É importante
lembrar que, durante a conferência, para a platéia como para o orador, o fluxo
textual dos slides rege e organiza a produção textual da fala, de tal
maneira que descontinuidades no fluxo dos slides causarão
descontinuidades no fluxo da fala. O fluxo dos slides serve também para o
controle, por parte do orador, do tempo de fala.
Exemplo 3:
“On peut
le montrer d’ailleur: cette sédimentation elle fonctionne. J’ai un tout
petit/ le prochain annonce/ oui/ c’est ça/ le prochain petit tableau là/
voilà/ dit juste ici /

Donc,
on a fait un étude sur quelque chose comme 300, 400 enseignants pour
savoir quels sont les genres qu’ils enseignent.”
Exemplo 4:
Bien, je termine ici ces
quelques éléments de/ sur la refléxion sur les genres enseignés du point
de vue de la transposition didactique et je passe au prochain point sur
le point de vue de l’ingénierie. Alors, j’ai déjà utilisé une heure,
est-ce que vous m’accordez encore… (risos
e interrupção da moderadora concedendo tempo) Voilà, donc… Je vais
encore faire un quart d’heure ou dix minutes comme ça, si vous avez
encore de la patience. Alors…
Conclui-se, desta primeira parte, que
conferência e apresentação power point são dois gêneros que, embora se
materializem em modalidades diferentes (gráfica, fônica), não podem ser
considerados como separados num contínuo entre oralidade e escrita, a
apresentação mais alinhada com a escrita e a conferência mais alinhada com a
oralidade devido à materialidade de cada uma. Ao contrário, são gêneros
secundários mutuamente constitutivos, um fazendo parte do outro de maneira
determinante. A forma composicional e os temas da apresentação serão retomados e
constituirão a forma composicional e temas da conferência, que expande e
re-organiza o texto escrito da apresentação por meio do acréscimo de definições,
explicações, reformulações etc. A fala da conferência flexibiliza o estilo
formal e público da apresentação, podendo adotar registros relativamente mais
informais e distensos. A relação entre um e outro não é de semelhanças e
diferenças entre textos prototípicos num continuum, mas de efeito mútuo e
de entrelaçamento. Uma relação dialógica no sentido bakhtiniano, em que um
enunciado da apresentação constitui “um elo (detonador de outros elos) na cadeia
de fala” da conferência. Cabe também lembrar que os enunciados da apresentação
já são eles próprios elos-síntese de outros textos e enunciados, escritos ou
lidos pelo orador produtor do texto da apresentação.
Mesmo conceitos bakhtinianos forjados
para explicar o dialogismo nos gêneros, como os de “intercalação” e o de
“hibridismo”,
não são exatos para explicar as relações intertextuais e interdiscursivas aqui
presentes, que se apresentam como partes tramadas de um discurso cujo
funcionamento é conjunto e mutuamente determinado.
5 A transcrição da conferência – novos procedimentos de retextualização
Na transcrição desta conferência
operam muitos dos procedimentos já discutidos em detalhe em Marcuschi (2001a) –
sobretudo, procedimentos de “idealização” e de “reformulação”. Comparemos as
falas da conferência com as transcrições efetuadas, no quadro 7.
|
Trecho da
conferência |
Transcrição |
|
“Je vais, dans un
premier temps/ Donc, c’est un peu le plan que je vais suivre/ Je
vais parler une heure, une heure et quart, quelque chose de ce
type-là/ faire quelques brefs préliminaires; ensuite, vous parler
très brièvement – parce que ça vous connaissez – faire un petit
rappell de la notion de genre, puisque c’est “les genres écrits et
oraux” et… évidemment, je ne peux pas ne pas parler des genres, mais
très brièvement. Ensuite, regarder l’école, qu’est-ce/ l’école étant
donné que c’est une institution sociale, il y a une “sphere
d’activité”, comme dirait Bakhtine; quel est le rapport entre, de
manière générale, l’école et les genres et je vais ici introduire la
notion de “forme scolaire” parce que, à mon avis, c’est cette “forme
scolaire”, qui est une forme sociale, […] Donc, l’école, la forme
scolaire, parce que c’est, pour moi, la forme scolaire qui définit
les genres qui sont à l’intérieur de l’école. Je vais, ensuite, […]
regarder les genres en français, dans la langue maternelle
“français”, et adopter, dans un premier point/ dans un premier
temps, le point de vue de la transposition didactique et ensuite je
vais revoir les genres en français, mais, cette fois-ci, adopter le
point de vue de l’ingénierie – vous verrez un petit peu qu’est-ce
que ça signifie tout-à-l’heure. C’est deux manières de regarder la
même realité de deux points de vue, précisement, quoi.
Je vais terminer sur les
genres pour enseigner, et ceci fait le lien avec la
conférence de demain. Et donc, voilà.
Ça sera ‘un affaire à suivre’”. |
“Je vais, dans un
premier temps
Æ
, faire
quelques brefs préliminaires; ensuite vous parler très brièvement –
puisque cela vous connaissez – pour faire un petit
rappell de la notion de genre, puisque le thème ce sont les
genres écrits et oraux et évidemment je ne peux pas ne pas parler
des genres, mais très brièvement. Ensuite, regarder l’école
Æ
, étant
donné que c’est une institution sociale, une sphere
d’activité, comme dirait Bakhtine; quel est le rapport, de
manière générale, entre l’école et les genres et je vais ici
introduire la notion de formes scolaires, parce que, à mon
avis, c’est cette forme scolaire, qui est une forme sociale,
Æ
qui définit
les genres qui sont à l’intérieur de l’école. Je vais, ensuite,
regarder les genres à l’enseignement du Français langue
maternelle et adopter, dans un premier temps, le point de vue de
la transposition didactique et ensuite je vais revoir les genres en
Français, mais, cette fois-ci, adopter le point de vue de
l’ingénierie – vous verrez un petit peu ce qui
ß
que? cela signifie tout-à-l’heure. Ce sont deux manières de
regarder la même realité de deux points de vue, précisement
Æ
. Je vais
terminer sur les genres pour enseigner, ce qui fait le
lien avec la conférence de demain.
Æ”
|
|
“Alors, maintenant, les rapports entre genres oraux et genres
écrits, eh... Dans un/ première/
distinction/ Donc la première défini/ Pas définition, le premier
principe que nous définissons c’est que nous nous limitons – mais ça
fait déjà beaucoup – aux genres publiques, c’est-à-dire, aux genres
qui peuvent circuler, être accessibles à des groupes ou des larges
masses de gens, à l’opposée à des genres privés, que nous ne
traitons pas d’une certaine manière comme un objet à enseigner.
C’est un principe de base, mais qui est lié à notre conception de
l’école comme un lieu précisement publique, relativement pas coupé
mais séparé de la sphère privée etc. Donc, c’est ça un principe de
base. Ce qu’évidemment, pour les genres oraux, exclut tout une serie
de genres, mais également pour les genres écrits.” |
“Alors, maintenant,
les rapports entre genres oraux et genres écrits.
Æ
La première
distinction, le premier principe que nous définissons c’est que nous
nous limitons, mais ça fait déjà beaucoup, aux genres publiques,
c’est-à-dire, aux genres qui peuvent circuler, être accessibles à
des groupes ou des larges masses de gens, à l’opposée à des genres
privés, que nous ne traitons pas d’une certaine manière comme des
objets à enseigner. C’est un principe de base, mais qui est lié
à notre conception de l’école comme un lieu précisement publique,
relativement
Æ
séparé de
la sphère privée etc. Donc, c’est un principe de base. Ce
qu’évidemment, pour les genres oraux, exclut tout une série de
genres, mais également pour les genres écrits.”
|
Quadro 7 – Falas da
conferência comparadas às transcrições.
Como processos da operação de
“idealização” da fala a partir da língua escrita, destacam-se os de:
a) “regularização”, por
meio de:
- uso da pontuação gráfica;
- estabelecimento da concordância
verbo-nominal em termos de língua padrão (substituição de “c’est” por “ce sont”;
“genres comme des objets à enseigner”);
- eliminação ou substituição dos
marcadores ligados a um registro informal da língua (“de deux points de vue,
précisement, quoi. Je vais terminer sur les genres pour enseigner,
et ceci ce qui fait le lien avec la conférence de demain. . Et
donc, voilà. Ça sera “un affaire à suivre”.”);
b) “eliminação” das hesitações,
digressões, repetições e correções (“Je vais, dans un premier temps / Donc,
c’est un peu le plan que je vais suivre/ Je vais parler une heure, une heure et
quart, quelque chose de ce type-là/ faire quelque; Ensuite, regarder
l’école, qu’est-ce/ l’école étant donné que; forme sociale, […] Donc, l’école,
la forme scolaire, parce que c’est, pour moi, la forme scolaire qui définit;
genres écrits, eh... Dans un/ première/ distinction/ Donc la première défini/
Pas définition, La première distinction, le premier principe que nous
définissons; l’école comme un lieu précisement publique, relativement pas
coupé mais séparé de la sphère privée”);
e de “reformulação”, ainda que
mínima, por meio de:
c) “Reordenação” sintática: “le
rapport, de manière générale, entre, de manière générale, l’école
et les genres”;
d) “Substituição” e “acréscimo” de
coesivos: “puisque, pour”;
e) “Substituição” de marcas
prosódicas por sintagmas completos, recuperando o sentido de maneira mais
precisa: “puisque le thème ce sont c’est “les genres écrits et
oraux” et… évidemment; regarder les genres à l’enseignement du Français
langue maternelle en français, dans la langue maternelle “français”,
et adopter”.
Sendo a transcrição uma espécie de
“discurso reportado”, estamos aqui no domínio do que Bakhtin/Volochínov (1929,
p. 149) trataram como o fenômeno do “discurso citado”:
[…] Os esquemas lingüísticos
[…], as modificações desses esquemas e as variantes dessas modificações
que encontramos na língua, e que servem para a transmissão das
enunciações de outrem e para a integração dessas enunciações, enquanto
enunciações de outrem, num contexto monológico coerente.
O autor lembra ainda algo fundamental
para este nosso texto: o fato de que “o discurso citado é o discurso
no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma
enunciação sobre a enunciação” (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, 1929, p. 150, ênfase
do autor).
Assim, tanto as relações discursivas
entre os enunciados da apresentação e os da conferência como os da conferência e
os da transcrição seriam fenômenos de discurso citado, de “discursos no
discurso, de enunciações na enunciação”. Mas com uma diferença básica: no caso
da relação dos enunciados da apresentação com os da conferência, estamos diante
de um “estilo pictórico” de citar o discurso e, no caso da relação entre a
conferência e sua transcrição, estamos diante de um “estilo linear autoritário”
(“monumental”) de citar o discurso de autor.
O “estilo pictórico” tem “tendência
para infiltrar o discurso citado com as réplicas e os comentários do autor”
(BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 1929, p. 159). É o que faz o conferencista em relação aos
enunciados dos slides da apresentação: glosa, comenta, replica. O “estilo
linear autoritário” tem tendência a tratar o discurso alheio como um “monumento”, algo que não pode ser alterado e cuja pureza e integralidade
têm de ser preservadas – é o que tentam fazer o tradutor e o transcritor.
Marcuschi (2001a, p. 54) aponta como
uma das variáveis relevantes para a retextualização a “relação entre o produtor
do texto original e o transformador”, dizendo que, quando é o próprio autor que
retextualiza, as mudanças são muito mais radicais e, quando é uma outra pessoa,
esta terá muito mais “’respeito’ pelo original e fará menor número de mudanças
no conteúdo, embora possa fazer muitas mudanças na forma”.
É o que vimos ocorrer na transcrição:
mudanças na forma para adequá-la a uma idealização da língua que tem base na
escrita, mais aceita como variedade padrão, e mudanças no âmbito do conteúdo
somente para torná-lo mais preciso. Seria o que Bakhtin/Volochínov (1929, p.
165) chama de “variante analisadora de conteúdo” do estilo linear. Para ele,
A tendência analítica do
discurso indireto manifesta-se principalmente pelo fato de que os
elementos emocionais e afetivos do discurso não são literalmente
transpostos ao discurso indireto, na medida em que não são expressos no
conteúdo mas nas formas da enunciação. [...] As abreviações, elipses,
etc., possíveis no discurso direto por motivos emocionais e afetivos,
não são admissíveis no discurso indireto por causa da sua tendência
analítica. Esses elementos só entram na sua construção sob uma forma
completa e elaborada.
No caso da variante analisadora de
conteúdo do estilo linear, o discurso do outro é apreendido como “uma tomada de
posição com conteúdo semântico preciso por parte do falante”, e busca-se
transpor ou retextualizar de maneira analítica sua composição objetiva exata (o
que disse o falante). Para Bakhtin/Volochínov (1929, p. 167),
A tendência a tematizar o
discurso de outrem é incontestavelmente inerente a essa variante, e
assim ela preserva a integridade e a autonomia da enunciação, não tanto
em termos sintáticos mas em termos semânticos (vimos como uma construção
expressiva numa enunciação a ser citada pode ser tematizada). Esses
resultados, contudo, só são obtidos ao preço de uma certa
despersonalização do discurso citado.
Para o autor, isso é típico de certos
contextos e esferas de atividade humanos, que ele qualifica como “um contexto
enunciador suficientemente racional e dogmático”, em que se manifesta um “forte
interesse pelo conteúdo semântico, e onde o autor afirma, através de suas
próprias palavras, com sua própria personalidade,
uma posição de forte conteúdo semântico”.
Portanto, as apreciações de valor que
levam o transcritor a retextualizar e modificar um texto oral original são
fortemente ligadas à propriedade da palavra, a monumentalidade da palavra e
disso decorre uma tendência a preservação do conteúdo.
São, no entanto, tendências diversas
de “apreensão ativa” do discurso alheio ou anterior que se manifestam na
transmissão ou recepção do discurso: uma “relação ativa” de uma enunciação a
outra, uma “reação da palavra à palavra”.
Também Marcuschi (2001a, p. 70)
aponta que “para poder transformar um texto é necessário compreendê-lo ou pelo
menos ter uma certa compreensão dele”. Por isso, o autor coloca como 4º
bloco das operações de retextualização as operações “cognitivas” de compreensão
(“inferência, inversão, generalização”).
Para Bakhtin/Volochínov (1929, p. 154), no entanto, essas “operações cognitivas”
seriam movimentos do “discurso interno” e o autor dá especial atenção a
dois desses movimentos: o de “réplica interior” e o de “comentário
efetivo” (termos tomados por Bakhtin/Volochínov a JARUBINSKY, s.d.):
Aquele que apreende a
enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavra, mas ao
contrário um ser cheio de palavras interiores. Toda a sua atividade
mental, o que se pode chamar o ‘fundo perceptivo’, é mediatizado para
ele pelo discurso interior e é por aí que se opera a junção com o
discurso apreendido do exterior. A palavra vai à palavra. É no quadro do
discurso interior que se efetua a apreensão da enunciação de outrem, sua
compreensão e sua apreciação, isto é, a orientação ativa do falante.
Esse processo efetua-se em dois planos: de um lado, a enunciação de
outrem é recolocada no contexto de comentário efetivo (que se confunde
em parte com o que se chama o fundo perceptivo da palavra); na situação
(interna e externa), um elo se estabelece com a expressão facial, etc.
Ao mesmo tempo prepara-se a réplica (Gegenrede).
Em nossos dados sob análise, os
movimento desta apreensão ativa por parte da pessoa que elaborou a transcrição é
revelado, em parte, pela tradução feita pela mesma pessoa, no momento da
conferência, exibida no quadro 8:
|
Trecho da
conferência |
Tradução |
Transcrição |
|
“Je vais, dans un
premier temps/ Donc, c’est un peu le plan que je vais suivre/ Je
vais parler une heure, une heure et quart, quelque chose de ce
type-là/ faire quelques brefs préliminaires; ensuite, vous parler
très brièvement – parce que ça vous connaissez – faire un petit
rappell de la notion de genre, puisque c’est “les genres écrits et
oraux” et… évidemment, je ne peux pas ne pas parler des genres, mais
très brièvement. Ensuite, regarder l’école, qu’est-ce/ l’école étant
donné que c’est une institution sociale, il y a une “sphere
d’activité”, comme dirait Bakhtine; quel est le rapport entre, de
manière générale, l’école et les genres et je vais ici introduire la
notion de “forme scolaire” parce que, à mon avis, c’est cette “forme
scolaire”, qui est une forme sociale, […] Donc, l’école, la forme
scolaire, parce que c’est, pour moi, la forme scolaire qui définit
les genres qui sont à l’intérieur de l’école. Je vais, ensuite, […]
regarder les genres en français, dans la langue maternelle
“français”, et adopter, dans un premier point/ dans un premier
temps, le point de vue de la transposition didactique et ensuite je
vais revoir les genres en français, mais, cette fois-ci, adopter le
point de vue de l’ingénierie – vous verrez un petit peu qu’est-ce
que ça signifie tout-à-l’heure. C’est deux manières de regarder la
même realité de deux points de vue, précisement, quoi.
Je vais terminer sur les
genres pour enseigner, et ceci fait le lien avec la
conférence de demain. Et donc, voilà.
Ça sera ‘un affaire à suivre’”. |
“Neste primeiro
pedaço, ele anunciou um pouco o que ele pretende fazer durante a
conferência/ ãn… que é fazer alguma/ depois de algumas
observações preli-minares, ãn… fazer algumas/ retomadas né? teóricas
da noção de gênero com a qual ele está trabalhando . Como o
gênero é algo ligado a diversas esferas, passar em seguida à escola
como uma esfera que gera ela mesmo gêneros, né?, criadora de gêneros
e fazer um pouquinho uma reflexão sobre o funcionamento dessa
esfera, a forma de funcionamento da escola. Em seguida
passar para o gêneros em francês, claro né?, que é a cultura que
ele vive, né?, sob o ponto de vista da transposição didática,
ou seja de como trabalhá-los na escola e do mecanismo de
trans-posição. E ãn… quase finalmente, retomar do/ retomar a
questão dos gêneros em francês, em francês, mas desta vez não do
ponto de vista da transposição, mas do ponto de vista de algo que
ele está chamando “sua engenharia”, né? Eu tô imaginando seu
funciona-mento, sua estrutura, enfim, “engenharia” aí deve estar
fundindo as duas noções, suponho. Ãn… E aí, por fim, pra
terminar, ele quer falar dos gêneros para ensinar, né?, ãn…, o que,
segundo ele, faz a conexão com a conferência de amanhã. ” |
“Je vais, dans un
premier temps , faire quelques brefs préliminaires; ensuite
vous parler très brièvement – puisque cela vous connaissez –
pour faire un petit rappell de la notion de genre, puisque
le thème ce sont les genres écrits et oraux et évidemment je ne
peux pas ne pas parler des genres, mais très brièvement. Ensuite,
regarder l’école , étant donné que c’est une institution
sociale, une sphere d’activité, comme dirait Bakhtine;
quel est le rapport, de manière générale, entre l’école et
les genres et je vais ici introduire la notion de formes
scolaires, parce que, à mon avis, c’est cette forme scolaire,
qui est une forme sociale, qui définit les genres qui sont
à l’intérieur de l’école. Je vais, ensuite, regarder les genres à
l’enseignement du Français langue maternelle et adopter, dans un
premier temps, le point de vue de la transposition didactique et
ensuite je vais revoir les genres en Français, mais, cette fois-ci,
adopter le point de vue de l’ingénierie – vous verrez un petit peu
ce qui cela signifie tout-à-l’heure. Ce sont deux manières de
regarder la même realité de deux points de vue, précisement .
Je vais terminer sur les genres pour enseigner, ce qui
fait le lien avec la conférence de demain. ” |
Quadro 8 – Comparação de
trechos da conferência, da tradução oral concomitante e da transcrição.
No quadro 8, vemos que a tradução
quase-simultânea – que podemos tomar como indícios dos mecanismos de compreensão
do discurso – adota um estilo menos linear e mais pictórico de transmissão do
discurso alheio, embora ainda analisador de conteúdo e não de expressão. Ou
seja, a tradutora se permite fazer uma série de “comentários efetivos” sobre os
enunciados do conferencista, que vão desde comentários meta-enunciativos (“ele
anunciou um pouco o que ele pretende fazer durante a conferência”), até
generalizações (“forma de funcionamento da escola”, referindo a relação entre
escola e gêneros e às formas escolares), interpretações inferenciais (“claro
né?, que é a cultura que ele vive, né?”; ou “’sua engenharia’, né? Eu tô
imaginando seu funcionamento, sua estrutura, enfim, ‘engenharia’ aí deve estar
fundindo as duas noções, suponho”) e marcações da responsabilidade de autoria (“algo
que ele está chamando ‘sua engenharia’”; “o que, segundo ele, faz a
conexão com a conferência de amanhã”). Além disso, a tradutora elimina do
discurso todas as marcas interativas com a platéia e os indícios de fala situada
e implicada (“vous parler très brièvement – parce que ça vous connaissez –“;
“vous verrez un petit peu qu’est-ce que ça signifie tout-à-l’heure”; “Et donc,
voilà. Ça sera ‘un affaire à suivre’”).
Por que a mesma
tradutora/transcritora adota estilos tão diferenciados na tradução e na
transcrição? Interferência da materialidade textual (oral na tradução, escrita
na transcrição)? Situação de produção de cada discurso? Para Bakhtin/Volochínov
(1929, p. 152),
[...] Há diferenças
essenciais entre a recepção ativa da enunciação de outrem e sua
transmissão no interior de um contexto. É conveniente levar isso em
conta. Toda transmissão, particularmente sob forma escrita, tem seu fim
específico: narrativa, processos legais, polêmica científica, etc. Além
disso, a transmissão leva em conta uma terceira pessoa – a pessoa a quem
estão sendo transmitidas as enunciações citadas. Essa orientação para
uma terceira pessoa é de primordial importância: ela reforça a
influência das forças sociais organizadas sobre o modo de apreensão do
discurso.
Embora sejam dois discursos de
transmissão da palavra alheia, no caso da tradução, esta se dirige a uma platéia
especializada que a tradutora supõe desconhecer a metáfora da “engenharia”,
por exemplo, o que talvez a leve a comentá-la. No caso da transcrição, esta
foi feita para que o próprio autor a transformasse em artigo a ser traduzido.
Portanto, esta busca preservar ao máximo a fidelidade ao conteúdo do dito, num
estilo linear autoritário.
6 Sistemas de atividades e sistemas de gêneros
A análise aqui desenvolvida visou
exemplificar as relações complexas e de mútua constituição que escritas e fala
apresentam nos gêneros orais formais públicos. Foi realizada sobre uma
conferência acadêmica – assim como Marcuschi (2001a) dedica espaço à análise de
entrevistas transcritas e publicadas –, mas pode inspirar a análise de outros
gêneros orais formais e públicos tão complexos quanto a conferência acadêmica,
mas que apresentam outros tipos de relação entre escritas e falas e outros
rituais: notícia televisiva, encenação de peça teatral, seminário, apresentação
empresarial etc.
Evidentemente, as restrições de
espaço deste artigo permitiram somente uma análise grosseira do material.
Haveria ainda, por exemplo, a necessidade de uma análise prosódica detalhada
desses eventos (uma análise do ponto de vista do oral ele próprio), assim como
uma análise dos processos de referenciação no desenvolvimento da fala poderia
trazer elementos importantes sobre os acréscimos que o conferencista faz ao
texto previamente escrito (a apresentação). Além disso, seria também
interessante enfocar as relações intergenéricas e intermodais do ponto de vista
da audiência, por meio, por exemplo, de uma análise das notas que a platéia toma
durante uma conferência. Processos intergenéricos, intertextuais e
interdiscursivos de retextualização de uma escrita para outras escritas poderiam
ser verificados no cotejamento entre transcrição da conferência, artigo
resultante e sua tradução.
No entanto, a análise foi suficiente
para podermos verificar que, paradoxalmente, a própria noção de
“retextualização” (MARCUSCHI, 2001a) é um argumento a favor – e uma ferramenta
de análise – dos processos de mútua constitutividade escrita/oral no gênero e
não do continuum de gêneros. A proposta de “continuum fala/escrita” (MARCUSCHI, 2001a) exige uma certa fixação do gênero num ponto do
gradiente, mais próximo da escrita ou da oralidade, que leva a ignorar o
processo pelo qual escritos e fala se tornam elos de uma cadeia de enunciados,
de maneira dinâmica.
Um enfoque promissor e dinâmico
dessas relações complexas entre escritas e textos orais em gêneros orais formais
públicos talvez possa tomar como base as noções de “sistema de gêneros” como
parte de um “sistema de atividades”
propostas por Bazerman (2005a, p. 32-33). O autor, tematizando as relações
intergenéricas em atividades de sala de aula, afirma que
Um sistema de gêneros
compreende os diversos conjuntos de gêneros utilizados por pessoas que
trabalham juntas de uma forma organizada e também as relações
padronizadas que se estabelecem na produção, circulação e uso desses
documentos. Um sistema de gêneros captura as seqüências regulares com
que um gênero segue um outro gênero, dentro de um fluxo comunicativo
típico de um grupo de pessoas. (BAZERMAN, 2005a, p. 32)
Vimos, na análise, que um gênero não
somente segue a outro no sistema de atividades e gêneros da conferência, mas
toma os textos do outro como parte de si próprio, em permanente dialogia,
intertextualidade e interdiscursividade, e que isso demanda certas capacidades
lingüístico-enunciativas e de ação, como a de incorporar o discurso alheio e
reportá-lo de diferentes formas.
Encarar as relações entre escritas e
falas públicas de forma dinâmica e mutuamente constitutiva talvez possa nos
levar, no campo aplicado, a novas propostas para análise e ensino das formas bi
ou multimodais de fala, tão relevantes para o exercício da cidadania no mundo
contemporâneo.
Referências
BAKHTIN, M. M./Volochínov, V. N.
Marxismo e filosofia da linguagem. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1981 [1929].
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______. Questões de literatura e de estética – A teoria do
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Recebido em 02/12/05. Aprovado em 13/07/06.
Resumos
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Title:
The relationship between orality/writing in formal and public oral
genres: the case of the academic conference |
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Author:
Roxane Rojo, Bernard Schneuwly |
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Abstract: The relations of continuity and
mutual constituency between oral and written language are central to the
understanding of how formal and public oral genres function in educated
discursive communities, as well as to the understanding of the phenomena
of literacy and the teaching-learning of languages at school. In this
article we analyse a formal public oral genre – the academic conference
– in terms of the relationship between orality-writing, orality-orality,
and writing-writing in the constitution of the conference and its
“retextualization” (MARCUSCHI, 2001a) as a transcription. The bases for
this analysis are several oral and written texts produced by/around a
conference given by Bernard Schneuwly. Finally, we argue that, in formal
public oral genres, there is a complex relation of mutual effect and
interference between orality and writing, a relation that can be better
understood in terms of the “activity systems” which put into circulation
and in contact “genre systems” (BAZERMAN, 2005a, 2005b). |
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Keywords: genre; orality; writing;
academic conference; teaching.
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Tìtre: Les relations
oral/écrit dans les genres oraux formels et publics: le cas de la
conférence académique |
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Auteur:
Roxane Rojo, Bernard Schneuwly |
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Résumé: La question qui concerne les
rapports de continuité et d’une mutuelle constitutivité entre le langage
oral et l’écrit constitue la plus grande importance pour la
compréhension du fonctionnement des genres oraux formels et publics et
des genres de texte écrit dans nos sociétés lettrées, de même que des
phénomènes d’alphabétisations et de l’enseigenement-apprentissage des
langues dans les écoles. Dans cet article, on
entend faire un exercice d’analyse d’un genre oral formel et public – la
conférence académique – dans les termes des relations oral-écrit,
oral-oral et écrit-écrit dans la constitution de la conférence et dans
sa «retextualisation» (MARCUSCHI, 2001a) comme transcription. On
adoptera comme données divers textes oraux et écrits mis en jeu dans une
conférence présentée par Bernard Schneuwly. À la fin, on fera la défense
de la place que l’oralité et l’écrit maintiennent une relation complexe
d’un effet mutuel et d’interférence dans les genres oraux formels
publics, qui peuvent se faire mieux comprendre dans des termes de « système
d’activités » qu’ils mettent en circulation et en rapport des « systèmes
de genres » (BAZERMAN, 2005a, 2005b), entendus dans le sens bakhtinien
du terme. |
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Mots-clés: genre
discoursif; oralité; écriture; conférence académique; enseignement.
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Título:
Las relaciones
oral/escrita en los géneros formales y públicos: el caso de la
conferencia académica |
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Autor:
Roxane Rojo, Bernard Schneuwly |
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Resumen:
La cuestión de
las relaciones de continuidad y de mutua constitutividad entre el
lenguaje oral y el escrito es de gran impotancia para la comprensión del
funcionamiento de los géneros orales formales y públicos y de los
géneros de texto escrito en nuestras sociedades alfabetizadas, así como
de los fenómenos de los alfabetizados y de la enseñanza-aprendizaje de
lenguas en las escuelas. En este artículo, pretendemos hacer un
ejercicio de análisis de un género oral formal y público - la
conferencia académica - en términos de las relaciones entre
oral-escrita, oral-oral y escrita-escrita en la constitución de la
conferencia y en su retextualización (MARCUSCHI, 2001a) como
transcripción. Como datos se usó los múltiples textos orales y escritos
en una conferencia proferida por Bernard Schneuwly. Al fin, se defenderá
que la oralidad y escrita mantenien una relación compleja de mutuo
efecto e interferencia en los géneros orales formales públicos, que
puede ser mejor comprendida en términos de “sistema de actividades” que
ponen en circulación y en relación “sistemas de géneros” (BAZERMAN,
2005a, 2005b), entendidos en el sentido bajtiniano del término. |
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Palabras-clave:
géneros
discursivos; oralidad; escrita; conferencia académica; enseñanza.
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Notas
Para Bakhtin/Volochínov (1929, p. 159), “o discurso retórico,
diferentemente do discurso literário, pela própria natureza da sua
orientação, não é tão livre na sua maneira de tratar as palavras de
outrem. Ele tem, de forma inerente, um sentimento agudo dos direitos de
propriedade da palavra e uma preocupação exagerada com a autenticidade”.
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